Sábado, Julho 11, 2009

A HISTÓRIA DE AMOR DA PUTA E SEU CLIENTE

Terminou o noivado havia meses e saiu de casa determinada. Agora, caminhando pela calçada, não há mais como desistir. Entre medo e desejo, vive sua fantasia: ser puta em São Paulo.

Depois de algum tempo, um carro pára, mas ela não gosta do aspecto do homem. Dizem que não se pode escolher. Bobagem. Basta jogar o preço lá pro alto. Ele não topa e segue adiante. Mais dois param e ela faz a mesma coisa. Puta não pode escolher? Ela ri.

Agora, sim, chega um que a atrai. Não está nisso pela grana, quer esquecer o noivo que desistiu de tudo. Aliás, ficar noiva sempre foi uma cafonice exigida pelo pai. O mesmo pai que exigiu festa de debutante, coisa que aceitou por conta da viagem a Miami integrada ao pacote. Tudo cafona, claro, mas àquela altura valia a pena.

E lá estava o objeto de sua fantasia: carro bom, homem bonito e cheiroso. Conversam sobre o preço e ela, sem querer, deixa escapar o valor alto. Ele ri, acha estranho, mas sem pechinchar acaba topando. Deve ser rico, ela pensa. E vão ao motel. Na portaria, ele sugere a suíte mais cara. Tudo muito bom para ser verdade.

Boa, mesmo, é a noite que segue. Ao contrário da premissa lógica, mas seguindo a lenda urbana da brasilidade, ela é uma puta que goza. E muito, durante a noite em que deveria única e tão-somente agradar a quem lhe pagou; mas, justiça seja feita, satisfazer a mulher também é parte do prazer masculino.

Dormem e acordam juntos. Ele então diz ter sido a melhor noite de sua vida, algo inesquecível, tal e coisa. Ela se lembra de que é uma máxima do mundo masculino: todos dizem isso a todas as putas, em seguida ele dirá: "por que você não sai dessa vida?". Claro, ele diz.

Ela não concorda, fala das contas a pagar, alega não acreditar na proposta, sugere que ele diz isso a todas, entre outros argumentos. Mas, diante da persistência, ela propõe que se encontrem mais e mais vezes, dando-lhe a chance de convencê-la. Ela também gostou dele.

E assim acontece. Ao menos duas vezes por semana, eles se encontram, sempre no mesmo motel. E, em todas as vezes, ele paga pelo serviço, pelo táxi, por tudo; o mesmo preço altíssimo. Isso acontece durante quase cinco meses, até que ela o chama para um jantar, e esse será o primeiro encontro fora do ambiente padrão.

Após a sobremesa, ela conta a história inteira. Em princípio, incrédulo, ele só muda de opinião quando ela entrega um presente. É uma caixa com todo o dinheiro que ele pagou , tudo. São todas as notas num pacote devidamente embrulhado e, além disso, uma carta apaixonada.

É a forma que ela encontrou para, finalmente, dizer que está também apaixonada e enfim aceita a proposta.

Ambos se emocionaram e ele, ainda atônito, apenas pede para pensar um pouco, levando consigo o pacote. Vai pra casa, avisa que ligará para saírem. Enfim, viverão uma vida um pouco mais normal. Ela entende perfeitamente e também volta.

Começarão, afinal, uma história de verdade.

* * *

No carro, ele só não se sente menos idiota porque, no fim das contas, está com o dinheiro todo em suas mãos. Sua grande tara era conquistar uma puta, fazer uma garota de programa largar "essa vida".

Mas o que acontece? Por um azar desgraçado, passou todo esse tempo com uma puta "de mentira", ou o que quer que fosse aquilo. Em vez de ser o malandro de suas fantasias, foi mais uma vez um grande otário, e dessa vez enganado por uma "não puta".

O pior de tudo - ou melhor? - é que nem estava apaixonado. E agora, por sinal, nutria era uma raiva sem tamanho por aquela mulher. Muito embora soubesse que ela, no fundo, não tinha tanta culpa.

Ainda assim, não vai mais ligar para ela. Perdeu a graça.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

ITAMAR E TARSÍSIO

Nem todo colega é amigo. Aqueles dois, porém, eram não apenas amigões, mas também inseparáveis. E compadres. Não como se diz no interior. Um batizou o filho do outro, mesmo.

Mas algo não ia bem.

Trabalhavam na redação do Show da Noite, o melhor programa da emissora, mas Itamar não emplacava um quadro havia meses. No máximo, e quando muito, ajudava no suporte das idéias alheias. O pior era o seguinte: as grandes idéias vinham sempre de Tarsísio, seu compadre.

Eis que o talentoso amigo não teve outra saída a não ser emprestar uma idéia ao grande companheiro em plena má-fase. Não era, verdade seja dita e justiça seja feita, uma coisa assim tão brilhante. Mas, sem dúvida, passaria. E seria o bastante para evitar a demissão de Itamar - ou ao menos adiá-la.

Conversaram, tudo foi combinado, idéia apresentada na tal reunião de pauta e, como previsto, foi aprovada. Também como previsto, sem entusiasmo algum. Mas nem todos os fatores são passíveis de previsão: coube ao estreante Chico Capivara fazer o quadro.

E Chico estourou.

Durante todo o ano aquele passou a ser o grande sucesso do Show da Noite, a ponto de se transformar em programa próprio. Foi aí que a gratidão se transformou em culpa, e Itamar conversou com Tarsísio. Ambos, conciliados, tiveram com a diretoria e chegaram a bom termo.

O programa, de fato, saiu. Levaram Tarsísio para a redação-geral, e não Itamar. Este ficaria mesmo no Show da Noite; mas, por força contratual, levou um bom dinheiro pela "cessão dos direitos autorais", haja vista que era o então proprietário oficial daquela atração. Um bom negócio, afinal.

Na verdade, do ponto de vista estritamente comercial, um negócio excelente. Isso porque o programa naufragou e foi cancelado em questão de semanas. Tarsísio voltou ao Show da Vida e, sabe-se lá por qual sanha vingativa, os Diretores acabaram por demitir Itamar.

Curioso, mesmo, foi que ele passou a ter boas idéias. Hoje ganha muito dinheiro escrevendo aqueles livros modernos que ensinam a ser feliz usando toda sorte de metáforas e analogias. Seu último, por exemplo, comparava executivos de multinacionais com grãos-de-bico em conserva. Vendeu mais de um milhão de exemplares.

Tarsísio não vai bem nem mal. Tentou emplacar o esquete da cantora lírica com síndrome do pânico, casada com um rabino ortodoxo viciado em torresmo, mas não deu certo. Tornou-se refém do quadro da moça dançando seminua ao lado do jogador que faz embaixadinhas enquanto conta piadas - cada semana com a camisa de um time diferente.

Itamar e Tarsísio já estão velhos, mas ainda se vêem sempre. Um não come mais carne vermelha, o outro parou de beber. Ambos não falam mais de trabalho.

Domingo, Março 01, 2009

O NOME ERRADO

Prólogo

Alicate está no sofá, esparramado, jogando videogame, mas um barulho altíssimo vindo da garagem o obriga a desligar tudo e sair correndo, com a arma em punho, assustado.

Para seu alívio, imediatamente alguém avisa que se trata de Ivan, ou apenas Caxeta, encarregado de um serviço. Vão os dois, portanto, para os fundos, onde está o carro do recém-chegado.

- Deu tudo certo? - pergunta Alicate.

- Sim, claro - responde Ivan, visivelmente nervoso.

Então Alicate olha para o carro...

- O que houve, Caxeta! Que porra é essa? Tá tudo amassado, cheio de sangue! Que merda é essa, porra?

- Foi foda, chefe... Era um mendigo e aí não teve jeito...

- Alguém viu essa merda?

- Não, nada, ninguém.

- E lá no restaurante? É isso que eu quero saber. Depois a gente leva esse carro pro corte. Quero saber se lá deu certo.

- Sim, deu. Serviço feito.

- Ótimo. É coisa alta... Mas que merda esse carro!

* * *

II

Noite Anterior


Os dois sócios encerram o expediente da construtora e, como sempre, vão ao restaurante italiano localizado na frente do prédio em que trabalham. É uma casa charmosa, antiga, contrastando com o prédio moderno erguido ao longo de quase vinte anos de sociedade.

São os últimos a chegar, como sempre, e tradicionalmente ocupam alguma mesa dos fundos. A conversa do dia não é das mais agradáveis, mas ainda assim o papo é conduzido sem grandes percalços. João, incisivo, tenta fazer com que Ricardo aceite a proposta do governo. Não é um negócio lícito, mas entrará muito dinheiro para a companhia.

- Não podemos, João! Não precisamos disso, meu velho! As contas estão positivas, temos um cronograma bom...
- Sei disso - João interrompe, cordialmente - Mas é muito dinheiro, Ricardão! É muito dinheiro, cara!
- Depois isso aí dá merda! Você sabe, você sabe, isso aí dá merda! É gravação daqui, é Polícia Federal de lá, dá sempre alguma merda, não tem jeito!

A conversa continua e, sem perceberem, um homem bem vestido conversa com o maître, que aponta para ambos. O homem, então, caminha até lá e, ao chegar, pergunta:

- Boa noite, preciso entregar um projeto para o Ricardo, desculpem o horário?

Ricardo, por brincadeira e para fugir da chateação, aponta para João:

- É ele, fique à vontade!

Mas não dá tempo de esboçar um sorriso, pois o envelope pardo, na verdade, tem por dentro a mão do sujeito, devidamente portando um revólver e, com isso, ele descarrega a arma no peito do amigo. Ricardo se esconde debaixo da mesa e o homem sai correndo depois do quarto ou quinto disparo.

Os empregados do restaurante correm para todos os lados, Ricardo rasteja e mal consegue levantar, João escorrega pela cadeira, morto. Um dos garçons corre até Ricardo, que está debaixo de outra mesa e o ajuda a se levantar. Depois de um tempo, mas ainda antes da polícia chegar, ele vai até o prédio da construtora.

Desesperado, foge.

* * *

III

Ricardo está atônito e não sabe ao certo o que pensar. Sente medo pelo fato de que alguém quer matá-lo e sente culpa porque sua brincadeira idiota acabou com a vida de seu melhor amigo. O maior medo de sua vida surge no exato instante em que sente a maior culpa de todos os tempos.

Enquanto dirige, qualquer barulho mais alto é confundido com o som de uma sirene e, mesmo atordoado, sabe que a qualquer momento pode mesmo ser parado ou ainda bater o carro. É preciso largá-lo em algum lugar, estacioná-lo, deixar em uma garagem, caminhar a pé, hospedar-se em um hotel, motel, algo do tipo.

É preciso fugir de tudo e de todos, procurar seu advogado, avisar sua mulher. Mas e se ela estiver envolvida? Há algum tempo ela quer a separação, o divórcio e tudo mais... Não dá para confiar, não agora. Há muito para pensar, pouco tempo para agir e a única certeza para aquele instante é não perambular com o carro.

Deixa-o, pois, num estacionamento e sai a pé. Toma um táxi e segue adiante até outro bairro. Desce e toma outro táxi que, então, deixa-o no centro da cidade. Agora, acredita, está menos próximo de qualquer problema. Circula a pé, sem gravata. Mas ainda não sabe o que fazer.

Na calçada, as garotas de programa o provocam. Todas. Ele acha aquilo engraçado, pensa num sem-número de teses filosóficas, sociológicas e afins. Uma delas, contudo, não diz nada e, quando ele se aproxima o aborda de forma pouco convencional.

- Moço, seu sapato está desamarrado.

Ele, então agradece, apóia o pé num degrau da calçada e se põe a amarrá-lo. Quando termina, nota que a menina está rindo. Não resiste e pergunta.

- O que houve?

- Nada, não.

- Sério, o que houve?

- Seu jeito de amarrar...

- E o que tem?

- Esses lacinhos... Igual criança.

- E como você amarra?

- Assim, ó...

Ela se abaixa, desamarra e novamente amarra o mesmo sapato bem rapidamente.

- Viu? Eu faço assim.

- E não é a mesma coisa?

- Claro que não! É muito mais rápido.

- Mas dá no mesmo.

- Escuta, você quer fazer um programa?

Ele então pensa e conclui que seria melhor, mesmo, passar a noite fora. Não exatamente fazendo um programa ou qualquer outra coisa que a garota tivesse em mente, mas ao menos em um lugar protegido. Curioso que, para sua proteção, seria um lugar naquelas circunstâncias.

- Sim, sim, eu quero... Mas para onde iríamos?

- Eu tenho meu flat, mas podemos ir para um hotel, se você preferir. Aí é você quem escolhe...

- Podemos ir pro seu flat. Chamo um táxi, tudo bem?

- Claro...

- Qual seu nome?

- Lyu. E o seu?

- Roberto.

Vão então para um bairro relativamente afastado do centrão e, para espanto de Ricardo, o tal flat não é um apartamentinho paupérrimo como imaginou.

* * *

IV

Lyu, ou Rosângela - como já confessou -, pula espantada da cama.

- Como assim! Que história é essa?

- Pois é...

Ricardo, que também confessou seu nome verdadeiro, contou a história inteira. Ela não acredita, acha que ele é louco. Ele já contou três vezes, já chorou e, a essa altura, está em sua enésima dose de uísque.

- Rosângela... Entenda o seguinte: eu matei meu melhor amigo. Nós dois fazíamos planos na época do colégio. Você tem idéia disso? E aí o cara pergunta quem é o Ricardo e eu digo que é ele e... E acaba tudo! Acabou!

- Calma... Não é culpa sua...

- Não é? Não é?!?

- Não, não é... Como você ia saber.

- A questão é outra, menina. A culpa foi minha porque fiz isso em razão da preguiça. Fiz por brincadeira. Fiz para tirar um sarro. Nada disso é traço positivo de caráter, tudo está mais atrelado a vício que a virtude existencial, tudo aí é mais falha que acerto de caráter. Sim, é culpa minha. E, pior: há alguém lá fora querendo me matar. Já devem saber que não morri, que mataram a pessoa errada e estão atrás de mim. E agora?

- Bom, eu...

- Sim, não temos o que saber. E você a essa altura deve me achar um desgraçado. Eu te paguei, taí, paguei em dobro, pago o triplo, só me deixa passar umas horas aqui, eu vou embora...

- Isso não é problema, ninguém sabe que você está aqui. E nem fizemos nada, mas se quiser pagar é claro que aceito.

- Eu pago. Eu vou morrer, não vou? Eu pago. Minha mulher vai acabar ficando com tudo, ainda acho que aquela desgraçada está por trás disso. Então melhor eu te pagar tudo, o dobro ou o triplo ou dez vezes o que você cobra e sem fazer nada. Melhor isso do que ela ficar com qualquer centavo.

- Calma...

- Eu não sei mesmo o que fazer.

- Mas eu sei. Aliás, você deveria saber. Você tá bêbado! Mas deveria ir pra polícia, contar a história inteira e pronto. Você não falou que tem grana? Contrata segurança. Eles fazem aqueles testes lá e sabem que você não teve culpa e tá resolvido.

- Como você sabe?

- Com quem você acha que eu saio? Com quem acha que eu converso? Vou fazer umas ligações aqui, você fica aí deitado e pode deixar que não falo no seu nome.

E, enquanto Ricardo adormece, Rosângela faz o programa mais inusitado de sua vida. Recebendo quase cinco vezes o que ganha por uma noite de sexo, anota num papel toda a consultoria necessária para que seu cliente consiga se dar bem na delegacia.

Horas depois, já com o dia claro, ela o acorda com a solução:

- Ricardo?

- Oi...

- Olha, é assim... Falei com o Ruiz, que é muito meu amigo, e você vai direto lá com ele. Toma um banho, eu explico tudo.

Ricardo toma banho, recebe orientações jurídico-policiais dignas de uma expert e sai feliz e relativamente tranqüilo do flat de Rosângela. No fim das contas, ele pensa, saiu caro por um programa sexual, mas infinitamente barato por uma consultoria jurídica - e ela está igualmente feliz, perto do quanto ganharia por aquela noite.

- Acho que vou mudar de ramo, viu? - diz Rosângela, enquanto ele vai para o elevador.

- Deveria! Você é mesmo muito boa! Mas, sinceramente, com tudo que sua consultoria foi boa, não consigo me livrar da culpa pela morte do meu melhor amigo. Vai ser difícil esquecer do que houve com o João...

Rosângela assente com a cabeça e manda um beijo, uma despedida totalmente fora de contexto, talvez pela prática, o que torna tudo engraçado e ambos riem daquilo.

Ele desce, vai até a calçada e acena para um táxi que passa pelo outro lado da rua. O táxi pára e, ao atravessar, é atingido por um carro que passa em altíssima velocidade. O carro não pára.

Rapidamente, uma multidão cerca o corpo morto de Ricardo. Rosângela olha pela janela, não acredita naquilo, mas não tem coragem o bastante para descer. Nem mesmo para ligar para seu amigo Ruiz.

* * *

Epílogo

Alicate não se conforma com o estrago e novamente chama Caxeta:

- Que merda é isso aqui? Fodeu radiador, complicou tudo! Tem sangue pra todo lado... E isso aqui é um pedaço de paletó, caralho!

- Seguinte, chefe... Não era bem um mendigo, entende...

- Que porra, Caxeta! Então me conta!

- Vim com tudo, tava lá por Moema, e aí peguei um pinguço, não teve jeito, juro!

- Que merda! Me fala! Por que não me fala? É só me falar! Você é foda! Não tem uma merda que te peço que dá certo! Pelo menos no restaurante não deu merda! Dá aqui seu celular!

Com isso, Alicate se distancia da garagem e faz uma ligação. Cai na caixa postal. Liga mais uma vez e, de novo, caixa. Na terceira, deixa o recado:

- Missão cumprida, João. O sócio está definitivamente convencido quanto ao contrato governamental. Boa sorte. Aguardo a segunda parcela do nosso trato.

* * *

Esta é a republicação de um continho antigo, obviamente modificado e reformulado quase que na integralidade. Ocorre que foi enviado ao pessoal dos 3BoludosY1Perro, produtora italiana, e eles APROVARAM (vejam lá no blog deles)! Vai rolar EM SETEMBRO (acabaram de confirmar).

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

LEONARD ZELIG, POR HARRY

Começa quando se apaixonou por uma garota de outras paradas e passou a fazer o diabo para equacionar aquilo, rebaixando-se, humilhando-se... Além disso, esperando por algo que jamais teria, como naquela música em que pedreiro espera pelo aumento do mês que vem desde o ano passado.

Ou como na peça em que os dois amigos esperam um terceiro que nunca chega - curiosamente escrita na língua francesa por um irlandês. Ou mesmo o filme em que os supostos malandros paulistanos, no andar de baixo de uma festa (e sem dela participar), confessam sua miséria existencial - um deles é jogador de sinuca e o outro é músico.

Espera penseira, Becket, festa, sinuca e música? Não! Quanta analogia sofisticada para um vermezinho tão sem nada... Até mesmo tais comparações são impróprias; como o nome, as desculpas, as justificativas, os elogios, os rebaixamentos e as humilhações que suporta.

Sempre esperando. Esperando. E esperando.

Mas o grande erro coletivo é projetar naquela figura aparentemente deplorável qualquer traço de infelicidade. Porque ele nasceu para isso e é para isso que serve. Ele é, sem dúvida, uma pessoa feliz. Ele não está fingindo.

Pode ser que um dia toda a realidade venha à tona e o arranque desse universo paralelo. Mas é hipótese. Na verdade, ele nasceu para esperar e essa espera faz com que se encha de esperança - como o moço da música que espera o trem, e o aumento e todo o resto. Como na peça. Como no filme. A espera é a chave.

Ele realmente acredita que será feliz e faz dessa crença algo tão concreto a ponto de sacar adiantado o crédito de felicidade. E se engana tão bem enganado que acredita verdadeiramente. Daí o equívoco dos que apostam em sua infelicidade.

O moço sorri enquanto rasteja, seus olhos brilham enquanto é pisado. Assim como o masoquismo se trata de uma impossibilidade lógica, sua felicidade é um sentimento genuíno.

Mas não faz sentido trilha-sonora de Chico Buarque quando a profundidade da história é a de uma frase de pára-choque de caminhão: quem nasceu pra lagartixa nunca chega a jacaré.


O autor fecha o bloquinho. Missão cumprida. Pediram a Harry, o desconstruído, que falasse de um atual e já quase totalmente curado Leonard Zelig. Dá no que dá. Por mais trágico que seja, tanto o escritor quanto o objeto da escrita, cada qual à sua maneira e por seus motivos, estarão sempre rindo.

É ridículo. E engraçado.

Notas:
Leonard Zelig, do filme "Zelig" (Woody Allen), é uma personagem cuja habilidade consistia em ganhar os atributos de todos aqueles de quem se aproximava, a fim de fazer parte de todo e qualquer grupo. O filme é uma espécie de documentário-comédia, a exemplo de "Um Assaltante Bem Trapalhão".

Harry, do filme "Desconstruindo Harry" (Woody Allen), é uma personagem cujo talento se resume a colocar seus desafetos em suas obras escritas, mal conseguindo escondê-los. Além disso, sua vida pessoal dava novo valor à palavra "caos".

Domingo, Janeiro 11, 2009

JOÃO E MARIA: SORTE, INFORTÚNIO... E SORTE

Marcaram às escuras, trocando essas correspondências digitais, os emails, mas fato é que não se conheciam tampouco por fotografia. Ainda assim, o risco era mínimo, pois seria um encontro vespertino, estrategicamente calculado para ser rápido, num café bem movimentado do centro da cidade.

Maria chegou primeiro e guardou mesa para dois. Esperou por um tempo e estranhou a demora, até notar um rapaz bonito na mesa ao lado. Corajosa, pediu ao garçom que perguntasse o nome daquele moço e, se fosse João, era pra avisá-lo de que ela seria a Maria.

E assim foi. E foram. Garçom, João, sorrisos amarelos, ele corre para a mesa onde ela está, conversam rapidamente, trocam elogios e ele sugere uma padaria charmosa, próxima dali, com grande variedade de pães importados e mais conforto para conversas prolongadas. Inebriada, ela atende.

Quarenta minutos após a saída de ambos, o esbaforido João chega ao café, mas não encontra ninguém. Mesmo muito envergonhado, liga para Maria e pergunta onde ela está, desculpando-se pelo atraso e por não ter ligado antes. Ela responde ríspida e rapidamente, desligando em seguida. Não gostou do atraso e preferia que não se vissem mais.

Na padaria, desligando o telefone e sabendo da verdade, ela pede, em meio a vários sorrisos, que o "falso João" lhe contasse tudo. O moço então diz que se encantou e não perdeu a chance de fazer o que em princípio seria uma brincadeira, mas agora parece algo concreto, diante do encanto evidente.

Foi como começaram uma história que dura até hoje. Sete anos! Poderia ser uma história de amor, mas na verdade já não se suportam. Maria pensa na separação todo santo dia, Norberto - esse é seu nome real - mal fica em casa e também não vê a hora de acabar com tudo.

João se atrasou por conta da fila da casa lotérica. No fim, foi o único ganhador da aposta que fizera, e hoje é um milionário. Maria nunca soube disso. Desligou o telefone muito rapidamente.

Domingo, Dezembro 28, 2008

MARIA ANGÉLICA

Ela chegou em silêncio, realmente sem fazer barulho algum, feito uma cobra ou um gato, mas isso não faria a menor diferença, pois seu pai a esperava no sofá, sentado de olhos bem abertos. Já era dia, seis e meia da manhã, por aí.

- Maria Angélica, isso são horas?

- Pai! Nossa... Acabei me atrasando e...

- Poupe-me, por favor. Fale a verdade. Não quero desculpas. O que houve? Você não é disso! Fiquei preocupado. Onde estava? Filha minha não é de chegar nesse horário. E você nem ligou!

- Olha, pai... Não vou mentir.

- Pois bem. Não minta! Onde estava?

- No motel!

- No motel? No motel??? Mas que merda é essa, Maria Angélica? É uma brincadeira ou o quê?

- O senhor pediu a verdade...

- Mas precisava ser isso?

- É a verdade...

- No motel...

- Sim, eu estava lá...

- Mas que inferno, Maria Angélica! E com quem?

- Com um rapaz que conheci na boate, saí com as meninas e...

- Alto lá! Você o conheceu ontem à noite, e ontem mesmo...

- Sim...

- Um dia? E no mesmo dia?

- O senhor pediu a verdade...

- Meu Deus! Na minha casa!

- Mas...

- É o fim do mundo! O mundo já acabou, aliás. É o resto do fim do mundo. É a barbárie. É o que acontece depois que o mundo acaba!

- Calma, pai...!

- Calma? Calma? Minha filha sai pra "dançar"... "Teoricamente", não é? E volta no outro dia, né? E silenciosamente, feito um ladrãozinho de galinha que não quer ser ouvido... Pra eu descobrir que passou a noite com um sujeito cujo nome ela nem sabe. Ou sabe?

- Não sei...

- Puta que la merda! Só falta dizer que ele pagou!

- E pagou!

- ...

- ...

- Quanto, filha?

- Setecentos reais.

- Como?

- Setecentos.

- Por uma noite?

- Uma, apenas.

- Nossa... Mas é muito. Setecentos reais é muito dinheiro.

- Tá aqui o cheque, olha...

- Cheque? Cheque, filha? Mas cheque não se aceita assim, caramba! Você é muito inocente.

- Olha!

- Meu Deus, é ingênua demais, olha aqui! É de empresa! Aposto que é de terceiros! Olha! Não é nem desta praça! Isso aqui vai voltar, filha! Caramba! Não adianta a gente dar criação, mesmo, sabe? Não adianta...

- Mas, pai...

- Eu tento te proteger desse mundo desonesto, filhinha. É só isso.

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

JOÃO CONGELADO E O CLICHÊ

João, porque clichê é clichê até no nome, pedira para ser congelado por conta de sua doença incurável. A criogenia, por mais que fosse apenas uma teoria, ainda lhe parecia melhor do que a perspectiva da morte iminente e extremamente próxima ainda quando jovem.

Décadas depois, nos dias de hoje, descongelaram-no e foi enfim curado. Sim, a criogenia não é um erro: sabemos, agora - para João, estamos no futuro -, que se trata de algo real. E ele está saudável, curado, são e salvo de sua doença. Muito pouca gente, aliás, padece desses malefícios virais - e também dos bacterianos etc.

Mas vejam o que aconteceu... Estava ele hoje, hoje mesmo, caminhando pela rua quando um superbus (é esse o nome do veículo, bonito, né?) veio em sua direção. Morte inevitável. O superbus a mais de trezentos quilômetros por hora, João em seu caminho. Não teria como. Depois de décadas congelado, um final tão idiota.

Clichê é clichê.

Mas os superbus têm um dispositivo que os impedem de atropelar qualquer pessoa ou mesmo passar por cima dos objetos, muros ou coisas do gênero, provocando em João um susto imenso, mas nada que fosse além disso.

Morrer imediatamente após o descongelamento? Clichê demais para uma única história. Ninguém mereceria isso, pensava João, enquanto continuava caminhando, admirado com as coisas do novo mundo.

Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

SEM TRILHA SONORA

Nós nunca tivemos a nossa música e isso nunca teve importância alguma. Talvez porque nunca precisássemos parar para escolher uma música ou porque nossa história fosse importante demais para ser interrompida a fim de que escolhêssemos a trilha sonora. Não temos uma música que seja nossa e isso faz com que não a tenhamos e, ao mesmo tempo, todas sejam.

Qualquer acorde é nosso. Qualquer batida em um mísero tambor eu sei que é nosso. Guitarra, violão, gaita de fole, não importa. Somos nós, ali, naquelas notas. Afinadas ou não, isso também não conta. É tudo nosso, porque nada foi escolhido. As trilhas sonoras oficiais são uma caretice de que abrimos mão para ganhar a prerrogativa irresponsável de ter direito a tudo.

Talvez porque o amor é isso: é tudo. Mesmo quando nas piores brigas você ou eu nos agredimos fingindo que seja algo quase igual ao nada. Ou, no máximo, um pouco maior. Ou algo que já tenha passado. Ah, como somos bons em teorias!

Mesmo no pior momento da pior crise no pior dos dias, quando nossos olhos se encontram tudo vai pelo ralo. É como se uma força natural muito maior derrubasse a edificação racional elaborada para resistir a qualquer força.

E não resiste.

O curioso é que não queremos que resista. Sabemos disso. A vida segue. Não sabemos até quando. Aqui faz frio. Você e eu não nos vemos há muito tempo. Eu adoro falar por você com aquela arrogância de quem supõe estar certo. Mais ou menos como quando você fala por mim supondo também estar certa.

Porque ambos estamos.

Queria agora ouvir a nossa música. Mas não a temos. Isso me deixa feliz. Porque nosso amor não tem essa falsidade teatral, não tem script, não tem trilha sonora. Não importa o que eu ouça, ou mesmo não ouça, sei que é nosso. Porque tudo é nosso. E nada também.

Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

A AUTOBIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA DE HERCULANO

É curiosa a historinha do Herculano. Não é alegre, nem triste... Chega quase a ser engraçada. Foi assim: ele escreveu um livro centralizado na figura de um vilão, um sujeito repleto de defeitos, verdadeiro patife.

Era, na verdade, um petardo dirigido ao seu ex-amigo, Tenório. Mas quis o destino que a cidade toda entendesse errado pelas linhas certas (afinal, Herculano não escreve mal, embora seja do tipo que esculpe palavras; o inimigo, ao contrário, é do tipo que as metralha verborragicamente).

Na festa de lançamento, como é próprio aos canalhas, Herculano chegou a posar para fotos com Tenório, e delicadamente não mencionou que se tratava de um livro sobre o próprio - mas a "vítima", atenta, já estava ciente desse pormenor (não era preciso muita astúcia diante das falta de delicadeza do autor).

Na mesma noite, Tenório correu ao jornal e escreveu rapidamente sua coluna, a que sairia já no dia seguinte. Nela, elogiou a obra e parabenizou o amigo, sobretudo em razão da coragem pelo fato de se colocar como o grande vilão do livro. Os fatos e defeitos, portanto, recaíram sobre Herculano.

Claro que o autor tentou refutar por várias vezes, mas já era tarde demais e não teria como. Havia contra si anos de amizade, as fotos da noite anterior, as declarações do autor dizendo que "Tenório seria o único a entender a profundidade da obra", além do fato de que e os elogios da coluna foram rasgadíssimos. Ninguém entendeu como uma ofensa.

O que traiu Herculano foi a falta de hombridade, a mania de agir nas sombras e atacar por trás. Como sua grande virtude foi sempre a simpatia superficial, seu defeito era também o exato oposto: a antipatia escamoteada, os xingamentos por detrás dos panos, e todo o repertório dos que não suportam o peso da desagradabilidade social.

Enquanto todo o plano do escritor era fruto de sua covardia, Tenório mostrava a cara e indicava ali, muito claramente, todos os nomes. Era sabido que toda a cidade o considerava insuportável e muitos riam de sua cara. Alguns, como Herculano, somente pelas costas e a uma distância segura. Mas poucos, bem poucos, duvidavam de sua sinceridade.

Acabou que deu nisso.

Coube àquele que deveria ser a vítima apenas bater com o dedo na primeira peça de um jogo de dominós armado por quem se imaginava um algoz astuto apenas porque se escondia enquanto tramava um ataque.

A cidade até hoje comenta a história, e vez por outra faz fofoca sobre os casos - os do livro -, indo muitas vezes além do que se narra na trama. O povo é assim mesmo, sabemos disso. É tudo culpa do Herculano.

Como se diz, o resto é história.

Moralzinha: Antes de passar uma lição de moral, verifique se há alguma no bolso de sua consciência.

Sábado, Outubro 11, 2008

O PRÓPRIO VELÓRIO

Ela tinha uma estranha vontade, que ao longo do tempo, de tanto pensar nisso, deixou de ser uma vontade doida para se tornar um plano real: assistir ao próprio velório. Saber quem iria, quem não iria, quem choraria, quem faria piada, quem falaria em dinheiro.

No começo, aquilo era uma bobagem. Mas, aos poucos, tudo se tornou mais ou menos factível. A idéia não era das mais simples, é claro, mas consistia no seguinte: ela forjaria a própria morte, haveria o tal velório, apareceria disfarçada e, anos depois, voltaria e contaria alguma história maluca explicando a necessidade da troca de identidades.

Enfim, era isso.

O primeiro passo foi conseguir nova identidade. Nada muito difícil, mas impressionantemente caro. Como morava no Rio, precisou dos serviços de um sujeito paulistano. Melhor assim. Meses depois, já tinha consigo a identidade, e levaria aproximadamente um ano para fazer uma transferência de renda razoável sem levantar suspeitas.

E seria preciso, sem dúvida, algum tipo de "morte" daquelas em que o corpo desaparece. Quanto a isso, o helicóptero da família seria providencial e, melhor ainda, o fato de que tinha o hábito de sair por aí com o dito cujo mesmo sem licença para tanto.

E foi assim: caiu, a notícia se espalhou, a morte abalou toda a sociedade, até que lá pelas tantas organizaram um velório sem o tal "corpo presente".

Devidamente disfarçada, ela foi conferir afinal de contas o que falariam a seu respeito. Depois de anos - anos! - elaborando o que outrora considerava "estranha vontade", chegou a vez de descobrir o gosto disso tudo.

A caminho do cemitério, porém, seu carro foi atingido por um caminhão, arrastado por quase cem metros e esmagado num muro. O corpo ficou irreconhecível e tudo que tinham ali eram os documentos daquela senhora desconhecida, que foi enterrada num velório sem ninguém.

No qual, obviamente, ninguém falou nada.

Domingo, Agosto 31, 2008

PREÂMBULO

Então ele a viu e pela primeira vez não sabia o que pensar. Nem sonhava em dizer nada, já que mal lhe surgiam idéias. Ele, sempre tão falante e esperto para dizer a coisa certa na hora certa viu o tempo parar diante de sua falta de criatividade.

E o tempo era o que menos importava.

Porque não se viram assim como se vêem os casais daqueles casos da primeira vista. Ele a viu de um jeito diferente daquele pelo qual estava acostumado e, talvez por isso, tudo o encantava ainda mais.

Ela, sem dúvida, era uma das mulheres mais bonitas que já viu. E isso é curioso porque ela não tem uma beleza óbvia, daquelas que vão pra linha de frente de programas televisivos juvenis; mas também não tem uma beleza exótica daquelas que são enaltecidas sem que entendamos ao certo seu valor estético.

Ela é bonitona, mesmo: toda linda... olhos, boca, nariz, pele, tamanho. O incrível disso tudo, porém, é que a beleza ficou em segundo plano quando a conheceu, quando ela soltou piadas e tiradas brilhantes.

Sua mordacidade, já mais atraente que a própria beleza, parecia que tinha naquele exercício involuntário de superação pelas virtudes uma razão de ser que, complicando tudo, era irracional.

Cabia ao moço, àquela altura, apenas transformar encanto em metafísica superficial; e a falta de reação - então inusitada -, em raciocínios supostamente bem elaborados mas no fundo desprovidos de qualquer lógica.

Como defini-la? Bonita? Amiga? Gostosa? Politizada? Engraçada? Ele não conseguia. E não conseguiu. Permaneceu quieto e o tempo passou. Ele queria ter dito tanta coisa, mas acima de tudo o quanto a soma de todas aquelas virtudes, em vez de criar um ser mitológico, compunha uma menina real e humana.

E absolutamente encantadora.

Foi então que ele descobriu que o tempo não havia passado e ele ainda estava ali em silêncio, pensando. E ele mal via a hora de começar a história de verdade; qualquer que seja o desfecho.

Sexta-feira, Agosto 22, 2008

SAPATOS PARA O ENTERRO

Era, sem dúvida, uma exigência estranha, mas aquela definitivamente não seria uma boa hora para questionar esse tipo de pedido. O avô, falecido naquele dia, sempre pedira para ser enterrado com um par de sapatos especialmente comprado para isso.

De fato, os sapatos eram lindos. E, no fim das contas, tanta gente pede coisa estranha para esse tipo de ocasião... Os sapatos não seriam um grande problema, ainda que contrastassem com o perfil daquele senhor sempre cético.

Um dos filhos levou os calçados para a equipe do velório, que atendeu prontamente ao pedido. Contaram algumas histórias tragicômicas, como a da senhora que exigiu ter o cabelo todo raspado para que vissem sua careca e um outro que desejava ter apenas os joelhos exibidos (o resto do caixão ficou fechado).

E tudo foi de acordo com o desejo do patriarca daquela família que chorava em volta do féretro. Aliás, palavra estranha por palavra estranha, ele sempre usava "ataúde".

Tudo acabou, ele foi enterrado, a vida seguiu.

Mas ninguém soube é de como as coisas realmente aconteceram. O caixão - féretro? ataúde? - era muito maior que o corpo e, mesmo preenchido com todas aquelas flores, ainda mantinha uma "sobra".

Os dois rapazes da funerária fizeram aquilo que sempre se faz nesses casos: enterraram o defunto sem os sapatos, apenas colocando-os mais para perto da parte de baixo do caixão. Ninguém percebia, mas na verdade o morto não calçava as lindíssimas peças de cromo alemão.

Se houvesse vida após a morte, o velho voltaria para reclamar. O mais provável, porém, é que jamais voltasse, mesmo no caso de haver alguma coisa do tipo, por pura birra. Riria sozinho da ironia de ser enterrado sem os sapatos comprados para isso, mas resmungaria por estar errado sobre o além.

Mas ele está certo. E é uma vitória argumentativa que jamais poderá ser comemorada, essa é a desvantagem.

Em algum tempo, as folhas murcharão e o calçado cairá sobre os ossos dentro do caixão. Do féretro. Do ataúde.

Ele aproveitou o tempo em vida para se vangloriar do conhecimento de palavras estranhas, pois sabia que não comemoraria a vitória conceitual no que diz respeito à vida após a morte.

Poeticamente, é bonito imaginá-lo sorrindo. Embora ele próprio talvez odiasse essa poesia. Ao mesmo tempo, dizia a todos que não acreditava em lirismo sem uma boa dose de mentira e fingimento.

Por que será que ele pediu para ser enterrado com aqueles sapatos? Talvez para fazer com que todos reflitamos acerca disso; ou apenas porque os achou bonitos.

Revisão: Patrícia Köhler

Sábado, Agosto 16, 2008

...

"vc é um sonho que eu guardo quieto comigo"

Segunda-feira, Julho 28, 2008

A VIDA E OS LIVROS

Ele odeia estudar na biblioteca, mas é o único jeito de concluir a monografia. E nem pode levar os livros para casa. Desse modo, a solução é sentar-se nas mesas do fundo, sempre vazias, que ficam depois de várias prateleiras – os outros poucos freqüentadores disputam os lugares com pontos para notebooks e iluminação melhor.

– Esse livro é chato!

Olha para o lado e vê uma menina de cerca de vinte anos (ele tem trinta).

– Chato por quê? Já o leu?

– Eu estava aí agorinha.

– Aqui? Na cadeira? Eu estou nesse livro há uma hora...

– Não, não na cadeira – ela abriu um sorriso ao mesmo tempo ingênuo e ousado – eu estava no livro.

– Ah, claro... – ela é doida, ele pensa.

– Sim, dentro do livro. E ele é chato. Não sei por que insisto nos tais "livros técnicos" (ela faz as aspas de um jeito muito caricato).

– Olha, sei que parece ridículo eu dispensar esse papo surreal com uma garota linda como você, mas realmente preciso estudar...

– Mas já disse que o livro é chato!

– Sim, eu sei que é chato. Eu sei muito bem o tamanho da chatice da obra, mas não tenho tempo para essas loucuras...

– Que loucuras?

– Isso aí, de estar no livro, tal e coisa. Parece papo de atriz... Aliás, você deve ser do grupo de teatro lá da faculdade de arquitetura, né? Elas vivem falando que "entram no personagem"...

– Então, você duvida?

– Não, claro que não! Eu acredito. Qual o próximo livro, então?


* * *

Ele mal consegue ficar assustado. Abaixa-se para escapar de uma rajada de metralhadoras e se esconde num quarto aparentemente vazio. Ele e ela.

– Que merda é isso? O que houve?

– Um outro livro chato. Essas coisas de Segunda Guerra, sabe? Trouxe você comigo pra ver como um livro chato pode ser ainda mais chato visto de dentro...

Mais rajadas de balas e, ao fundo, muitas explosões.

– O que você colocou no meu café, quero voltar, o que é isso, puta merda, onde a gente está?

* * *

Ele está novamente em sua cadeira na biblioteca e a moça continua em pé, ao seu lado, sorrindo.

– Como você fez isso?

– Fazendo.

– Fazendo como? Nós entramos em que livro?

– Um daquela prateleira lá... (aponta para romances históricos) – Ali, só tem coisa chata!

– Isso deve ser um sonho. Se eu contar, ninguém acredita.

– Não mesmo.

– Mas me diga, por favor, como faz isso?

– Enquanto você ficar preocupado em como se faz para viver nos livros, você nunca vai conseguir. E nem acreditar. É só viver e pronto.

– Você fala como se fosse fácil.

Quando ele diz a palavra "fácil", eles estão em uma festa de fim de ano, com mesa farta e uma porção de pessoas bêbadas.

– O que é isso agora?

– Me deu fome. Você também não ficou? Aqui tem tudo...

– E por que as pessoas são assim estranhas?

– Rosto meio apagado? Livro moderno, pode apostar. Mas ele descreve direitinho as comidas, olha só.

Eles então se sentam numa das mesas do apartamento e comem durante quase uma hora, enquanto ela conta sobre a vida dentro e fora dos livros, de como vive todas as aventuras e descansa nos melhores hotéis, de como vai para as festas mais deslumbrantes e presencia uma série de eventos históricos.

Ela, sim, é quem vive. E ele vê esse encontro como um resgate à vida real, muito mais do que um mergulho na ficção dos livros. É isso que ele sempre quis. E é o que viverá.

* * *

Ninguém mais o viu. Mas muitos o leram e o lêem e o lerão. Ele está nas multidões, aglomerações pessoais e, além disso, tem nome em pelo menos uns vinte e três romances.

E, quando se mostra reflexivo sobre tudo que aconteceu com sua vida, a menina que é sempre menina olha em seus olhos e apenas pergunta, rindo da própria filosofia superficial:

– O que é a vida?

Ele sabe a resposta: a vida é isso.


Revisão: Hellen Guareschi

Segunda-feira, Junho 23, 2008

CAPITAL CIRCULANTE

- Por favor, eu quero esse aí do Indiana Jones...

- Déispau.

- Tá aqui...

- Opa! Nota fresquinha? De onde é esse dinheiro?

- Saquei no banco, agora mesmo, no caixa eletrônico... Não pode ser falsificado.

- Não é isso... É verdadeiro, tô vendo aqui. Mas não posso aceitar.

- Nossa! Por quê?

- Você não tem visto as propagandas?

- Que propagandas? Eu vejo sim, claro. Outro dia vi uma ótima, com bichinhos cantando uma música do Bob Marley...

- Você tá me achando com cara de idiota?

- Como assim? Não estou entendendo nada...

- Não vou vender o DVD, ok? Aqui não tem trouxa, não.

- Mas eu posso pelo menos saber o motivo? Você mesmo disse que a nota é verdadeira.

- Você confessou que sacou do banco! Não posso aceitar.

- Mas por quê?

- Xi... Pelo visto você realmente não sabe de nada, né? É o seguinte: só posso vender DVD pirata se o seu dinheiro vier do tráfico, de algum assalto, de crimes em geral ou, vá lá, de corrupção.

- Poxavida... Saquei no banco, mesmo.

- Viu? Não tenho como aceitar. Porque o mesmo dinheiro que circula na compra de DVDs piratas é o dinheiro do tráfico, do crime e das criaturas malignas. Você parece um homem de bem...

- Olha, não sou lá aquelas coisas. Ontem mesmo furei um sinal. Ok, não fureeeei assim tão acintosamente. Estava ainda amarelo, e já passava da meia-noite...

- Viu? Um banana. Esquece.

- Sem chance, então?

- Sem. Vaza.

- E se eu trocar essa nota de dez com aquele cara lá da banca de pilha falsificada? Ele me dá duas de cinco e, bom, são duas notas de cinco que circulam no mercado da falsificação...

- É... Aí, sim...

(tempo depois)

- Nada feito...

- Ele não trocou, né?

- Você sabia que não ia trocar?

- Sabia. Porque o dinheiro que circula na venda de material falsificado é o mesmo dinheiro que sustenta o mundo das drogas, do tráfico de escravas brancas e uma série de outras coisas extremamente péssimas.

- Fiquei sem o DVD, então?

- Ficou. Mas por que você não baixa da Internet?

- Como assim?

- Porra, você é bacana... DVD pirata é coisa de pobre. Gente rica baixa música, seriado e filme da Internet. E aí passa na frente da minha banquinha torcendo o nariz...

- Eu não sou rico...

- Mas já torceu o nariz. Eu vi. Confessa...

- Sim, já... É que sou contra pirataria.

- Mas ia comprar Indiana Jones.

- Porra... Não quero gastar com o cinema, aí vejo em casa, mesmo, é mais barato.

- Baixa da Internet. Não posso aceitar seu dinheiro.

- Ok, vou fazer isso. Obrigado pela dica.

- Por nada... Olha, eu não deveria, mas vou te dar um toque.

- Diga...

- Da próxima vez, diga que você é um empresário sonegador...

- Por quê?

- Ué! Sonegação não é crime? Já viu a propaganda do DVD pirata? Ninguém fala da sonegação. Mas eu acho que o dinheiro da sonegação é o mesmo que circula no narcotráfico, no custeio de cativeiros de seqüestrados e até mesmo na compra de bolas de capotão para times de futebol patrocinados por bandidos...

- É, né?

- É sim!

- Pô, valeu a dica...

- É isso aí. Eu já sei que você é bocó, e você não tem mesmo cara de quem mexe com coisa assim mais "do povão maloqueiro", né? Então diga que é sonegador. Dá até um certo status. E seu dinheiro vai ser aceito aqui nas banquinhas... Menos na minha, claro.

- Valeu mesmo.

Quarta-feira, Junho 18, 2008

A VISÃO NO PAPEL

Eu acho que todas as pessoas olham o papel depois que o passam na bunda, quando acabam de fazer cocô. A maioria, é claro, vai torcer o nariz; mas a mesmíssima maioria sabe que é verdade. Olhamos, ué, sei lá por quê.

Alguns cheiram e até põem na boca, creio que devam ser minoria e apenas os mencionei neste relato como forma de lidar com o maior número possível de hipóteses - poderia citar também os que fazem desenhos utilizando o papel como pincel e as fezes como tinta.

Mas o caso é outro.

Passei cinco anos de minha vida mergulhado no mais profundo estudo religioso. Um devoto fiel como poucos, e tudo por conta desse hábito. Fiz lá meu cocô e, como sempre, olhei o papel.

O que eu vi? A cara dele! Podem rir, podem duvidar, podem achar que é provocação. Não ligo.

Ali no papel estavam os traços do salvador, do messias! O cabelo, a barba (inclusive com direito a um pelinho dando maior realismo), as feições e até dois grãos de gergelim cuja função ainda não me foi revelada.

Tudo estava ali, numa espécie de sudário de folha dupla profanado por tons pastéis emanados das profundezas do meu ser.

Em geral, a escatologia é associada a algo ruim. Mas, no meu caso, vi tudo de forma diferente. Assim como nos estudos da psicanálise a respeito de nossas primeiras idades, entendi a "aparição" - ainda que um tanto borrada - como manifestação natural, uma coisa ao mesmo tempo "minha" e "sagrada".

A perfeita conjunção - com um odor relativamente desagradável, é verdade.

Ouso dizer que os flatos que antecederam em meia hora o momento da Revelação seriam como profetas anunciando a chegada do Redentor. E o esforço que fiz naquela tarde - fazendo-me suar nas têmporas - poderiam ser comparados ao sacrifício de todo um povo para receber e acatar aquele que veio para redimi-los.

Quando enfim olhei para o papel, percebi a grandiosidade disso tudo e tive condições de fazer tal análise em retrospecto. Era ele. Ou Ele, com maiúsculas, como me ensinaram num curso de colocação pronominal e boas maneiras canônicas.

Muita gente não entendia minha devoção repentina a determinada religião, e por óbvio não expliquei qual foi o motivo inicial. Tive medo de ser mal compreendido e, com isso, talvez sofrer perseguições injustas.

Mas a verdade é que, com o tempo, a crença deu vez à razão e pouco a pouco fui-me afastando das bobagens e dogmas dessa doutrina. Hoje, anos e anos depois, sinto-me livre e posso assegurar que não guardo qualquer vestígio da antiga religiosidade.

Como recordação, porém, ainda guardo (devidamente protegida por um vidro), a revelação de Karl Marx naquela folha de papel higiênico; mesmo que hoje esteja livre da religiosidade do socialismo.

Amém.

Quarta-feira, Junho 04, 2008

A MOÇA E OS TESTES

Seria um tanto hiperbólico dizer que ela fez fama diante de seus bons resultados nos testes que realizara. A verdade é que ela era um fiasco nas avaliações; Um fracasso completo.

Mas não era burra. Ao contrário, era muito inteligente, mas sofria daquilo que os médicos chamavam de "Tensão Diante da Provação", e que seu irmão mais novo considerava "frescura do caralho". Essa briga conceitual, inclusive, perdurou por anos - e a tese do caçulinha atualmente leva vantagem junto ao resto da família.

Ainda no primário, algumas professoras pensavam que poderia ser um caso de "dislexia disciplinar", já que certa vez respondeu a prova de matemática na folha de português; e vice-versa (pra completar, tirou zero em ambas, mesmo depois que passaram as respostas para as avaliações correspondentes).

Aos trancos e barrancos, lá pelos vinte e cinco anos de idade, conseguiu a formatura. E assim conseguiu ingressar no ginásio.

Desta vez, porém, optou por uma instituição de ensino que adotava uma impressionante medida de desburocratização, pela qual seria possível conseguir o outro diploma simplesmente lhes entregando uma determinada quantia em dinheiro.

Ainda aos vinte e cinco, conseguiu formar-se no colegial. Viria agora o grande desafio: o vestibular.

Na primeira vez em que fez a prova, levou inadvertidamente a folha de respostas para casa, acreditando ser um modelo de "ponto cruz". E só descobriu o equívoco quando deu ao irmão mais novo um suéter com o "Gabarito da Prova C" bordado.

Desistiu do vestibular lá pela décima tentativa. Embora não fosse um sucesso nas provas, conseguiu fazer amizade com praticamente todos os examinadores, tendo sido convidada para uma série de batizados e outros convescotes do pessoal.

Naquela fase de sua vida, já ganhava um dinheirão com a empresa de moda e não havia mais sentido em prestar vestibular. Até porque, desde a primeira vez, prestava para Biologia - um curso que teria pouca utilidade para quem lida com confecção de roupas.

Mas, enfim, ela era uma porcaria na hora de fazer provas. Qualquer que fosse a prova. "Tensão Diante da Provação"? "Frescura do Caralho"? Sabe-se lá. Ela não acertava nada.

O que ninguém sabe é que ela guarda com orgulho uma folha de revista, já amarelada, com sua única nota dez. E dez com louvor! Esse êxito aconteceu há muitos anos, quando realizou o teste "Você Sabe Beijar?", de uma revista da qual era assinante na adolescência.

Disso, o caçula não sabe. Até porque daria mais fôlego à sua doutrina.

Quinta-feira, Maio 29, 2008

A MULHER IDEAL DO HAMBÚRGUER QUASE MAL-PASSADO

A moça da agência de encontros - que quando o mundo era feito de coisas menos efêmeras chamávamos de "agência matrimonial" - franziu a testa e pediu para eu repetir mais de uma vez exatamente aquilo que procurava.

Disse-lhe que procuro uma mulher que goste de hambúrguer não exatamente mal-passado, mas sim naquele estágio entre isso e "ao ponto". E como ela, a mocinha da agência, insistia em demais características físicas das pretendentes, fui obrigado a contar minha história.

Acho que os problemas começaram na época do colégio, ainda; mas pus a faculdade como "marco zero": eu já tinha carro e certa autonomia (ou seja, escada de incêndio dava vez a drive-in).

Meu primeiro casinho era uma moça da minha sala, mesmo, e ficamos juntos por alguns meses. Ela era linda, sem dúvida, mas a beleza foi esmorecendo à medida em que descobri seu gosto pelo ritmo que então começavam a denominar "axé music".

Hoje, por exemplo, não terminaria uma relação de seis meses por causa disso. Possivelmente agüentaria mais umas duas semanas. Naquela época, porém, não tinha a mesma maturidade e encerrei o que tínhamos por pura incompatibilidade musical (ou gástrica, já que tais canções sempre me provocam dores de estômago).

Eu disputava xadrez pelo time da faculdade; éramos em quatro, e o time titular possuía dois jogadores. Em caso de óbito - ou coisa pior - eu entraria. Mas era um orgulho representar minha instituição de ensino, principalmente com a torcida uniformizada gritando "Pensa! Pensa! Pensa!" para estimular os jogadores.

Num desses eventos, conheci minha segunda namoradinha, que também era enxadrista (ela era do time titular de sua universidade, que por sinal ficava no sul de Minas Gerais). Com ela, aprendi algumas coisas importantes: namoro à distância funciona tanto quanto simpatia para tirar verruga, mulheres enxadristas são tão boas de cama quanto garotas de programas são boas em xadrez e... - essa sim a melhor das lições - ...é mais fácil conquistar mulheres com outros esportes.

Dali a tantos meses, houve outros jogos desses em que todo mundo se reúne para beber e eventualmente realizar alguma partida de qualquer que seja a modalidade. Sem querer - e juro que foi mesmo sem querer! - sentei-me no banco de reservas do time de vôlei. Só de estar lá, faturei uma menina linda, que foi uma excelente companhia durante aquela noite, mas no dia seguinte se mostrou uma pessoa bem pouco aprazível diante da insistência em revogar o plural de nossa Língua à revelia do que sempre nos ensinaram.

Desde então, mediante uma paga que custava algo em torno de 10% de minha mesada, fiz com que o técnico me pusesse como reserva do time de vôlei e, como eu não jogava, estava sempre cheiroso e pronto para falar da performance do meu time; inclusive descobri o que era um "saque" (isso mais ou menos um ano após fazer parte da equipe).

Mas é claro que esse tempo dos jogos se acabou; até porque muita gente estranhava o fato de eu, mesmo formado, continuar fazendo parte do banco de reservas do time de vôlei de minha universidade.

Já formado e trabalhando, passei a freqüentar bares e locais congêneres com meus amigos solteiros: respectivamente, Meleca e Taturana. Por mais que eu seja uma pessoa difícil, com esses dois tudo ficava ainda mais impossível.

Troquei de amigos, e um desses novos custava mais barato que a assinatura do Canal Espanhol; inclusive, ele aumentou o preço quando descobriu a defasagem de valores. Mas com a nova turma era mais fácil conseguir mulheres.

Como sabemos, elas saem em bando, e não é raro ter uma mais feia. Essa era a minha - exceto quando a bonita da turma decidia sair comigo para pagar algum tipo de promessa, atender à vontade de orixás ou simplesmente em razão da altíssima dosagem alcoólica.

Foi uma fase muito boa da minha vida, na qual saí com uma miríade de mulheres e descobri mil miríades de defeitos que o ser humano possuía. Um deles é o fato de que 80% da humanidade simplesmente não pode ser humana, sob pena de eu mesmo não sê-lo, pois me recuso a ser da mesma espécie que eles.

Mas sigamos.

Não sei quando foi isso, não sei mesmo, mas em dado momento passei a ser mais assediado pelas mulheres. Começou aos poucos, é verdade, em princípio ganhando uma cantada - às vezes por engano - a cada semestre. Mas em cinco anos eu já conseguia dois sorrisos por mês.

Lá pelas tantas - e por "tantas", por favor, entendam "décadas" - passei a ser MESMO cobiçado. E aí meus problemas definitivamente ganharam corpo. Ou melhor, corpos. Vários corpos. De todos os tipos. Cérebros, mesmo, foram poucos.

As decepções foram tantas que é preciso fazer um resumo.

Uma publicitária maravilhosa, que conheci numa festa não me lembro onde, certa vez pediu de presente um CD da dupla "Claudinho e Buchecha". Foi o bastante para nunca mais voltar. Uma arquiteta, por sua vez, torcia para um time de futebol odiado por mim.

Saí com uma alta funcionária do governo que mais discutia política do que qualquer coisa. Minha maior divergência nem era sobre o tamanho de uma administração pública, mas sim a intensidade de seu mau hálito.

Acho que depois desse tempo todo me tornei um homem mais interessante. Mas, à mesma proporção, passei a achar desinteressantes logo de cara muitas mulheres que, em outros tempos, eu comeria sem perguntar o nome.

Deixei de sair com uma delas, por exemplo, logo depois de ser perguntado sobre meu signo. Com outra, não passei uma noite depois de saber que ela fazia yôga (assim mesmo, com acento). Achei pedante.

A verdade é que não havia mulher para mim, pois a vida nos ensina que "os opostos se atraem" é uma máxima tão eficiente quando "deus ajuda quem cedo madruga" (basta ver a relação proporcional entre as pessoas que acordam cedo e suas vidas financeira, amorosa, profissional etc).

Foi aí que conheci meu grande amor. Ou aquela que, então, eu acreditava ser a mulher de minha vida. Tínhamos gostos parecidos, e éramos também quase idênticos nos defeitos e virtudes.

A coisa foi bem durante anos, anos mesmo, até que decidimos ir a uma dessas lanchonetes da moda para dividir um hambúrguer. Ela e eu nunca prestamos atenção no que o outro pede, cada um come o que quer, como quer, e ninguém tem nada com isso (exceto nos casos de alimentos que prejudicam a vida social debaixo das cobertas).

Mas ao dividir o hambúrguer houve um problema grave. Ela gosta da carne muito bem passada - o que é considerado uma ofensa em qualquer cozinha e, digo mais, dá pena de morte em pelo menos sete estados norte-americanos. Eu, claro, gosto da carne mal passada, quase ao ponto.

Depois de uma veemente discussão - seguida de um armistício que nos fez pedir costelinhas de porco -, nossa relação não foi mais a mesma. Tudo passou a ser motivo de briga. Éramos 'parecidos' nas coisas grandes, mas nos detalhes éramos como dois estranhos, dois seres de planetas distintos (nesse caso, insisto que o terráqueo da dupla era eu).

Por isso contei essa história toda para a mocinha da agência, e em dado momento ela não apenas entendeu, mas se mostrou interessadíssima na epopéia. Interessada até demais, eu diria, pois esticamos para um café e isso fez com que ficássemos juntos logo naquela primeira noite.

Nunca acreditei em amor à primeira vista. Mas passei a acreditar. Tenho passado com ela os melhores dias de minha vida e, de tanto que nos gostamos, nunca parei para pensar em gostos, defeitos, virtudes ou coisas assim. È bom e pronto. É simples e complicado ao mesmo tempo, mas nos entendemos.

E agora cá estou, sentado em nosso banheiro, olhando há quarenta minutos para o rolo de papel higiênico. Ela coloca de modo que sai pela parte da frente, mas sempre me acostumei com o papel saindo pela parte de trás.

Tento não pensar nisso, mas sei que vai ser difícil me esquecer dessa divergência nos próximos dias.

Sexta-feira, Maio 23, 2008

UM POUCO DO QUE DIGO EM SILÊNCIO NO OUVIDO IMAGINÁRIO DA MUSA REAL

Você não vai ser menos mulher por ser menina. Aliás, não vai ser menos mulher por ser mulher. Qual o problema? Não fique assim por besteira. É claro que vai dar certo. Tudo sempre dá certo para você, e não por sorte, mas porque você é você. Todo mundo chora, até você. Os rótulos que você inventa são divertidíssimos, e nos fazem rir por horas, mas você e eu sabemos que não se aplicam à sua pessoa. Você está além disso; exatamente no anti-rótulo que supostamente seria simplório mas, ao contrário disso, traz consigo uma riqueza ainda maior. Você é linda. Você encanta. Você finge não gostar de saber disso, mas um pequeno sorriso se anuncia, mas imediatamente você o esconde; mas, ao escondê-lo, seus olhos se fecham de um jeito lindo. Você é tão bonita quanto profunda. Você é encantadora e apaixonante. E você existe. Você transforma expectativa em bobagem. Você está além de tudo isso. Cadê você agora?

Você é muito mais mulher por ser menina.

Quarta-feira, Maio 21, 2008

OS CONHECIDOS

Algumas coisas só acontecem quando se tem uma história a dois. O papo, por exemplo, vai longe, e nenhum dos dois sabe como começou e tampouco pensa em terminá-lo. É uma conversa sem fim, sobre tudo e sobre nada; é sobre os dois, mas sem que seja explicitamente sobre isso.

O papo-prazer, o papo-delícia, é esse o diálogo mais legítimo, pois pouco importa seu conteúdo, mas sim o fato de que o tempo passa sem que qualquer um dos dois perceba. E é importante que seja entremeado de risadas e desejo, sempre na dose exata cuja receita numérica todos desconhecem, mas cujo prazer do momento todos bem sabem qual seja.

E os olhos, quando as duas pessoas se conhecem há tempos, sabem como olhar uns aos outros; e também sabem a hora de fechar, pois essa é a hora dos outros sentidos, como o tato. O prazer táctil é único quando corpos que se conhecem, pois ambos conhecem todos os caminhos e atalhos uns dos outros.

E esses dois conhecidos - íntimos assim em tudo - não têm segredos, e ao mesmo tempo jamais sentem falta da surpresa, pois se completam de tal forma que o "friozinho na barriga", naquele momento, dá vez a algo muito maior e totalmente inexplicável.

Não há o "alto" da paixão absurda, nem o "baixo" da rotina estabelecida, mas sim uma intensidade que transcende a essas medições corriqueiras. Os dois, juntos, são todo um universo, e assim o são porque inevitavelmente todo o resto do mundo desaparece e nada significa quando se vêem, se falam, se ouvem, se tocam.

Nada disso faz muito sentido pelo simples fato de que não há história alguma entre os dois, nem essa intimidade típica dos casais que têm uma história longa. Como explicar a intimidade que têm sem que ao menos se conheçam?

Ele já desistiu de explicar, bem como desistiu de rotular, nomear, dar adjetivos ou mesmo fazer análises. Tanto que esta pára por aqui. De agora em diante, conta as pintinhas lindas que ela tem. E só.

De que vale tanta razão se, quando pensa nela, ele abre mão de todas as coisas minimamente racionais? Chega de teorias, portanto. Isso não cabe no mundo dos sonhos.

Quinta-feira, Maio 08, 2008

O CASO DE ADÃOZINHO, O DRIBLADOR

Uma história como aquela inevitavelmente pararia nos tribunais. Estão todos sentados, à espera do juiz. Enquanto sua excelência não dá as caras, convém contar o que houve para quem ainda não sabe.

Era uma partida decisiva do campeonato brasileiro de futebol e Adãozinho, o driblador, metera-se numa confusão ao dar três chapéus em seu marcador, o zagueiro Uberaba.

Quando estava em via de dar o quarto lençol em seu destemido - e gigantesco - marcador, Adãozinho foi interrompido com os cravos da chuteira do beque que batera em cima de seu peito, levando-o ao chão.

Ainda enfurecido, Uberaba pulou com seus 127 quilos em cima dos dois joelhos de Adãozinho - que, para constar, pesava algo entorno de 47 quilos (sem os pinos de titânio que hoje usa nos dois joelhos e em uma tíbia).

O país inteiro assistiu à cena indesculpável e, é claro, isso foi levado à justiça; os mais afoitos já falavam em linchamento, apedrejamento e outras coisas. Enfim, o caso é esse. E agora chegou o magistrado.

Uberaba, com cara de santo, não olha para lado nenhum. Adãozinho, o driblador, está com o semblante extremamente aborrecido - e, por óbvio, senta-se no banco dos réus. Há alguns anos, o drible é considerado crime hediondo e inafiançável.

Antes mesmo do pronunciamento das partes, o juiz faz um longo sermão. Explica que se trata não apenas do "crime de drible", mas do "agravante chapéu", e cita o Direito Romano, a dignidade da pessoa humana e, salvo melhor juízo, até mesmo umas passagens de "Minutos da Sabedoria", de Torres Pastorinho.

Adãozinho se encolhe no banco dos réus. Na verdade, ele se encolhe é na cadeira de rodas, pois ainda não se recuperou das fraturas múltiplas. O advogado, pela última vez, tenta aconselhá-lo a seguir um caminho mais seguro: "podemos alegar insanidade". Mas o driblador, teimoso, recusa esse estratagema.

A audiência segue adiante. O Promotor acusa Adãozinho de tudo e mais um pouco. Aponta para uma senhora no júri e diz "já pensou, um filho amado tomando um chapéu em rede nacional..." - e de nada adiantam os protestos do advogado de defesa. O juiz já deixou claro pra qual time estava torcendo.

Uberaba presta seu depoimento e, conforme narra o drama de que fora vítima, quatro jurados soluçam, dois vão às lágrimas e uma moça chega a ensaiar um desmaio... Praticamente todo o banco de jurados pede uma garrafinha de água, com exceção de um senhor de meia idade que insiste numa taça de champagne - oferecem um "prosecco", mas ele recusa de forma elegante.

O julgamento acaba. Adãozinho, o driblador, é condenado à detenção por todos os anos possíveis e imagináveis. Para conseguir cumprir a pena em sua integralidade, ele precisa viver vinte e sete vidas - e, a partir da segunda, reencarnado em uma tartaruga das mais longevas.

* * *

Adãozinho, enfim, chega à penitenciária. Seu advogado o alertara de que os demais detentos não gostam de "dribladores". Para evitar esse "x" eterno cravado em sua nuca, ele teve que se virar com seus dois colegas de cela: Costelinha e Azinhavre.

- E aí, mano? O que pegou? - pergunta Azinhavre

- Latrocínio. Assalto seguido de morte - responde Adão.

- A gente sabemos o que é latrocínio, sangue! Não precisa dar aula de código penal pros vigário - assinala Costelinha.

- E vocês? - indaga Adão.

- Eu matei dois - responde Azinhavre, rapidamente, e continua - O Costelinha aqui roubava banco. Acabou duro e preso.



Todos dão aquela risada meio sem graça, como nos filmes, e a conversa continua mais ou menos nesse clima de "tensão amigável", se é que isso existe.

À noite, Adãozinho pensa: "se eles descobrem que sou um driblador...". Por sua vez, Costelinha (ou apenas Tavares) reflete: "tomara que nunca saibam que eu estou aqui por conta de uma piada de mau gosto contada numa festa infantil"; e, enfim, Azinhavre (ou somente Orestes) medita: "e pensar que vim parar nessa pocilga porque passei cantada em minha colega de trabalho".

No mundo dos presídios, é comum que os detentos mais perigosos escondam seus crimes hediondos, para não chamar atenção diante de gente tão mais pacata, como assassinos, seqüestradores e outros tantos.

Quinta-feira, Maio 01, 2008

MEU VÍCIO

Não que eu seja puritano, mas nunca fui afeito às drogas. Mas já tive meus vícios. E os tenho, certamente; não os que entorpecem a mente, mas os que a entretêm em alguma futilidade.

Isso é bobagem. O assunto aqui são os vícios químicos, as drogas, bebidas, essa coisa toda. Pois bem: sou viciado em cerveja. Mas em cheirar cerveja. É esse meu vício, e talvez em princípio pareça algo estranho, pois não sou de beber - nem mesmo cerveja.

Mas nada me inebria tanto quanto o cheiro de cerveja vindo de sua boca, numa fração de segundo antes do nosso beijo. E depois o gosto. O nosso gosto.

Esse é meu vício.

OS ALMOÇOS DE DOMINGO NA CASA DE MEU AMIGO ABELARDO

Os almoços de domingo na casa de meu amigo Abelardo são especialmente interessantes e as coisas por lá nunca são monótonas. Eu o conheço desde a infância e, nos últimos tempos, tenho participado desses convescotes familiares pelo menos uma vez a cada mês.

Seu avô, o Doutor Ignácio, já tem seus oitenta e tantos anos e se locomove por meio de uma cadeira-de-rodas. Na verdade, não precisaria usar nem mesmo bengala, mas ele diz que mais cedo ou mais tarde acabará precisando, então o melhor a fazer é treinar. E está nisso há uns quatro anos. Por certo, quando precisar, será um dos melhores cadeirantes idosos de que se tem notícia.

No início, confesso, fiquei um tanto aborrecido com essa mania extravagante, pois parecia uma forma de fazer troça com os deficientes. Mas Doutor Ignácio assegurou que os respeita sobremaneira e nunca fez nada que atentasse contra tal minoria; o máximo a que já chegou foi pensar em cortar um pedaço da perna esquerda para poder competir nas Para Olimpíadas (já que possuía índice para-olímpico em mais de sete modalidades). Mas isso foi há muito tempo e ele acabou não levando adiante os planos esportivos.

Tia Guiomar, mulher do Doutor Ignácio e avó do Abelardo, é uma das pessoas mais adoráveis que já conheci. Infelizmente, nem sempre a adorabilidade de uma pessoa é proporcional à sua capacidade de fazer boas tortas. Pior ainda: quanto mais adorável a cozinheira, tanto menos é aceitável recusar seus pratos. Mas a companhia de Tia Guimar valia o sacrifício de saborear as tortas no mínimo intrigantes que ela produzia misturando elementos gastronômicos que, seguramente, foram criados por Deus para que jamais fossem aproximados uns dos outros.

As refeições, que ocorriam após todos chegarem e também com o término da partida de tranca realizada entre os mais velhos, eram todas elas precedidas por longas orações, pregações e muitas vezes discursos políticos, e essa parte mais prolixa ficava a cargo do Tio Onofre, irmão caçula de Guiomar, ou seja, tio-avô de Abelardo.

Onofre já foi suplente de Vereador em Águas de Lindóia. Caso toda a Câmara Municipal fosse destituída e outros setenta candidatos da fila de espera morressem por conta de alguma tragédia, ele já se tornaria o décimo quarto da fila. Essa larga experiência política é a base dos discursos inflamados de Onofre, que por sinal é trilíngüe, com fluência em Português e outros dois dialetos que ele mesmo inventou e agrega ao nosso idioma de um jeito todo especial.

Mas a melhor parte são as conversas com Seu Agenor, pai de Abelardo e filho de Ignácio e Guiomar, que se tornou viúvo dois anos após o nascimento do filho único. As conversas são boas porque ou ele é provavelmente a pessoa mais poderosa, rápida, inteligente, influente e rica do mundo, ou então talvez um pouco do que ele diga seja mentira.

Entre outras façanhas, já ouvi de Seu Agenor que foi condecorado pela Rainha da Inglaterra, que foi escalado para a Copa de 70 mas declinou na última hora por motivos religiosos, que era o único estudante de sua faculdade que, ao mesmo tempo, fazia parte do CCC e do MR-8 e nenhum dos dois grupos tinha coragem de expulsá-lo.

Muito provavelmente em função de sua infinita humildade, Agenor não empreendeu qualquer império empresarial ou político e passou quase toda a vida nas imediações do Jaguaré, onde montou uma pequena casa lotérica que funciona até hoje.

Abelardo tem uma prima, a Maria da Penha, que a família muitas vezes tentou transformar em minha namorada. Nunca aceitei, e confesso que as recusas não se davam tanto pelo bigode avantajado da pequena Maria, ou mesmo em razão de suas constantes crises de gases. É que não gosto de misturar uma amizade fraterna com esse tipo de relação mais lasciva. Isso nunca deu certo.

Enfim, os almoços com a família de Abelardo são sempre grandes eventos, com tios, tias, primos e todos esses que já citei. Sempre começa cedo e acaba tarde, mas nunca percebo o tempo passar.

Eu só fico chateado quando minha psiquiatra, contrariando toda essa emoção e esse carinho que manifesto ao contar essa e outras histórias, resolve dizer, na maior frieza, que o Abelardo não existe e é apenas uma criação da minha cabeça.

Com essa grosseria insensível, é muito difícil tomar os remédios que ela alega serem necessários. Aliás, o próprio Abelardo já me disse, e mais de uma vez, que a medicação é pura bobagem. E ele é firme nessa convicção, pois fica um tempão sem dar as caras toda vez que resolvo tomar os tais remédios.

Quinta-feira, Abril 10, 2008

ELA, DEITADA

É claro que temos uma história a dois, convivemos há anos e nossa vida já passou por todo tipo de ventura e desventura. Mas gosto de pensar que foi ontem. Gosto de pensar que hoje é o primeiro dia.

Ontem, por exemplo, eu a vi por acaso, num ônibus, e com súbita coragem - coisa que me falta - perguntei seu nome, falei sobre destino - coisa em que não acredito - e assim viemos parar aqui.

Ou então, ontem nos esbarramos num supermercado, talvez na seção de comidas para animais, e o engraçado disso tudo é que nenhum dos dois tem animal de estimação.

Mas talvez tenha sido num cabaré, como aqueles de décadas ou séculos atrás, com dançarinas muito bem vestidas, e senhores respeitáveis aproveitando a hora de folga com os amigos.

Ah, o cabaré pode também ser um puteiro, desses com a nova moda da "pole dance", e nos apaixonamos após uma exibição de seus atributos na tal pilastra em meio a alguma música ensurdecedora.

Se bem que poderia tê-la visto na livraria aqui do bairro - e pouco importa se não moramos perto um do outro, ora bolas! Poderia, sim! Ela perguntando para mim sobre algum livro que eu estivesse folheando, e eu dando uma explicação mirabolante tentando disfarçar minha ignorância.

Na arquibancada do estádio, num jogo do São Paulo. No corredor de um hotel. No elevador de um prédio comercial. Na calçada de uma avenida movimentada, ou na pista quase vazia do parque municipal, ou na praia, ou na montanha.

E, afinal, ontem, mesmo?

...

Olha ela aqui, deitada, tão linda. Nem faz idéia de quão maluco é seu homem, que pensa nas mais variadas bobeiras e inventa histórias malucas num "faz-de-conta" lírico, sexual e definitivamente doido.

Como é o amor.

Quarta-feira, Março 26, 2008

JOÃO E CYNARA VENCERAM O DESTINO

Quem conhece a história garante que "era para ser", embora alguns digam que "não era para ser". O leitura romântica dos fatos faz com que se aposte numa força maior, num ente superior, em alguma sapiência divina que mexa as cordinhas adequadas para tudo dar certo.

As evidências científicas menos eufóricas, contudo, fazem com que se aposte na mais miserável e absurda das coincidências. Mais ou menos como quando os evolucionistas tentam explicar de onde viemos, assim sem qualquer charme, enquanto criacionistas trazem uma rica mitologia quase poética - ainda que não expliquem coisa alguma.

Mas isso é porque João pegou um ônibus de linha diferente daquela em que viajava todos os dias; todos, infalivelmente todos! Nesse dia, em vez de pegar a linha 6897, em razão de estar muito atrasado, acabou subindo na linha 6988.

Em função da troca nas linhas, teve que caminhar dois quarteirões. Na metade do segundo, um carro passou por uma poça d'água e o molhou. João, além de atrasado, estava agora com a roupa encharcada.

Assim, correu para a loja mais próxima, comprou outra camisa e outra calça (o sapato ele manteve, só limpou) e correu o quarteirão restante. Mas a reunião já tinha sido adiada por conta de sua ausência.

E foi dessa maneira que a desgraçada manhã era ao mesmo tempo uma sucessão de azares e também um tempo livre para o jovem empresário. A reunião estava marcada para acabar pouco antes do meio dia, e era ainda dez e meia da manhã.

Ele aproveitou para tomar um café com leite na padaria de sempre, mas foi obrigado a andar duas quadras atrás de outro lugar, quando avistou Eustáquio, aquele chato empedernido e empertigado, sentado com um jornal exatamente no balcão onde pretendia sorver o famigerado pingado.

Guarde a história exatamente aí: João, quase onze da manhã, caminhando em direção a uma outra padaria, no centro da cidade. Voltemos ao dia de Cynara.

Ela chegou como sempre, no horário, e o dia não prometia maiores percalços. Oito e meia da manhã e lá estava Cynara, pronta para mais um dia de atividades como gerente da grande loja do Sr. Nagib.

O único problema é que a Sra. Nagib - com quem, aliás, Cynara nunca teve uma boa relação - estava doente. O marido, zeloso, fez com que sua funcionária de maior confiança fosse à farmácia comprar a medicação necessária, para, em seguida, levar até sua casa e voltar.

Tire a manhã para isso - foi o que disse o chefe, para sua alegria (diante da folga) e desespero (diante da iminência de encontrar a chata mulher do patrão). Mas Cynara sempre punha as obrigações profissionais à frente de seus caprichos.

Então, foi à farmácia, depois á casa do patrão, depois novamente à farmácia (segundo a Sra. Nagib, houve um erro na escolha da medicação). Mais uma vez foi à casa do chefe e agora, finalmente, estava livre para voltar.

Ela tinha a manhã inteira pela frente, mas não estava disposta a matar serviço. Em primeiro lugar por ser mesmo uma empregada exemplar; mas também porque seguramente a Sra. Nagib ligou para o marido avisando que ela tinha saído havia poucos minutos.

Chegamos ao momento em que eles se encontram. Cynara, andando apressadamente, bate seu ombro esquerdo no direito de João, que ameaça uma reação violenta até reparar na beleza da moça em quem esbarrara.

Foi assim que se conheceram. Uma sucessão de acontecimentos inacreditáveis, uma miríade de quase-impossibilidades. Um esbarrão! Uma reunião desmarcada. Um remédio errado (por capricho). Um ônibus errado (por atraso - ainda que raro). Uma padaria trocada pela chatice do Eustáquio - que merecia ser padrinho do casório, mas os convidados não o mereciam na cerimônia.

E ali estavam os dois, frente a frente, dando início a mais uma dessas histórias de amor que, quando narradas entre amigos, em geral se ouve as duas frases óbvias já mencionadas: o romantismo do "era para ser" e o racionalismo do "não era para ser".

No fim, foi.

Românticos comemoram, racionais explicam por meio de teorias. Mas a verdade é que João e Cynara, desse dia em diante, iniciaram um namoro, que se tornou sério bem rapidamente e se transformou em casamento. Estão juntos até hoje, quarenta anos após o esbarrão.

* * *

O que ninguém conta é que logo no segundo mês de namoro já não havia mais paixão alguma e, antes mesmo do casamento, um já estava cansado do outro. Por acomodação ou qualquer outra coisa do tipo, os dois permaneceram juntos, num exercício de tolerância que os fazia brigar pouco e suportar muito.

É certo dizer que os dois velhinhos, já com netos grandes, apenas esperam a hora de morrer e definitivamente não têm mais tempo para qualquer separação.

O destino venceu? Talvez. Mas nenhum dos dois soube vencer a rotina e a falência do sentimento. Nem tiveram força para sobrepujar a acomodação.

Mas ambos têm uma história linda para contar aos amigos, filhos e netos. Uma história que, sem essa segunda parte, poderia ser enredo de qualquer telenovela; até porque as telenovelas também não têm a "segunda parte".

Quinta-feira, Março 20, 2008

ENRIQUE E PALOMA

São cinqüenta anos de saudade, mas ainda hoje Enrique guarda na memória a imagem, o perfume e o som da voz de Paloma. É como se não houvesse passado mais do que alguns minutos desde que se despediram em Málaga, para que ele fosse à guerra.

E ele recebeu com muita surpresa a notícia de seu amigo Miguel, que afirmava ter visto Paloma, fazendo-o de forma ofegante, como se estivesse com medo e entusiasmado num só tempo.

O entusiasmo parecia óbvio, mas o medo se mostrou mais adiante. Miguel afirmou ter visto Paloma numa casa de tolerância. Lá, onde trabalham as putas. Um puteiro, enfim.

Enrique fez as contas e a versão pareceu muito mais inverossímil do que triste. O que faria uma velha de mais de 65 anos num ambiente em geral freqüentado por moças de no máximo 20?

Enrique deu de ombros. No fim da conversa, restavam apenas gargalhadas, ambos embriagados com muito vinho e poucos tapas.

* * *

Miguel acordou com um telefonema de Enrique e reclamou do horário. Era mesmo muito cedo. Mas o amigo trazia em sua voz a inquietação que justifica esse tipo de ligação. O conteúdo, porém, variava do paranóico à pura e simples imbecilidade.

Enquanto Enrique implorava para saber o endereço exato do tal puteiro onde estaria Paloma, Miguel tentava demovê-lo dessa sandice, inclusive mencionando o fato de que os dois haviam concordado quanto à impossibilidade daquilo... Ela estaria velha... Não se falavam havia décadas.

Talvez esteja casada, dizia Miguel, enquanto Enrique contra-atacava apostando na viuvez. O papo pode ser resumido da seguinte forma: enquanto um trazia obstáculo à tese, o outro contornava a dificuldade com maestria retórica.

No fim das contas, vencido pelo cansaço e um tanto aborrecido, Miguel passou o endereço quase que por birra. Mas apostou com o amigo: se Paloma não estivesse por lá, o jantar de sábado seria por conta de Enrique. Aposta feita, aposta aceita.

* * *

Era uma casa simples, exatamente como Enrique imaginava. Uma casa de bairro, sobre a qual ninguém poria qualquer suspeita, não fossem os bêbados que entram e saem a cada noite, fazendo algum barulho ao chegar e verdadeira algazarra ao sair.

Na primeira noite ele não teve coragem para mais do que tão-somente olhar a porta, as janelas e os que entravam e saíam. Passou quase toda a madrugada sentado no banco da praça e observando a casa de uma distância que acreditava ser segura.

Criou coragem no dia seguinte. Usando o velho truque de menino, de quando pulava no rio gelado, percorreu todo o quarteirão sem hesitar e entrou na casa de uma só vez. Diante do rápido olhar de desdém que todos ali desferiram, Enrique imediatamente se deu conta do ridículo da situação.

Mais calmo, foi até aquela que parecia ser a organizadora do recinto e perguntou sobre uma senhora mais velha. Nada. Descreveu. E nada. Paloma? Nada. Não havia ninguém com aquelas descrições, aqueles nomes. Nada, nada, nada.

Enquanto ouvia a enésima negativa a suas perguntas e argumentos, Enrique notou um vulto por uma porta entreaberta. Sob protestos da dona do lugar - cujo nome ele nem sabe qual é - correu até um dos quartos e abriu a porta de uma vez.

Lá estava, de costas para a porta e de frente pra janela. Fumando... Os mesmos cabelos castanhos jogados sobre os ombros, o mesmo perfume, a mesma pele claríssima. Poderia jurar que até as pequenas pintas das costas eram as mesmas.

Não se conteve e gritou pelo nome. A moça virou. A boca, os olhos, o nariz, o rosto. Tudo! Paloma! Paloma! Enrique gritava enquanto um homem sem muito esforço o afastava do quarto. Seu caso exigia menos violência e mais compaixão.

Lá fora, recobrado, percebeu toda sua idiotice. Como ela não teria envelhecido? Perguntava. O homem da segurança apenas sorria, balançava a cabeça e demonstrava respeito pelo velho apaixonado e sonhador.

* * *

No meio do jantar - e com a felicidade típica de quem não pagará pelas despesas - Miguel gargalha a cada vez que Enrique repete a história. Assim que o perdedor acaba de contar, ele pede para que narre mais uma vez. E assim por diante.

Ele diz que os velhos não têm muita coisa nova de que rir, e não quer perder a chance de exaurir toda a graça daquele momento patético. Complementava dizendo que a comicidade estava bem longe de acabar.

Enrique, que no início do jantar sem mostrava um pouco irritado, já quase ria tanto quanto o amigo. E assim foram até o final da noite. A vida prossegue. A paixão por Paloma se mantém.

Um amor que, como todos os outros, existe mais no campo da inexistência do que no da materialidade. Um amor que vai além de tudo não está em lugar físico algum. Um amor tão verdadeiro quanto qualquer sonho.

* * *

Vanessa, a gerente, reportou o fato da semana anterior à dona da casa, Senhora Maura, acrescentando que esse tipo de coisa só acontece quando ela não está.

Maura, que já era bem velha, não acreditava que a jovem Vanessa não se lembrava do nome do misterioso tal senhor. Com algum esforço, a gerente gritou o nome "Paloma", afirmando - com segurança - ser esse o nome da moça por quem ele procurava.

Foi quando Maura, com olhos marejados, disse que talvez o velho homem se chamasse Enrique; logo em seguida, e bem rapidamente, balançou a cabeça de um lado para o outro, com os olhos cerrados, e esboçou um sorriso saudoso.

O tempo às vezes acaba mesmo quando pensamos que ainda dá tempo, disse Maura. Vanessa fingiu entender.

* * *

E o tempo prosseguiu mais um pouco para Enrique e Paloma.

Quarta-feira, Março 12, 2008

PADRE, EU NÃO PEQUEI

copiando Woody Allen (*)

"O Vaticano agregou novos pecados à lista dos antigos Sete Capitais (...) e também é Pecado Capital consumir substância que altere a psique (...) é permitido se confessar de 15 a 20 dias antes de cometer o pecado..."



- Desculpe, padre, mas... Eu NÃO pequei!

- Como assim?

- Lembra? Eu me confessei na semana passada. Disse que pecaria e...

- Sim, sim. Claro que me lembro. Você veio, avisou que pecaria, eu passei a penitência, você - presumo - cumpriu. Disso já sei. Quero saber COMO NÃO CONSEGUIU PECAR!

- Não deu.

- Ah, é assim? "Não deu"? E tá tudo certo?

- Mas não deu mesmo.

- E agora? Você acha que Deus gosta de ficar de credor?

- Deixa assim.

- Não, não, não. Gostamos de cobrar, mas odiamos ser cobrados. Vai lá e peca.

- Não dá mais.

- Troca de pecado.

- Mas perdi a vontade.

- Você é um homem ou um saco de batatas?

- Eu quero fazer tudo direito.

- Então por que caralho veio se confessar? Agora o que eu falo na MINHA oração? Que um filho da puta não consegue cumprir com a miserável promessa de cometer um pecadilho de merda?

- Padre, o senhor está nervoso...

- O senhor é o caralho! Não agüento mais essa porra, entende? Vocês pecam feito doidos, parece que nasceram para isso, e na hora em que É PERMITIDO ficam fazendo cu doce. Ah, vai pra porra!

- Eu posso tentar...

- Com má-vontade? Aí é pecado e meio. Tem que pecar feito um homem, porra! Pecar com gosto! Com sangue nos olhos...

- Mas, padre... Eu acho que refleti melhor.

- Ah, refletiu é o caralho! Desde quando pecador reflete? Ficou com o cu na mão, né? Eu deveria era passar mais penitência porque você é um medrosinho de merda.

- Eu aceito. Eu aceito, padre. Só não quero pecar.

- Mas que cacete! O que você ia fazer, afinal?

- Ué, você não se lembra?

- Claro que não. Acha que minha pergunta é retórica? Você fala qualquer merda aí e eu dou a penitência. Pronto. Se for esquentar a cabeça pensando no pecado de cada um eu não apenas tô fodido como ainda por cima me encho de idéias...

- Bom, eu ia beber uma cerveja.

- Certo, e depois que criasse coragem mataria alguém?

- Não. Eu ia apenas beber cerveja.

- E o pecado...?

- Beber cerveja.

- Você tá me achando com cara de idiota?

- Mas é pecado.

- Você tem certeza que entrou na igreja certa? Há uma mesquita no Brás, caso precise de algum auxílio na obediência do Corão.

- Beber é pecado capital, padre!

- CAPITAL? Agora sim... Você acha que eu não sei quais são os sete?

- São mais.

- Como mais? Até uma criança do catecismo sabe que são sete.

- São mais. Devemos preservar o meio-ambiente, evitar a desigualdade social, atentar para a bioética e, além disso tudo e outras coisas, não consumir substâncias que interfiram na psique...

- Psique? Bioética? Ecologia? Desigualdade? Você tá achando que aqui é uma ONG? Isso agora é pecado? Tá louco?

- É tudo pecado capital. E eu ia pecar, avisei, cumpri a penitência, mas não tive coragem de tomar a cerveja...

- Vocês estão tudo loucos. Cadê a putaria? Cadê a fome desenfreada? A inveja? Aquela boazuda da mulher do próximo? E a morte? Hein? A MORTE? Cadê?

- Padre...

- Ah, padre é o meu saco! Põe você essa batina e começa a dar penitência para quem chama afro-descendente de negão. Eu não quero mais essa porra. Olha, chega de penitência. Eu vou fazer outra coisa da minha vida. Pode ir, meu filho, vai com Deus. Ou sem Deus. Ou sei lá.

- Padre...?

E foi esse tipo de situação, mas em especial a queda drástica na arrecadação de dízimos e doações, que fez a Santa Sé rever a decisão de incluir novos pecados à lista dos Capitais.

Mas há uma Comissão Permanente já sugerindo novos pecados capitais: o gerundismo, a separação de sujeito e predicado por vírgula, o uso do apóstrofe do modo genitivo inglês como forma de "plural descolado" etc...

* * *

(*) Woody Allen é copiado em razão da crônica ser baseada em uma notícia real; coisa que ele sempre faz, mas obviamente com o detalhe de ser talentoso.

Quinta-feira, Março 06, 2008

"LA ISLA DEL COMANDANTE": A QUESTÃO JURÍDICA DA SUPRESSÃO DE DIREITOS E OS OBSERVADORES INTERNACIONAIS

Enquanto isso, numa reunião entre o Comandante, seu advogado-geral, e quatro observadores isentos da ONU...

- Você sabe, señor Borjallo, que temos extrema confiança em seu patriotismo e em seus compromissos com La revolución...

- Si, Comandante. Eu sou um soldado, antes de tudo.

- Entonces, meu amigo e amigo desta pátria, explique aos demais presentes, esses "observadores Del estrangero", o que houve realmente...

- Supressão automática de Garantia Fundamental.

- Viram só?

Finalmente, um observador da ONU resolve se pronunciar:

- Deixa ver se entendi, prezados senhores... Um cidadão foi morto a tiros porque discordou do governo...

- De La Revolución! - corrigiu El Comandante, prosseguindo - Do Governo pode discordar. Não pode é de La Revolución!

O observador, atônito, observa. E então continua.

- Tudo bem, peço desculpas por esse grave erro - dele e meu. Ele discordou de La Revolución e levou bala...

- No, no - El Comandante mais uma vez o interrompe - Não diga desse jeito, por favor. Vai parecer que somos insensíveis e contra a vida humana. O que houve foi uma escolha, muito mais dele do que nossa, acerca dos futuros desta Revolución!

- Claro, claro - o observador da ONU, então, continua - Então o Direito à Vida, essa garantia fundamental, foi "suprimida" em nome de La Revolución...

El Comandante olha para o advogado-geral; é sua deixa:

- Prezados señores da ONU... Houve o seguinte... O subversivo José Cañeda, depois de infinitos crimes perpetrados contra o povo da Ilha, ou seja, contra a manutenção do benevolente regime revolucionário...

- Quais foram os crimes? - questiona um dos observadores, até então quieto.

- Ele imprimiu gravuras em um mimeógrafo - continua Borjallo - e todos aqui devem saber o estrago que esse tipo de anti-propaganda faz, não é?

Os observadores definitivamente decidem apenas observar. Borjallo continua:

- Desta feita, diante da ameaça anti-revolucionária, ele passou por todo o nosso processo, com direito a manifestações, defesas, recursos, apelações, suspensões de julgamento, diversas instâncias, enfim, tudo que se consegue fazer num processo realmente honesto - e dentro de 36 horas.

Borjallo faz pose e prossegue:

- Não se fala, portanto, na Garantia Fundamental à Vida, mas sim na Garantia Fundamental ao Direito de Falar uma Frase.

El Comandante mostra-se satisfeito com a explicação. Um observador rompe o silêncio e faz a pergunta óbvia:

- Que raio de garantia é essa? Vocês o executaram, não negam, o fato, mas dizem que não foi o Direito à Vida a garantia suprimida? Então o que foi?

Borjallo já esperava por essa. E é aí que seu talento jurídico entra em cena:

- Ora, senhores... A garantia da vida, como sabemos, é um direito relativo e em geral dependente de outras vidas. Um anti-revolucionário, em essência, é alguém que no fim das contas causaria muita morte caso levasse a cabo suas idéias. Sua morte é uma diminuição de risco.

Outra pausa cênica. E ele retoma:

- Pela Lei de La Revolución, concedemos o Direito à Última Frase... Mas não se trata de um direito irrestrito, compreendem? Não é qualquer "última frase" que se pode proferir. José Cañeda já começou falando "El Comandante é um hijo..."

Um observador interrompe, visivelmente assustado:

- E vocês o mataram imediatamente pela frase que ele disse?

Borjallo finaliza:

- Não, não. Ele foi executado quando QUASE completou a frase. Se completasse, seria outra execução. E a pena de morte é inexeqüível por duas vezes, concorda? Seria um trabalho danado para nossos juristas. De más a más, uma frase como aquela, quando proferida, provoca um estrago talvez pior do que as folhinhas do mimeógrafo.

E a reunião prosseguiu.

* * *

Isso é um "projeto-de-projeto", um pequeno excerto de rascunho de uma idéia de seriado que tive com meu grande amigo Persegonha. Alguns amigos se reúnem para jogar, outros para ver filmes; Persega e eu gostamos de criar telenovelas, seriados, filmes e outras coisas que, se um dia saírem do papel, formarão um repertório de mais ou menos umas 500 obras :D

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

O MÉTODO SUPOSTAMENTE ALEATÓRIO DO TEMÍVEL SERIAL KILLER DE HOUSTON

I

O promotor John William McPhillip, John Will, famoso por suas dezenas de condenações, está agora em um apartamento sujo, no centro de Houston, Texas, olhando para uma parede com fotos de 25 pessoas que ele condenou.

Não há tempo para mais nada. A polícia arromba a porta, John se joga para o chão com as mãos para cima, cai de cara e se machuca. A multidão de policiais invade o apartamento aos berros.


II

John William foi preso em flagrante e está encarcerado há uma semana. Seu pedido de fiança não foi deferido e essa é talvez a décima conversa que ele tem com Jeff sobre o mesmo assunto. E com as mesmas perguntas.

- Jeff... Você me conhece...

- Por favor, John. Me ajuda a te ajudar. O que você fazia ali?

- Eu recebi uma ligação. Por favor, verifique meu celular! Eu recebi uma ligação e fui para lá. Uma pessoa disse que precisava de mim, que tinha um depoimento importante sobre o caso "Mendoza"...

- Tudo isso você já disse, John. E, realmente, seu celular recebeu uma chamada. Mas todo celular de todo mundo recebe "uma chamada", entende? As provas contra você são horríveis. Por favor, John...

- Que provas, Jeff? Que provas? O que eu fiz de errado, afinal?

Desta vez, talvez em nome da consideração que sempre teve com o promotor, talvez por acreditar que haja ali alguma possibilidade de inocência, ou mesmo por supor que assim poderia vir alguma confissão, Jeff Smith resolveu ligar os pontos para John.

- Imagino que você saiba. Mas vou elucidar o que você faz parecer um "mistério". Você viu aquelas 25 fotos, não viu? Sabe quem são aquelas 25 pessoas?

- Sim, claro que sei! Todas cometeram crimes horríveis e eu as condenei. Todas estão mortas.

- Pois bem, John. O velho Steve, que não está mais entre nós, costumava dizer aqui no distrito que todo assassino tem uma assinatura, mesmo aquele que só mata uma vez. E faltava algo para aquelas pessoas...

- O que faltava?

- Uma assinatura, John...

- Uma "assinatura"? Que raio de argumento é esse? Eles tinham motivo, tinham impressões digitais, tinham provas mil, tinham tudo nas cenas do crime. E não tinham nem um mísero álibi! Você está em busca de qual "assinatura"?

- John, John... Assim fica difícil. Mas vamos lá: você sabe o que encontramos naquele apartamento, além das fotos?

- Não, não tenho a menor idéia. Vocês chegaram cinco minutos depois de mim. E há vizinhos ali para provar isso!

- Sim, eu sei... Eu sei que NESTE DIA chegamos apenas cinco minutos depois de você.

- Então me diga. O que acharam?

- Diários, John. Três cadernos; dois cheios, um pela metade...

- Então é só pedir um exame grafotécnico e...

- John! Por favor... Assim nós dois não vamos avançar nunca. Os cadernos continham páginas datilografadas. A máquina estava lá no próprio apartamento.

- Que diários são esses, Jeff?

- De novo, lá vou eu... Você não sabe, né? Então vamos lá... São diários de quem cometeu todos os 25 crimes que TERIAM SIDO COMETIDOS por aquelas pessoas.

- Como assim?

- Isso mesmo, John. Você condenou 25 pessoas inocentes. Não tão "inocentes", é verdade, já que elas todas tinham um passado péssimo. Mas essas condenações seguramente fizeram de você um verdadeiro herói. Ninguém atingia sua marca.

- Que história é essa???

- Sabe como chegamos lá naquela casa? Por uma ligação anônima. Feita de um telefone público lá da rua. Alguém que seguramente já tinha notado movimentos suspeitos por ali. E você foi pego.

- Por que eu?

- Porque os textos são seus! Obviamente, sem estilo algum, tudo muito impessoal e frio. Mas é você, John William, o célebre promotor, quem relata tudo. Não apenas como cometeu os crimes, mas também como conseguiu condenar os suspeitos...

- Isso é paranóia pura, Jeff! Eu não posso permanecer detido por conta dessa tremenda conspiração descabida! Eu não matei ninguém.

- Sinceramente? Eu até acredito. Ou, mais ainda, eu adoraria acreditar. Mas fizemos um retrospecto de todos os casos e, meu caro... Tudo bate. É inequívoco que uma mesma pessoa cometeu todos aqueles crimes. E quem ganharia com isso?

- Quem? Eu? Desde quando? Acha que foi fácil montar aquelas ações? Acha que eu aceitaria condenar alguém sabendo de sua inocência?

- Não sei de nada disso, John. Mas espero que voltemos a conversar e que você fale algo além dessa mesma lengalenga. Precisamos avançar nesse caso. Os peritos não param. Uma confissão, agora, seria muito melhor do que uma prova forense irrecorrível...

- Eu não fiz nada, Jeff. Não espere que eu "confesse" algo que não cometi.


III

Jeff está no meio de uma discussão com o Dr. Cooper, da perícia. Parece que sua investigação não vai bem.

- Como assim, Cooper? Como assim???

- É isso mesmo, Jeff! Há várias impressões digitais naquela casa e não são de John William.

- Então alguém faria isso para incriminá-lo? Mas que loucura é essa?!?

- Você aceita palpite? Se aceita, eu digo o seguinte: alguém parece ter armado para o velho John.

- Quem?

- Não tenho um palpite para isso...

Jeff tem agora algumas perguntas sem resposta e uma espécie de "resposta sem pergunta". Afinal, não há como manter John William preso.


IV

- O que você sabe sobre Carl Menutti?
Jeff pergunta para John, que foi liberado há duas semanas, mas acaba de ser chamado novamente, pois o investigador finalmente tem novas evidências.

- Como assim? Isso é uma piada?

- Não, John. Eu acredito agora na sua inocência e preciso saber quem seria o filho da puta por trás disso tudo.... que, aliás, armou para você!

- Jeff... Eu não paro de pensar nisso. Mas pode ser todo mundo, pode não ser ninguém.

- E pode ser Carl Menutti!

- Menutti? Impossível...

- É? Por quê?

- Ele é meu colega de Promotoria. Ele não teria nem intelecto para cometer esse tipo de crime. Aliás, achei lisonjeiro - apenas quanto a isso - que vocês tenham apostado em mim. Levei como um elogio intelectual...

- Não temos tempo para brincadeiras, John. Eu tenho provas aqui, por enquanto apenas circunstanciais, que colocam Carl Menutti no olho desse furacão.

- Que provas, Jeff? Que provas?

- Você está mesmo preparado?

- Sim, claro. Diga.

- Ele e sua mulher têm um caso. Há dez anos!

John permanece calado, atônito. Jeff prossegue.

- Me desculpe dizer assim, de bate-pronto. Mas era o único jeito. Ele tem motivo. Mas como checar os álibis de alguém durante esse tempo todo?

- Jeff, eu...

- Não diga nada, John. Eu apenas contei isso porque cedo ou tarde a merda toda voa para os jornalistas. E em nome de nossa amizade, principalmente em nome da putaria que fizeram com você, eu acho que te devo essa...

- Certo... Não sei o que dizer.

- Mas eu sei o que fazer. Vou comparar as impressões digitais de Menutti com aquelas encontradas no apartamento. Inclusive algumas delas foram tiradas da velha Remington.


V

O convidado desta noite do programa de entrevistas "Malone" é ninguém menos que o investigador Jeff Smith, que falará sobre a surpreendente prisão de Carl Menutti num caso que deu várias reviravoltas.

- Tem certeza que me perdoa? - diz Madeleine, olhando para seu marido, John William, que por sua vez não tira os olhos da TV, aguardando o início do programa.

- Você sempre faz a mesma pergunta... - ele então responde de forma propositalmente retórica.

- Sim, meu amor. Eu perdôo... Mas não esqueço.

- Queria que fosse possível esquecer.

- Olha, Maddy - John demonstra alguma ternura - Eu também queria. Mas agora vamos ver o programa. Até agora não entendi ao certo como tudo isso aconteceu. Nem o que aconteceu, aliás.

Ambos olham para a TV.

O apresentador faz um resumo rápido da carreira de Jefferson Smith, que começou como patrulheiro e hoje é seguramente o policial mais conhecido de todo o Texas. Após a apresentação bem elogiosa, ele faz a pergunta já esperada, com o propósito de fazer o entrevistado discorrer e esmiuçar o caso que abalou todo o país.

- O que houve, afinal? Como foi possível prender o ex-promotor auxiliar Carl Menutti?

- Devo isso ao velho John William. Sou obrigado a, antes de tudo, falar sobre o homem que foi preso por engano, num ardil tramado por Menutti, e que quase pagou por dezenas de assassinatos...

- Entendo, entendo...

- Foi minha confiança em John que me fez pensar. E então fui atrás de quem teria algum motivo para ferrá-lo... Opa! Me desculpe, não queria usar essa linguagem do distrito...

- Não há problema, já é tarde da noite Jeff. E, cá entre nós, você pode usar uma ou outra palavrinha fora de contexto. Aproveite...

Risadas gerais. Jeff continua:

- Essas coisas geralmente envolvem sexo ou alguma coisa sórdida, infelizmente. E, para salvar John da cadeia, tive que expor sua vida íntima, descobrindo um caso de infidelidade conjugal... Sua esposa, Madeleine, vinha mantendo uma história com Carl havia dez anos!

- Dez anos...

- Sim... Um bom tempo. E apreendemos correspondências nas quais Menutti diz que pretende ajeitar tudo. Entende? "Ajeitar" tudo... E que ele se casaria com Madeleine, que John William deixaria de ser um obstáculo.

- Impressionante, Jeff...

- Sim, todos ficamos chocados. Mas isso, somente isso, não forma um conjunto probatório razoável. Foi quando descobrimos que as impressões digitais do lugar eram do próprio Carl Menutti. E mais: ele não tinha álibi algum para a hora da misteriosa ligação anônima que "denunciou" John William.

- Como foi isso?

- Por certo, deveríamos ter desconfiado. Porque, veja bem: John entra no apartamento. E em coisa de dez minutos a polícia chega. Ele recebeu uma ligação de que haveria por lá uma boa pista sobre um caso. E ele próprio havia anotado em sua agenda - que permaneceu na promotoria - os dados daquele endereço.

- Armaram para ele...

- Armaram! Mas quem? Essa era a pergunta e, quando a respondemos, o caso se encerrou.

- E o que acontece agora com Carl Menutti.

- Aquele verme - e eu vou chamá-lo assim sem medo algum - permanecerá preso por um bom tempo... Ele jura honestidade. Todos juram, né?

- Por quanto tempo?

- O caso ainda vai a julgamento. Espero que a promotoria consiga uma punição exemplar.

- Mas e os assassinatos?

- Todos foram "normais". Não que haja algum assassinato "normal", não é? Mas aquele diário foi forjado. Tudo ali foi inventado para prejudicar o pobre do John.

- Impressionante!

- Mas naqueles diários, havia uma teoria conspiratória...

- É mesmo?

- Sim, acho que todos devem ter saber, mas não custa explicar melhor tudo isso. Segundo os textos datilografados, todas aquelas execuções foram equivocadas. Todas! E havia inclusive uma descrição minuciosa de como as provas foram plantadas: sangue, impressões, pegadas...

- E vocês acreditaram?

- Em princípio, devo confessar, levamos tudo isso a sério. Depois descobrimos que as folhas foram preparadas quase que no mesmo dia, e havia algumas inconsistências em vários casos. Além disso, nosso perito achou mais outras evidências, e tudo apontava para a inocência de John William.

- É, meu caro Jeff, essa é uma história triste que você ainda terá que repetir muitas vezes. Mas nós estamos felizes por ter um policial assim como você! Esse é Jeff Smith, o inves...

John desliga a televisão, Madeleine já está dormindo. Ele a acorda e ambos sobem para o quarto.


VI

Johnm no porão de sua casa, recorta uma notícia do jornal. Diz a manchete:

"Carl Menutti Condenado a 80 Anos de Prisão"

E mais:

"...os delitos, somados, não são considerados de altíssima gravidade, mas a punição exemplar foi uma vitória da promotoria em razão do fato de que todo esse caso abalou a opinião pública texana e também de todo o país..."

John cola o recorte num livro, não manifesta alegria ou tristeza. Nada. Cola, escreve algumas coisas abaixo do recorte colado e fecha aquilo que mais parece um imenso caderno de brochura.

Ele então abre um outro caderno como esse, também imenso, mas repleto de fotos. São cem, duzentos, trezentos rostos. Além das 25 da parede daquele apartamento, há centenas de fotos novas, todas assinaladas com um grande "x" vermelho, bem grosseiro.

Ao final desse livro, duas fotos ainda não estão demarcadas. John faz o "x" numa delas: Carl Menutti. E a outra, de sua esposa, permanece intacta.

Madeleine então o chama para o almoço. Ele guarda os dois livros em sua mochila; mais tarde os levará ao velho depósito de onde raramente saem. Após colocar a mochila sob sua mesa, ele sobe.

Mais uma vez, ela pergunta se ele perdoou. Mais uma vez ele diz que sim. E mais uma vez ela pergunta se ele já esqueceu. Ele, de novo, diz que não. Mas ele sorri, muito discretamente, quando ela vira de costas.

Ele não esqueceu.

Domingo, Fevereiro 24, 2008

ELA ESTÁ AQUI, EU PASSEI

Eu passei e ela ficou. Foi exatamente isso que aconteceu e é bom avisar desde logo: não há qualquer culpado nisso. Se é para buscar culpas, joguemo-la sobre o tempo, essa abstração inevitável (ou seria uma concretude intangível por nós, mas que nos tange até não mais poder?).

Ela ficou. Eu passei. Ela está aqui comigo agora; em hipóteses, em possibilidades, em sonhos. Em desejos absolutamente carnais e lascivos e em vontadezinhas totalmente românticas.

Ela está comigo numa tarde maravilhosa de puro sexo irracional (há sexo racional?); e está comigo numa noite de filmes e música e cafunés e isso tudo. Está comigo em viagens para a praia e em passeios sei lá pra onde.

Eu passei.

Não sei quando, mas provavelmente faz tempo. Acho que foi quando ela refletiu sobre um abraço de quando dormimos juntos; e dormimos juntos por uma série de fatores do acaso.

Eu a abracei e a cobri de carinhos e beijos, um tanto por instinto, outro tanto por fatores inexplicáveis. Eu a abracei nem sei por quê. Talvez não haja um motivo. Abracei porque talvez já soubesse que ela ficaria aqui comigo para sempre.

E passei não por ter sido inconveniente. Mas porque ela gostou; e não podia gostar. E agora sou eu que gosto - mesmo sem poder - mas não consigo fazê-la passar.

Ela fica aqui comigo.

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

O SOM DO DISPARO

Talvez essa fosse a hora de pensar nos erros e acertos da minha vida, ou de demonstrar resistência. Sei lá, talvez gritar alguma palavra de ordem, frase de efeito... Qualquer coisa que entrasse para a posteridade. Mas que posteridade? Não sei. Apenas penso em minha amiga que falou sobre o barulho de um tiro. Ela disse, e não me esqueço, que nunca ouvimos o tiro da bala que nos mata. Porque a velocidade da bala é maior do que a do som. Interessante, não? Por outro lado, fico em dúvida a respeito disso, pois o tiro pode vir de longe. Mesmo assim, ela garante, a bala sempre chega primeiro. Achei estranho. Como alguém pode saber disso? Isso me faz lembrar da história das cores, e acho que todos já pensamos nisso em alguma fase da vida. Será que o "azul" que eu vejo é o mesmo "azul" que você vê? Há coisas que só a própria pessoa sabe como é, mas talvez não leve a nada formular esse tipo de dúvida. A essa altura, sobretudo para mim, de que vale pensar no que leva a algo? Nada leva a lugar algum e aqui, de fato, é onde tudo acaba. Onde e quando tudo acaba. Porque o tempo também acaba e é engraçado pensar nessa história de que o tempo não tem fim, mas o nosso tempo é obviamente finito. Seria essa a relatividade atribuída por Einstein ao tempo? Talvez não, mas agora vem a calhar. É o tempo que continua ou as pessoas e coisas que permanecem enquanto vivas ou íntegras? Não sei. Einstein talvez soubesse. Ou talvez eu mesmo soubesse, caso tivesse lido alguma de suas teorias, seja a geral ou a especial. Nem isso. Apenas de orelhada. Como sempre, como tudo. Mas, agora, não me arrependo do que não li, mas de tudo que li - ainda que tenha sido pouco. De que valeu? Não sei. Acho que de nada. Nada me faz fugir disso tudo. Camus, por exemplo, foi uma leitura inútil, sobretudo aquele dilema segundo o qual não nos matamos mesmo sabendo que a vida não nos levará a lugar algum. Eu me mataria, se pudesse. Não posso. Outros o farão. E eu não verei nada. E, segundo minha amiga, também não ouvirei. Cá estou, em pé, de olhos vendados, sem ver ou ouvir coisa alguma. Que horas eles vão atirar? Será somente um tiro? Onde me atingirá? Mas o que me ocorre é pensar bobagens, como essa coisa de que não ouvimos o som do

Domingo, Fevereiro 10, 2008

DE COMO ELA NÃO ESCAPOU APÓS MATAR AQUELE MOÇO

Foi perfeito. Nenhuma testemunha, nenhuma prova, nem mesmo investigação. Sumiu, sumiu, ficou por isso mesmo. Ninguém poderia imaginar que ela o tivesse matado; e a vida continuou (sempre continua!).

* * *

Anos depois, ao chegar em casa, ela o encontra sentado no sofá. Sua primeira reação não foi exatamente o susto de ver aquele suposto cadáver plenamente conservado - E VIVO! - sentado em sua sala. Preocupou-se com o marido.

- Calma - disse o defunto, prosseguindo - Ele não chegou. Demora mais um bom tempo.

- É você? - foi tudo que ela conseguiu falar. Estava trêmula.

- Sim, claro. Presumo que esteja espantada. Na verdade, vou ser franco: não presumo. Eu sei. Essa é uma vantagem de se estar nesta minha situação. As desvantagens são inúmeras, claro, mas isso de saber o que os outros pensam é uma coisa às vezes bem divertida.

- Como...? - ela definitivamente não sabia o que falar.

- Acalme-se. Sou eu, sim. Mas não quer dizer que saí do fundo daquela lagoa. E essas roupas, bem, você as vê porque seria pra lá de cafona eu aparecer com um lençol branco, naquele estilo "fantasminha de desenho animado". Vamos e venhamos, é melhor assim... Mas, me diga, como estão as coisas? Você tem dormido bem?

- Sim, muito bem. Muito bem. Minha vida está ótima. Muito bem casada, feliz. Estou assim há anos! - enfim, ela havia se recuperado e, uma vez recomposta, a velha arrogância veio junto.

- Ah, sim. Essa é você. Você é linda, sabia? Toda séria, toda auto-suficiente, e ao mesmo tempo tão cheirosa...

- Você veio do reino dos mortos para dizer que sou cheirosa?

- E quem disse que aquilo é um reino? Eu hein... Que visão mais "monarquista"! Não tem isso de rei, não. Nem rainha. Aliás, é uma bela de uma bagunça. A primeira coisa que fiz foi procurar parentes, pessoas queridas, mas é impossível. Então, resolvi atazanar vocês por aqui mesmo. Bem mais fácil. E muito mais divertido.

- O que você quer?

- Várias coisas, mas todas são possíveis.

- Por que você faz isso?

- Isso o quê?

- Porque está aqui? Porque não me deixa viver?

- Até onde sei - e me corrija se cometo algum erro - você que não me deixou viver. Você me matou! Não acho tão injusto aparecer para um dedo de prosa.

- Ah! Você me entendeu!

- Nossa! Mais um pouco e eu peço desculpas por você ter-me matado!

- Eu fiz o que precisava ser feito.

- Sim, eu sei. "Precisava ser feito". Isso me lembrou aqueles filmes de guerra, em que o velho amigo atira na cabeça do outro, para evitar que sofra com algum ferimento de batalha.

- Você teria feito o mesmo no meu lugar.

- Não sei. Será? Pode ser... Sei que, no meu lugar, com um tiro na cabeça e no fundo daquela lagoa, tanto você como qualquer outra pessoa estaria na mesma situação que eu.

- Você não me respondeu: por que veio aqui? Por que está aqui?

- Pirraça, mesmo. Somos diferentes, né?

- Sim, somos.

- Olha, melhor você parar de falar.

- Por quê? Está com medo?

- Eu não. Mas ele está chegando. E vai estranhar esse seu diálogo com um "fantasma". Enfim, é isso. Beijo pra você, e vamos nos falando.

- Eu preferia que não.

- Eu preferia que sim. Mas agora é bom, MESMO, você parar de falar. Não quero que a internem. Assim, tudo perderá a graça.

Ela se assustou ao ouvir o barulho de chaves na porta da sala. Quando olhou novamente para o sofá, ele estava vazio. Beijou o marido e ele, alegando cansaço depois do dia cheio no trabalho, correu para um banho. Ela abriu uma lata de cerveja e permaneceu em pé, olhando para o sofá e pensando.

Sabe que está ficando louca. Não sabe até onde consegue guardar esse segredo, até onde consegue manter a sanidade diante do que fizera. E o pior de tudo é que ela, a essa altura, já não sabe se esse fantasma é obra de seu inconsciente ou algo real.

Largou a latinha pela metade e foi para o quarto, esperá-lo sair do banho. Ao passar pelo sofá, sentiu o cheiro dele. Não viu nem ouviu nada, apenas sentiu o perfume que ele usava e ela adorava. "O cheirinho dele", ela pensou.

E sorriu.

* * *

Eles passaram a se encontrar regularmente. O trato era ao mesmo tempo simples insano: ela não poderia falar com ninguém sobre os encontros, pois seria taxada - com razão - de doida varrida; e ele não falaria pelo simples fato de que não estava mais vivo.

Certa vez, por exemplo, conversaram durante toda uma madrugada, até o sol nascer. Ela fez alguma brincadeira sobre ele ter que sumir com a chegada do dia, ele retrucou dizendo que era um fantasma de respeito, não um vampirinho de filme vespertino. E, como já era de costume, riram um do outro.

Tornaram-se amigos, novamente.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

ELES E ELA

João escreve contos policiais, quase sempre com um final surpreendente; em muitos casos, o assassino escapa ou dá margem para uma continuação. Antônio, desde o colegial, faz poemas. Já passou por todos os estilos, dos sonetos à poesia concreta, dos versos livres à prosa caótica. José publica um jornal alternativo com ensaios políticos um tanto extremistas.

Osvaldo, com o pseudônimo Vilelinha, redige crônicas para três jornais de bairro e corre atrás de dinheiro para reuni-las num único livro. Garante que será um sucesso. Narciso acredita na idéia de que todo autor precisa escrever apenas um romance; ele trabalha em sua obra - a única - há quase vinte anos.

Pedro, o Pedrinho, nem chega a ter trinta anos e é anunciado como um dos grandes escritores da nova era. Ajuda, é verdade, o fato dele ser filho de Theobaldo, o teatrólogo.

Por falar em teatro, Marcelo - que no "meio" é conhecido como Mamá Zigu - já está em sua vigésima terceira peça, e quase todos os estudantes de artes cênicas saem no tapa para terem a chance de encenar suas tramas.

Nenhuma lista como essa pode deixar de fora Tomás, Luís "Bigode" Camargo, Casimiro, Horácio, Daniel Batista e Francisquinho. Um tem blog, outro escreve semanalmente num periódico, outro é articulista regular de uma publicação voltada ao público jovem, enfim, são todos amigos e profissionais da escrita.

E, por fim, há Maria. Que apenas vive.

Domingo, Janeiro 27, 2008

DANIEL E O TEATRO

Para ela, a pior de todas as coisas péssimas envolvidas num falecimento é a hora de pegar os "pertences". Eles estavam casados havia vinte e sete anos, sabia que a saúde de Daniel não era boa, mas é claro que sofreu com a morte abrupta; toda morte de uma pessoa querida é abrupta, mesmo quando ela está muito doente.

Susto, pesadelo, lágrimas, notificação de parentes, abraços e mais lágrimas, tramitação de corpo, doação de órgãos, crematório... Tudo é sempre triste e desgastante. Familiares e amigos ajudam, mas nada diminui o peso gelado que permanece sobre suas costas.

Quanto aos "pertences" - termo usado pela enfermeira do hospital e que mereceu uma reprimenda imediata; embora ela própria não saiba como chamar aquela caixa -, a melancolia consiste no momento de verificar cada item. É como se cada objeto tivesse uma longa e interminável história.

São só objetos!

Ah, como ela gostaria de ser racional e simplória. Como ela gostaria de ser cética e contra os misticismos que, em conversas públicas, ataca com vigor. Nada! Elabora uma epopéia para cada botão, cada tampa de caneta, o isqueiro já quase no fim, o papel celofane do maço de cigarros.

E uma entrada para o teatro.

Estava a caminho do lixo quando notou: a peça seria dali a uma semana. Ela nunca gostou de teatro, ele sempre adorou. Ela nunca o acompanhava, ele ia toda semana. Ela nunca freqüentou as conversas e eventos com os tais "amigos do teatro"; ele não perdia.

Embora não fosse dada às artes mais "sofisticadas" e às bobagens intelectualóides, orgulhava-se do marido que, em vez de encher a cara em algum boteco, preferia ver peças semanalmente, em um ritual infalível, e ficar até de madrugada com os "amigos intelectuais".

Decidiu comparecer à peça cujo ingresso estava entre os "pertences". Não, ela nunca gostou de teatro, mas seria uma forma de homenageá-lo. Veria do começo ao final, fosse bom ou ruim o espetáculo. Como não conhecia os amigos do "bate papo teatral", o programa daquela noite se limitaria à peça.

* * *

Quando chegou em casa, sentiu-se um tanto boba. A peça foi ótima. Até que o teatro pode, sim, ser uma coisa boa. Arrependeu-se de nunca ter ido com o marido, sentiu-se muito boba por fazer essa militância de contracultura, que talvez nunca tenha deixado de ser um truque para escamotear a própria preguiça.

A única coisa ruim foi o sujeito da cadeira ao lado, que simplesmente não parou de olhá-la. Pensou seriamente em perguntar ao moço se ele foi até o teatro para paquerar ou ver a peça. Mas não seria de bom tom e, afinal de contas, o rapaz não tinha como saber que ela era uma recém-viúva.

Prometeu ir mais vezes ao teatro; não por culpa ou remorso em razão do falecimento do marido, mas porque realmente gostou da experiência. Levaria amigas consigo. Estava, de fato, muito empolgada.

* * *

Nem bem chegou em casa e logo ligou para o amigo:

- Você não sabe! Ah, que raiva! Aquela bichinha do Dani, sei lá por quê, deu o ingresso pra uma rachada! Uma rachada! Será que é namorada? É amiga? É o quê? Não, nem vem me acalmar! E ele não atende o celular a semana toda. Muita cara-de-pau daquela bichinha! Muita! Eu odeio isso, viu? Ah! Queria não gostar tanto dele! Que raiva! E aquela rachada, argh! Num perfume! Não, não vou me acalmar! Nem sei por que te liguei, você me faz ficar pior! O Dani me dá um cano, uma rachada perfumadinha senta ao meu lado, e ainda vem lição de moral? Por favor, né? Como? Ah! Eu não perdôo! Você sabe que não perdôo! Pra mim, ele tá morto! Você vai ver só? Duvida? Então tá... Eu sou forte! Eu não volto atrás!


* * *

Esta historinha é derivada de uma idéia de minha querida amiga Regiana Queiroz, que trabalha com cinema na Itália, em Milão. E é dedicada a ela, também.

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

A COVARDIA DA ÚLTIMA VISITA

2008, Cartagena

Como em todas as tardes, vai à praça e joga pedaços de pão aos pombos. E pensa. Pensa muito. Sempre na mesma coisa. Houve um tempo em que escolhia os assuntos em que pensar; hoje, não possui mais essa liberdade. O assunto é sempre o mesmo.

Uma mente monotemática.

O saco com pães, os pombos, o gramado verde, o banco, sua roupa... Tudo faz parte de um quadro monótono, uma pintura que se repete a cada dia, bem como se repete, sempre, a toda hora, o mesmo pensamento.

A mesma história.

* * *

1963, Rio de Janeiro

Deram um abraço apertado naquela despedida chata e triste; como são, sem dúvida, as despedidas desse tipo:

- Você não volta?

- Não tão cedo...

- E você nem o conheceu...

- Ah! Num dia não deu pra mim, no outro ficou impossível para ele. Acho que foi melhor assim. Aliás, nunca dá certo quando você promove esses encontros. Qual foi a vez em que algum desses moços tinham algo a me dizer?

- Esse é diferente! Acredite!

- É sempre assim...

Essa foi a conversa de despedida. Uma amenidade boba, para que se distraíssem em vez de pura e simplesmente chorar.

As duas amigas se separariam; e sabiam que dali em diante seria muito difícil haver um reencontro, já que uma permaneceria no Brasil, a outra moraria na Colômbia.

* * *

1963, Cartagena

Ela segura o envelope numa mão e, com o dedo indicador da outra, segue atentamente cada linha daquela carta. Já a leu talvez umas cem, duzentas vezes. Como isso foi acontecer? Um trecho a impressiona:

"...sei que parece bobo, e talvez seja definitivamente bobo, mas vou sempre pensar o que poderia ter sido, nessa grande hipótese, nesse tudo-nada que eu crio em minha mente a cada vez que penso em você... já vi sua foto, já soube de coisas suas, mas nunca a olhei nos olhos..."

A carta indica, evidentemente, um homem pelo qual ela se apaixonaria. Estava determinada a responder.

* * *

1972, São Paulo

Está há três anos morando na capital paulista, não se acostuma com nada da "cidade cinza" (é como ele se refere ao lugar), mas seu ódio à "terra da garoa" é amenizado sempre que constata a competência do serviço de correio. Chegou mais uma carta dela:

"...fico triste, muito triste, muito triste de verdade (...) não sei como faremos agora, não sei de mais nada, isso é tudo muito estranho para mim (...) tenho certeza do meu amor e também tenho certeza de seus sentimentos, mas como faremos agora? (...) parece que tudo acaba por aqui, não é? Nunca pudemos nos ver, nunca conseguimos, trabalho de um lado, trabalho de outro, distância, dinheiro, uma certa acomodação, e agora esse seu casamento (...) Talvez esse ponto final seja uma coisa boa para nós, mas eu não sei pensar sobre isso, ainda, sem chorar muito..."

Ele se odiava. Sentia-se o homem mais infeliz do mundo. Seu casamento seria dali a cinco meses, estava noivo havia mais de um ano, mas parece que somente agora os fatos pesavam sobre sua cabeça como sempre deveriam ter pesado.

E ela estava coberta de razão em tudo; ele sabia disso. Mas, agora, o que fazer...? Responder? Ignorar? Aceitar o ponto final?

* * *

1979, Cartagena

Ela nunca se apegou a rotina alguma. Nunca. Mas as idas à agência postal sempre foram a melhor parte de seu dia; ao menos, de sua semana. Infalivelmente, toda sexta-feira, lá estava a carta. Lá estavam novas páginas que ela lia e guardava na mesma caixa.

Já alugava quase dez. E quanto a isso contava com a ajuda de uma grande amiga que trabalhava na agência postal. Seu marido não poderia saber, ela tomava todos os cuidados e também tinha plena ciência que, lá no Brasil, ele também tomava precauções parecidas.

"...claro que entre nós há um amor infinito, e é essa a natureza de todo amor - ao menos presumo que seja, ou então o que sentimos vai além do amor e essas pessoas todas estão alguns degraus abaixo de nossa felicidade (...) Nossa relação soaria estranha a qualquer um. Como poderíamos denominá-la? Platonismo epistolar? Amor de cartas? Não sei, não sei mesmo. Talvez nem queira saber e o que menos precisamos agora é de denominações. Você está aí, casada e morando na Colômbia, eu aqui no Brasil, também casado (...) A vida nos separa, mas nos unimos nem que seja por birra..."

* * *

1986, São Paulo

Leu mais uma vez, antes de guardar o envelope no armário de seu escritório. Ele se orgulha dessa biblioteca secreta, dessa coleção única de edições exclusivíssimas. É o que resta a quem não tem outro meio de viver o que sente.

Mas a carta desta semana foge de todos os padrões...

"...e confesso estar cansada, extremamente cansada, dessa vida que levo (...) Quantos anos eu tenho? Nem eu sei mais. Parece que vivi uma mentira. Se ainda houvesse filhos. Mas não! E você também não teve filhos. Precisamos sim ficar juntos. Precisamos. Você e eu sabemos disso. Eu quero que você venha para cá. Eu vou me separar. A partir da semana que vem, sou uma mulher solteira. Não vou até aí, não vou fazer escândalo e respeitarei o seu tempo. Quando vier, serei sua. Já sou sua..."

* * *

1986, Cartagena

Ela sempre foi pragmática, mas ao mesmo tempo uma romântica sonhadora. Talvez apenas ela própria entendesse tais comportamentos contraditórios. Depois do desabafo e da promessa cumprida, esperava que algo melhor lhe chegasse pelo correio. Porém...

"...não consigo me separar agora, sei que talvez você possa me chamar de fraco por isso, mas simplesmente não sei como fazer isso assim, de uma hora para outra (...) tenho certeza de que você precisa repensar essa decisão antes de por em prática uma medida tão drástica (...) e inclusive pensei no fato de que nunca trocamos uma única foto; no início, foi charme de sua parte, depois ficou como uma promessa (...) você não viveu uma mentira, eu não vivi uma mentira, nossas vidas são reais, e em algum momento nos cruzaremos, ficaremos juntos, você e eu sabemos disso, mas infelizmente não há como ser agora..."

Ela chorou. Essa era uma possibilidade, ela sabia. E o que fez foi aquilo que poderia fazer após a leitura da carta: chorou, chorou e chorou.

* * *

1992, São Paulo

São quase seis anos sem receber uma única carta. Ele já mandou pelo menos umas duzentas, mas sem qualquer retorno. É claro que ele entende os motivos desse silêncio, mas ao mesmo tempo tudo é muito preocupante.

Os amigos em comum já estão perdidos no tempo. Telefones, endereços, e talvez até os nomes, enfim, tudo foi esquecido, tudo ficou para trás. Como encontrá-la agora? Será que ela está bem? Será que algo aconteceu?

* * *

1996, São Paulo

Ele ainda não sabia como reagir diante do que leu. Desde que começaram as correspondências, e eram apenas dois jovens apaixonados, essa foi a emoção mais violenta que o assolou.

Infelizmente, o sentimento de então já não tem muita semelhança com a empolgação apaixonada das primeiras cartas. O que o dominou, naquele instante, foi o ódio. Ódio de si prório, ódio da própria covardia, ódio, tristeza, pânico. Tudo de ruim.

"...depois de sua quinta carta, confesso que tomei coragem e a abri, de modo que fiquei um tanto emocionado. Me desculpe invadir sua intimidade, mas a pessoa a quem você dirige seus textos não mora mais nesta casa, e isso há alguns anos (...) demorei para escrever porque fui atrás da destinatária, e justamente não sabia como responder diante do que fiquei sabendo (...) nesta única carta que li, pude saber que vocês nunca se conheceram, então é certo dizer que jamais se conhecerão, mas talvez você possa visitá-la, ainda que seja para prestar sua homenagem póstuma (...) mas também não sei se a idéia é boa, acho que fica a seu critério (...) mas, se vier, faço questão de acompanhá-lo, eu e minha esposa, para que não apenas visite o cemitério, mas principalmente tenha uma ótima estadia nesta cidade..."

Ele respondeu à carta prontamente, sem obedecer aos antigos rituais e regras de tempo. Comprou as passagens e viajaria na semana seguinte. A carta de resposta - e agradecimento - foi enviada com os dados do vôo.

Mas ainda sentia o mais profundo ódio de si próprio. Deixou a história de sua vida passar, deixou tudo acontecer sem que fizesse coisa alguma. O que fazer agora? Nada! Mas a inação também seria algo péssimo. Estava decidido a pelo menos fazer uma única visita, ainda que póstuma, para chorar o que deveria ser chorado.

* * *

1996, Cartagena

A idéia havia dado certo! Seu amigo, o único até então a saber da história, definitivamente era um profundo conhecedor da alma masculina; e, claro, também da humanidade.

Porque as pessoas - ele dizia - sempre acham tempo para os velórios. Sempre! O sentimento de culpa as domina e tudo que mais desejam, com a maior sinceridade e do fundo de seus corações, é que aquilo seja um pesadelo, uma peça, uma brincadeira de mau gosto, qualquer coisa que não a realidade.

No fim das contas, era isso mesmo.

Ainda assim, ela tinha receio de como ele reagiria ao saber que foi envolvido numa brincadeira de tão péssimo gosto. Mas nenhum receio ou sentimento superava a ansiedade com que ela contava os segundos até a hora da chegada do avião.

* * *

1996, Cartagena

Ela já ouviu infinitas vezes a mesma notícia na TV. Não acredita, não pode ser verdade. Já chegou ao ponto de ler alguns jornais brasileiros. Mas não havia como fugir: ele estava entre as vítimas do acidente, na lista de passageiros.

O amor de sua vida morreu na queda do avião, e seu corpo jazia em meio à selva, sabe-se lá onde. Nunca, em toda sua vida, ela sentiu tanta culpa. Essa culpa horrível, inescapável, que a acompanharia de forma permanente.

* * *

2008, Cartagena

Como sempre, ela joga pedaços de pão aos pombos. Como sempre, ela vai da casa para a praça, da praça até o porto, do porto até sua casa. No caminho - sempre o mesmo -, encontra pessoas sem nome, pombos sem nome, cachorros e gatos sem nome.

São sempre os mesmos, sempre anônimos. Sempre a mesma tristeza.

E ela nem mesmo tem coragem para se matar. Gostaria, pensa nisso quase todo dia, mas falta coragem. Talvez exista algum heroísmo no suicídio, e ela não se vê como alguém com um mínimo de coragem ou coisa que o valha.

Ela convive com a culpa de ter levado à morte o único amor de toda sua vida. Passa todos os dias de sua vida pensando em como seria ter uma vida de verdade.

Uma existência tão amarga que não lhe cabe lágrimas, desabafos... Nada. Tudo que lhe cabe é uma rotina besta, os pombos e seres anônimos e o mundo que, como sempre, serve de cenário e nada mais.

* * *

2008, Rio de Janeiro

Na roda de carteado, mais uma vez pedem que ele conte a tal "história da ressurreição". No começo, os desavisados simplesmente não acreditam. Depois, diante de algumas confirmações, todos ficam atônitos.

Ele não tem prazer algum em tal narrativa, e talvez a repita tantas e tantas vezes como uma forma de penitência:

- Quando eu digo que nasci de novo não sou como aquele sujeito que levou um tiro na cabeça e a bala se desviou sem machucá-lo de forma séria. No meu caso, isso também teve a ver com a cabeça dura, mas num sentido um pouco mais figurativo... Eu ia embarcar. Juro. Estava prestes a embarcar. Desisti. Covardemente desisti. Já em casa, vendo o jornal, fiquei sabendo da notícia, como todos vocês. Liguei apressadamente para meus pais, velhinhos, para que não se assustassem caso meu nome aparecesse. Até hoje algum tio ou tia ainda pensa que estou morto. Só os credores é que não se deixaram enganar...

Todos caem na gargalhada, mas ele os olha com semblante sério.

- Não riam disso. Eu perdi o único amor da minha vida. Eu iria até uma cidade que deveria ter conhecido havia muito tempo para visitar seu túmulo. Desisti porque isso seria covarde demais. Seria um atestado de covardia. Nós somos assim, não é? Sempre temos tempo para os mortos. Ela não merecia tamanha imbecilidade de minha parte. E, depois disso tudo, principalmente do meu, digamos, "renascimento", pedi a separação e cá estou com vocês, seus palermas, dando uma aula de tranca em plena tarde de quarta-feira!

Agora, sim, todos puderam rir sem culpa alguma.

Apenas ele, em silêncio, amargava aquela tristeza de quem não teve coragem o bastante para viver a própria vida. A mesma tristeza de quando, em 1996, abriu aquela fatídica carta. É a isso que se resume sua existência.

Uma existência tão amarga que não lhe cabe lágrimas, desabafos... Nada. Tudo que lhe cabe é uma rotina besta, os pombos e seres anônimos e o mundo que, como sempre, serve de cenário e nada mais.

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

PERSONAGEM DE SI PRÓPRIO

A platéia aguarda com certa ansiedade o convidado dessa noite. Ele já foi anunciado duas vezes, inclusive com propaganda na TV... Mas, se ele faltar, não terá sido a primeira vez e provavelmente nem a última.

O apresentador termina as piadas de sempre, faz algum suspense, imita personagens clássicas do velho ator que está para ser anunciado e então diz seu nome:

- OTÁVIO GOMES TENÓRIO!

Ele entra emburrado, como se a entrevista fosse a contraprestação para, vá lá, salvar sua mãe de uma sentença de morte. Apesar da cara fechada, cumprimenta o apresentador com um abraço. Ainda assim, não sorri.

- Gostaria de agradecer demais sua presença! - elogia o apresentador.

- ... - ele esboça um sorriso que não poderia ser mais falso.

A platéia ri. Seguramente, os que vêem de casa também estão rindo.

- É impressionante esse controle que você tem sobre as platéias, Otávio... - elogia o apresentador, sempre bajulando os convidados. E continua - Pouca gente tem esse talento. Você deu aí, sei lá, um olhar... E olha, todos riem!

- É claque - ele responde em tom seco.

Gargalhadas gerais. Nas casas, todos riem. O apresentador bate com as mãos sobre a mesa, em uma risada aparentemente ensaiada.

- Otávio, diga para mim... Para nós, né? Afinal, você nunca dá entrevista... Essa é sua primeira...

- Sim, a primeira. Em quarenta anos de carreira!

- Pois é... Você pode imaginar a honra que é ter você por aqui... Diga para nós, portanto, talvez aquilo que todos gostaríamos de saber: como é ser personagem de si próprio? Até que ponto é o Otávio, até que ponto vão as personagens...

- Ninguém conhece minha vida privada... Ninguém sabe como sou. Vocês conhecem as personagens, conhecem essas declarações em porta de cinema, sei lá, ninguém nunca me ouviu falar. Como é que eu mesmo seria uma personagem cuidadosamente ou não tão cuidadosamente interpretada?

- Ah, sim... Claro... Mas é que existe todo um mito, né?

- Olha, ainda bem que você falou. Ainda bem. Eu acho que está na hora de falar sobre esse "mito". Parece um pouco arrogante dizer algo sobre isso, mas já li tanta bobagem nas mais variadas revistas... É, tá na hora de falar a esse respeito. Eu sou muito mais grato de estar aqui do que você por ter-me recebido. Pode apostar. Porque o público não sabe de nada, entendeu? O público não faz idéia de quem eu seja. Vêem aqueles filmes antigos, os palavrões... Eu mandando um à merda, falando que o outro precisa tomar no cu, ou fazendo papel de pinguço, mas ninguém faz a menor idéia da pessoa que eu sou. Isso eu escolhi porque não acho que devam saber, mas nos dias de hoje talvez seja mais adequado abrir o jogo de uma vez, porque pelo menos evitam essa coisa do mito...

- Pois é, e sobre isso eu...

- Por favor, eu gostaria que você não me interrompesse, se não eu simplesmente vou embora. Não quero aqui parecer prepotente nem ter chiliques em seu programa, mas já que pediram tanto para eu vir, gostaria de falar até o fim sobre isso do mito. Pode ser?

- Nossa, claro. Mas é claro... - o apresentador mostra-se constrangido, mas ao mesmo tempo franze a testa como se prestasse atenção.

- Muito obrigado. O negócio é o seguinte: vocês falam aí que eu saí com a fulana, comi a beltrana, que sou o fodão do cinema nacional, que sou um mito... Isso é bobagem, entende? Bobagem. Isso não é nada, isso não quer dizer nada. Eu sei que isso vai depor contra mim, porque de certa forma é essa fama estranha que faz entrar algum dinheiro lá em casa. Mas me incomoda ser visto como um grande vencedor e, na realidade, ser talvez o inverso disso. Eu não sou o eterno solteirão por malandragem. Sou assim porque eu só tive uma história de amor na minha vida, e ela não deu certo. Eu consegui estragar a única coisa realmente verdadeira da minha vida...

- Taí, é uma revelação... - interrompe o apresentador

Otávio olha feio, finge que não notou essa interrupção, e prossegue

- Eu hoje tenho 65 anos, e mais da metade da minha vida eu passei numa grande simulação. Vocês sabem o que é isso? Eu não sou uma personagem, mas sou - sim - a pessoa que vive numa simulação, num simulacro. Mais ou menos como se eu fosse personagem coadjuvante no filme de minha própria vida. Eu já trepei com muita mulher famosa, mesmo. E daí? Eu fiz isso ao longo de todos esses anos, vivendo no simulacro, quando o que eu mais queria era ter uma vida a dois com a única mulher que eu amei nessa vida. Será que daria certo? Não sei. Nem ela sabe. Ela pode dizer que não, eu posso dizer que sim. Nunca saberemos, vai ser sempre uma coisa especulativa. Eu não a vejo há várias décadas, ela talvez esteja me vendo pela TV, ou talvez não, sinceramente não sei. Eu sou o "famoso", ela é mais uma na multidão. Mas ela é feliz, e eu sou essa pessoa amarga, cujo azedume vocês todos - burros! - confundem como alguma coisa mais ou menos orquestrada para parecer marketing pessoal ou coisa que o valha. Convenhamos: é burrice de vocês. Tudo bem que, aqui, eu sou o grande desgraçado. Mas vocês são os burros. Eu sou o infeliz, e vocês os desinformados. E assim seguimos nesse teatrinho, sei lá, nesse filminho idiota que vocês decidiram que é a minha vida. Um filminho cujo roteiro não tem a mínima aproximação com o mundo real. Uma história que eu aceitei "viver", ainda que aparentemente. Mas agora chega. Não, eu não sou feliz. Não, eu não sou o "comedor". Não, eu não sou personagem de porra nenhuma. Eu sou só um desgraçado, um filho da puta que soube o que era ser feliz por, sei lá, um ano, um ano e meio. E de lá pra cá apenas vive dessa lembrança. E nem adianta eu dar uma de coitado: tudo deu errado por culpa minha. Sou tão desgraçado que consigo ser vítima e algoz ao mesmo tempo. Não tenho um inimigo para eleger. Essa é a pessoa que eu sou. Não há personagem. É isso.

O apresentador permanece quieto. Assim como a platéia. Otávio se senta, apanha um copo d'água e finge que não fez um discurso absolutamente inédito em toda a televisão brasileira. Está lá, calmo, esperando mais uma pergunta.

- Vai, porra! Pergunta agora!

É a deixa. Todos caem na gargalhada. O apresentador solta sua respiração, a platéia desaba em risos e gritos. Em meio a todos esses gritos, o apresentador diz:

- É um artista! Um artista! Monólogo de improviso! Onde é que já se viu? É um gênio! Que texto é esse? Um gênio! Otávio Gomes Tenório!

A entrevista prossegue com trivialidades, e o carrancudo Otávio é flagrado quase esboçando um sorriso. Perguntas bobas, respostas mal-humoradas, risos, gargalhadas. Assim foram os três blocos.

* * *

Otávio é acordado com um telefonema. Nem sabe o que dizer. Fica em dúvida entre xingar ou ignorar. Atende quieto e assim permanece, sobretudo após ouvir aquela voz. Aquela! A voz dela...

- Você me espera?

Ele fica quieto. Dá a primeira risada sincera em tantos anos, e começa a chorar copiosamente.

- Eu não fiz outra coisa durante esse tempo.

- Só mais um pouco, meu amor.

Eles desligam. Otávio Gomes Tenório finalmente pode aposentar a personagem coadjuvante de sua própria vida, para vivê-la de uma vez, como protagonista. Ou melhor: tudo agora deixa de ser um filme.

Ele está feliz.

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

O MOÇO DOUTRINADOR E A SAGAZ MOCINHA

Eles estão deitados na cama; ela lendo, ele aparentemente pensativo.

- Tava pensando aqui... - diz ele.

- Ih, lá vem! - ela nem chega a tirar os olhos do livro.

- É sério! Juro!

- Ai, ai... - visivelmente contrariada, ela coloca o livro sobre o criado-mudo. Ele havia acabado de contar uma piada péssima, e ela temia por outra anedota.

- Seguinte: você me ama?

- Olha... Poucas vezes vi alguém fazer tanto suspense antes de uma pergunta retórica, viu?

- É sério! Faz parte da teoria.

- Hmm... Teoria!

- Sim, sim! Ouso dizer: tese!

- Tá, então vamos lá, doutrinador! Sim, eu te amo.

- Pois bem. Eu também te amo!

- Gostei da tese. Você pretende publicá-la em alguma revista científica ou apenas tatuá-la no ombro direito?

- Calma, pô! Presta atenção!

- Ok, ok...

- Promete não me interromper? Ainda que você considere engraçado, mesmo que tenha vontade de rir, enfim, promete?

- Olha... Prometer, não prometo. Mas, vamos lá! Diga qual é a teoria... ops! a TESE misteriosa!

- Seguinte... Todo mundo já deve ter pensado pelo menos uma vez na vida em quão difícil é viver um amor recíproco. Porque isso - aparentemente trivial - envolve um sem-número de variáveis...

- Hm... - ela parece atenta. Ele prossegue:

- Vamos do começo: você e eu resultamos de uma corrida de milhões de espermatozóides e, além disso, tivemos a sorte de fazer parte justamente da ejaculação que deu certo...

- (ela abafa uma risada)

- ...você prometeu!

- Tá, tá... Mas é que a "ejaculação que deu certo" foi foda, né? Mas continua...

- Então... Havia bilhões de chances de nenhum dos dois NEM TER NASCIDO. Daí, temos as variáveis pós-nascimento: viver até esta idade, pois muita gente morre antes!, e um conhecer o outro na hora certa, coincidir um mesmo momento no espaço e no tempo, veja bem...

- Espaço/tempo! Uau... Continua!

- Viu só? Esse negócio de "eu te amo, eu te amo" parece trivial, e damos à frase, mesmo quando há amor recíproco, uma certa vulgaridade. Mas você tem idéia do quanto é difícil, do quanto é quase impossível viver um amor assim tão verdadeiro?

- Olha, posso falar?

- Ué, claro que pode!

- Você abordou vários temas aí. Eu daria notas baixíssimas em matemática, em especial no quesito "probabilidades", e seguramente o reprovaria em biologia, geografia humana e, já que falou em espaço/tempo, também ficaria de segunda época em física...

- Poxa!

- Mas é nota dez em lindeza!

Como sempre, ela deixa a ironia superficial de lado e dá vez ao amor que há por baixo disso. E, nessa noite, não mexe mais no livro.

No dia seguinte, pela manhã, ela tenta acordá-lo:

- Acorda aí, mocinho! Sabe qual a chance de alguém dormir e não acordar mais, ou mesmo de acordar em outra dimensão, ou de acordar transformado em barata, ou ainda envelhecer mil anos durante o sono?

Ele abriu apenas um olho:

- Toooda engraçadinha! Eu não sei a chance disso aí, não. Mas sei o quanto é difícil ser acordado pela mulher da minha vida. E o quanto é bom.

- Ah, você é um filho da puta com esses galanteios de segunda! Mas eu te amo!

E assim, pela manhã, continuaram. Como sempre.

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

QUERER

- Quero te engolir!

- Quero tatuar seu nome no meu corpo todo!

- Quero carregar seu cheiro comigo!

- Quero você pra sempre!

- Quero envelhecer ao seu lado!

- Quero transar a tarde toda!

- Quero transar a semana toda!

- Quero transar o ano todo!

- Quero cantar mil músicas para você!

- Quero escrever mi livros para você!

- Quero muitos filhos e uma vida a dois!

* * *

- Quero dormir.

Terça-feira, Novembro 13, 2007

BEIJO ROUBADO

- O que houve?

- Onde?

- Você e ele, ué! Eu os vi agora mesmo, lá no fundo, se atracando...

- Ah! Ele me roubou um beijo.

- Como assim? Ele "roubou"?

- É!

- Mas você parecia bem à vontade. Não o empurrou nem nada.

- Não reajo quando sou assaltada.

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

O ROTEIRO PIEGAS

- Poderia ser tudo um filme, né?

- Sei... Às vezes eu acho que conheço o filme e morro no final!

- Não, não... Um filme-filme. Sem piada.

- Sem piada? Como pode? Não é um filme.

- Sim, eu sei. Não é. Mas, se fosse...

- Ah! Seeeeeeeeee fosse...

- Isso! Se fosse... Como seria?

- Não sei. A idéia é sua...

- Poderíamos pegar uma estrada, dessas bem grandes... Fugir!

- Isso! Fugir! Mas pra onde?

- Não sei... Uma fuga... Nos filmes eles fogem pro México, né? Aqui, não dá para ir ao Paraguai. Então é só uma fuga. Até, sei lá, até algum lugar.

- Uma fuga para nada...

- Sim. A viagem é o que importa. E nós dois juntos, claro...

- Claro, claro... E dinheiro?

- Ganhamos na loteria no meio do caminho, ou achamos uma mala de dinheiro, ou ganhamos algum prêmio, ou alguma coisa assim...

- Suuuuper fácil, né?

- É filme!

- Tá, tá. Mas como acaba o filme? Tem final feliz?

- Não tem final. Não existe final feliz.

- Ih, lá vem você... Vai, fala. Como acaba?

- Não acaba. O final mais feliz possível é não ter fim.

- Você fala coisas bobas, mas isso aí é lindo.

Terça-feira, Novembro 06, 2007

UM FRAGMENTO

- Te amo um tanto que até dói!

- Eu sei! Dói mesmo! Eu também te amo assim!

- Sabe como é? Eu sei até descrever!

- Como?

- Dói no peito, dá frio na barriga, e quando eu te vejo a respiração se transforma em suspiros de medo... E ao mesmo tempo tudo é bom.

- Ah, eu te amo!

Quinta-feira, Outubro 25, 2007

O HOMEM QUE QUERIA SER PERFEITO

Ela o deixou e dessa vez não voltou mais para casa. Ele mereceu e bem sabe disso. Foram muitas as mancadas, tantos os erros. Claro que um dia ela iria para sempre.

Mas para sua sorte, ele vivia num mundo ficcional. Tinha em mãos, portanto - e sem mais delongas - uma máquina do tempo. Imediatamente, pensou em voltar no exato momento em que cometera o primeiro dos erros.

Mas foi mais esperto.

Fez uma lista de tudo que já fizera de errado. Uma lista mais ou menos completa, que por acaso encheu dois cadernos. Por aí, dá para se ter idéia do quanto ela foi paciente antes de definitivamente partir.

Com os erros e pecados catalogados, ele voltou até o ano tal, dia tal, hora tal. Mais uma vez, agradeceu por viver num mundo de ficção. Não valia aquela bobagem de "contínuo espaço-tempo". Nada de paradoxos ou outrs bobagens.

E então se encontraram. Em poucas horas, ela percebeu que ele estava diferente. Estava melhor. Muito melhor! Era outro homem! Um homem sem aqueles vícios todos que ela tinha começado a identificar.

Passaram dois meses em plena felicidade.

Mas as coisas passaram a se tornar difíceis. Eles começaram a brigar por bobagens, por besteiras, por futilidades. As brigas, que em princípio eram também bobas, foram se tornando mais e mais sérias.

Um dia, diante da impossibilidade de convívio, ela foi embora e o deixou. Dessa vez, porém, ele não entendeu sua partida. Soube, por amigos em comum, que ela não suportava mais a agonia de viver com um homem sem defeitos.

A história acabaria aqui.

Chegou um anjo, ou algo assim, passando lição de moral, explicando que há coisas que estão escritas nas estrelas e não podem ser mudadas. Foi um discurso edificante, que ele ouviu inteiro sem bocejar. Mas dicordou.

Afinal, como ele próprio lembrou ao anjo, aquele era um mundo ficcional. E ele usaria a máquina do tempo quantas e quantas vezes fosse necessário para que se ajustasse ao que fosse bom para viver o amor de sua vida.

E por mais que se acredite em destino, não há estrela ou constelação que seja páreo para um amor verdadeiro. O anjo não esperava por essa, mas abriu um sorriso.

Agora, sim, acaba a história. Mas a história nunca acaba.

QUASE ANTES DE MORRER

Não, não passa um filme com a história de nossas vidas. É mentira, e isso perde boa parte do sentido quando pensamos naqueles que morriam antes da invenção do cinema. O que passaria em suas cabeças? Fotografias? Pinturas? Imagens reais? Nada.

Pouco antes de morrer, não pensamos em coisa alguma. Apenas ficamos tristes e com medo. Mais nada. Não há filme, nem a tal "forte luz branca". Não há antepassado ou ente querido já finado que nos recebe em qualquer lugar. Nada.

Um pouco antes de morrer, quando sabemos de nossa própria morte, esquecemo-nos de pensar. Somos o avesso da razão, o inverso do raciocínio, o oposto de qualquer idéia. Somos o instinto de não morrer, a vontade primitiva de viver. E, talvez, quando muito, um pouco de arrependimento.

E, depois de morrer, simplesmente não somos. Fomos.

O resto é coisa inventada pra vender livro, enriquecer os que pregam e tornar mais idiotas os cordeiros em geral. O resto é ficção criada para tornar bonito e épico o que é apenas natural e desprovido de beleza ou feiúra.

Morrer é triste. E só.

Mas é claro que há uma outra explicação para isso tudo. Talvez o filme de minha vida não passou em razão do horário, tendo em vista os prováveis problemas que teria com a censura.

E meus parentes mortos eram todos céticos demais para dar o braço a torcer - mesmo depois de finados. Eles jamais me receberiam onde quer que fosse; e fariam isso só por birra.

Quanto à tal luz... Bom... Fazendo agora um rápido balanço dos meus atos de "ser vivo", é bem improvável que, depois de morto, eu vá para os lugares míticos mais iluminados.

Quarta-feira, Outubro 17, 2007

E SE O AMOR NÃO EXISTISSE?

Sei que a poesia já fez essa pergunta. A música, erudita ou popular, também a fez. A Filosofia e a Teologia, muito provavelmente, já formularam essa hipótese. Pois bem: e se o amor não existisse?

Suponho que não haveria poesia, nem música erudita ou popular, nem Filosofia ou Teologia... Quer saber? Nem geografia, história, biologia, matemática. Nada. Não estudaríamos.

Ninguém seria alfabetizado e não sei se deixaríamos de ser macacos. Ou, quem sabe, nem mesmo chegaríamos a ser macacos. Pararíamos em algum estágio bem antes disso.

Seríamos platelmintos, nematelmintos, anelídeos... No máximo, no melhor dos cenários - sem o amor - seríamos celenterados. É isso. Seríamos aqueles seres do mar, que ficam ali sem fazer coisa alguma e vivem sem saber por quê.

Mas o amor existe.

O problema é que o amor não sabe existir sozinho. Ele traz consigo uma série de outras coisas (e não apenas poesia, ciências humanas e exatas, a humanidade etc...). Ele traz mágoas, tristezas, raivas, ódios...

O amor provoca guerras e urticária, chacinas e dor-de-cabeça, genocídios e irritação nas axilas. O amor é uma pedrinha metafórica num sapato quase real; ou uma imensa pedra real no meio de nossa estradinha metafórica.

É inteorizável.

Além desses malefícios existenciais, a produção cultural que acompanha o amor não se limita às chamadas "belas artes". Tal sentimento também propiciou e ainda propicia coisas como péssima literatura, música da pior qualidade, festas horríveis e filmes muito chatos.

Sei não, mas às vezes penso que talvez fosse melhor ser uma anêmona. Ou então uma estrela-do-mar tão bonita quanto ignorante; no auge da felicidade, exatamente por não saber o que é ser ou deixar de ser feliz.

E sem ouvir música sertaneja.

Terça-feira, Outubro 02, 2007

O ROTEIRISTA DE FILME B

Cena 1 - 2010
Ele está parado no aeroporto, na frente do portão de desembarque.

* * *

Cena 2 - 1994
Ele apanha o violão e arranha alguma coisa incompreensível. Começa a cantar algo também incompreensível.

(amigo)
- Que porra é essa?

(ele)
- Uma música.

(amigo)
- Não, cara! Isso não é uma música. Mas nem fodendo! Você está arranhando essa merda de violão e não tá cantando nada.

Dito isso, o amigo lhe toma o violão e toca de verdade. Ele acende um cigarro enquanto o amigo toca. Com um pouco de má-vontade, e uma voz muito rouca, resolve cantar. O amigo toca bem, mas não sabe cantar nada.

* * *

Cena 10 - 2002

Ela está feliz da vida com a Faculdade, o namorado, a vida e tudo mais. Ela escreve alguns poemas, mas não os mostra a ninguém.

* * *

Cena 28 - 2007
Ele e ela estão nus, numa cama, ambos sentados. Ele toca uma música no violão, diz que ninguém nunca tinha ouvido aquela música. Ela chora. A letra daquela música tem as mesmas palavras do poema que ela escreveu e nunca mostrou para ninguém.

* * *

Cena 37 - 2008
Há tempos não se vêem, nem mesmo se falam. Não se comunicam nem mais por escrito. A vida continua. Flashes da vida de ambos.

* * *

Cena 43 - 2010
Ele está na frente do portão de desembarque, no aeroporto, esperando por ela. De repente, forma-se um tumulto na saída; muita gente, gritaria, a loucura de sempre, como acontece em todos os aeroportos.

Sem que ele percebesse, ela chega por trás, tapa seus dois olhos e faz a mais óbvia das perguntas, de uma forma tão linda que transforma esse momento infame em algo lindo:

(Ela)
- Adivinha quem é?

(Ele)
- Ah... Tenho quantas chances?

(Ela)
- Quantas quiser. Pra sempre...

Ela tira as mãos dos olhos dele; ele se vira e ambos se beijam. A bagagem fica no chão, as pessoas continuam passando e gritando, a câmera se afasta.


* * *

Após ler o roteiro, o diretor deu uma gargalhada:

- Quem vai se interessar por isso? - ele fala e balança o calhamaço de papel.

- Mas você chegou a ler tudo...?

- Umas partes. E foi o bastante. Isso aqui é uma merda...

- Tem final feliz! Você queria final feliz!

- Eu não gostei, ok? Reescreva tudo.

- Não posso.

- Como não pode?

- Não posso, ué.

- Ih, vai começar com isso de novo? Claro que pode! Você tem medo de mudar isso aqui, né?

- Medo? Não. Mudar é moleza. Difícil é deixar assim.

- Que seja. Mas trate de mudar essa merda.

- Não, não vou mudar.

- Então esquece, ok? Isso nunca vai virar filme!

- Ainda bem.

O diretor leva as duas mãos à testa, balança a cabeça negativamente e acaba cedendo:

- Vamos fazer outra história? O que você acha? Vamos falar a verdade, cara, você não é bom em historinha de amor...

- Pois é... Falei isso desde o começo.

- O que faremos? Humor? Ação?

- Sei lá. Fala o que você quer, dê mais ou menos uma idéia, amanhã eu volto com o rascunho. Como nos velhos tempos. Daí você xinga daqui, elogia de lá, eu mudo, depois de amanhã já temos o argumento. Sempre foi assim.

- É, é... Sei como é.

- Então é isso. Eu tenho uma idéia.

- Qual?

- Um cara muda de identidade, sei lá, tá fugindo da polícia, tá querendo entrar em algum país, enfim, muda de identidade. E então descobre que alguém passou a usar a sua verdadeira identidade...

- Sei, sei...

- E a coisa não pára aí: o cara começa a praticar uns crimes e tal, então o cara acaba indo atrás do vigarista e o mata...

- Hm...

- Veja bem: ele vai preso por matar a si mesmo! O cara morre queimado, alguma coisa assim. Tem uma porrada de testemunha e ele vai preso por ter matado o cara que era ele próprio. Entende o drama?

- É, é legal. Dá pra trabalhar isso. Mas não é comédia, né? Parece meio "kafka".

- Ah, cabe um monte de piada aí...

- Cabe, cabe. Mas faz como se fosse um drama. Vamos tentar. Qualquer coisa, amanhã mudamos tudo.

- Tudo bem. Vai ficar legal. Estou empolgado de verdade!

- Tá certo, tá certo... Mas aquela de amor lá, não tem jeito mesmo? Você não muda?

- Não tem como, cara. Você sabe disso.

- É, eu sei... Eu sei. Tudo bem, vamos com essa nova aí, essa parece boa. E chega dessas tentativas de amorzinho, né?

- É fácil falar.

Quarta-feira, Setembro 26, 2007

COMO FOI?

- Como eu te ganhei?

- E quem disse que ganhou?

- Quer apanhar? E responde direito: Como te ganhei?

- Ah... Você é linda, é inteligente, é cheirosa...

- Você fala isso aí de inteligente e cheirosa porque sabe que eu gosto. E fala que sou linda porque presume que todas as mulheres gostam.

- Ei, você quer minha resposta ou quer o quê? É isso tudo aí que me faz te amar.

- Ah, você é lindo... Mas fala, o que foi mesmo que te conquistou?

- Preciso pensar... São tantas coisas, não sei se existe uma... Acho que é uma soma de tudo. No começo foi a beleza, não tinha como ser diferente. Nos vimos, nos aproximamos. Não dá para olhar para uma mulher linda e presumir "ah, já sei, ela é inteligente". Conhecemo-nos primeiro visualmente e isso já me encantou o bastante para querer saber do resto.

- E o resto...?

- O resto me encantou o suficiente para não fazer mais diferença aquele motivo primeiro da atração.

- Você tá falando bonito, hein?

- Ah, vai se danar! Tô aqui teorizando, pô! Eu não sei teorizar com linguagem de boteco. Gosto dessa retórica das teorias...

- Mas continua, continua...

- Então... Era isso e...

- E...?

- Já sei!

- Sabe o quê?

- Já sei o que realmente me cativou!

- O que foi?

- "Persecutória"!

- Quê?

- Isso mesmo!

- O que é isso? Um enigma? Eu devo falar alguma outra coisa agora e então teremos acesso a uma informação secreta da CIA?

- Não seja boba. Foi essa palavra. Você uma vez a usou numa mensagem, falávamos sei lá de quê...

- Eu raramente uso essa palavra...

- Sim! Ninguém usa nunca! E foi quando você usou essa palavra que eu tive certeza absoluta de que me casaria com você. Eu não deixaria de viver o resto dos meus dias com uma mulher que, numa mensagem!, usa a palavra "persecutória"!

- Você tá falando sério ou tá falando isso só para eu ficar com vontade de te morder?

- É sério! Eu juro! Você não lembra disso?

- Ah, agora eu lembrei... Você é lindo! Como você lembra dessas coisas?

- Mas essas coisas acontecem aos montes na nossa vida? São momentos únicos, são momentos que merecem a eternidade...

- Agora você tá exagerando, né?

- Tá, ok... Agora foi forçado...

...

- Ei!

- O que foi, meu amor?

- Já que eu falei, fala também!

- O quê?

- Como eu te ganhei?

- E quem disse que ganhou?

...

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

TRILHA

"Coração Vagabundo", "Minha Mulher", "Eu Sei Que Vou Te Amar", "Eu Vou Tirar Você Deste Lugar", "Deixa Eu Te Amar", "Sufoco", "Flor da Idade", "Tatuagem", "Esse Cara", "Olhos nos Olhos", "Saudosismo", "Asa Branca", "Sabiá", "O Xote das Meninas", "Você Não Soube Me Amar", "You've Got To Hide Your Love Away", "Pedaço de Mim", "O Que Será", "Cucurrucucu Paloma", "Detalhes", "Mora na Filosofia", "If You Hold a Stone", "Trem das Onze", "Trem das Cores", "O Ciúme", "O Casamento dos Pequeno Burgueses", "João e Maria", "Todo Amor que Houver Nessa Vida", "Amanhã"...

"Todo Errado".

Ou o silêncio.

Terça-feira, Setembro 18, 2007

O FILME

- Você não me conhece.

- Ah, é? E por quê? Qual o grande segredo que você esconde?

- Todos. E nenhum.

- Hum... Quanto mistério...

- Mas é verdade. Não escondo segredos específicos, mas sim toda uma pessoa que você não sabe quem é. E, se serve de consolo - ou como forma de me isentar de culpa - nem mesmo eu sei direito que pessoa eu sou.

- Ah, mas aí é filosofia. Aquela coisa do "quem sou, de onde vim..."

- Não, não é. Estou falando objetivamente. Você conhece um conjunto de simulações.

- Hm?

- Com você, eu sou uma soma de simulações. Eu simulo que não me importo com aquilo que me importo; simulo que gosto do que não gosto; simulo que aceito o que não aceito e até que não aceito o que aceito...

- Mas por quê?

- Para te agradar.

- Você me agradaria de qualquer jeito.

- Como sabe, sem conhecer os outros jeitos? Você diz isso na confortável posição de quem conhece apenas o lado que te agrada.

- Ah, pára... Não é nada disso. Eu também tento me adaptar...

- Não é adaptação. Adaptação é quando um acerta daqui, outro acerta de lá, chega-se a um meio termo ou algo do gênero. Isso não é adaptação, é simulação. E a simulação é tão complexa e bem feita que eu finjo ceder naquilo que simulo ser, para agradar ainda mais, já dentro do universo criado para agradá-la.

- Esse papo está estranho, hein?

- Pois é, você não me conhece.

- E se eu disser que comigo acontece a mesma coisa? Talvez todos sejamos assim.

- Seria confortável, eu me sentiria menos biruta. Mas aumentaria o temor de que tudo seja apenas um teatro.

- Cinema...

- Como?

- Cinema! Porque há flashbacks! E há trilha-sonora! É mais moderno e dinâmico. E eu gosto mais de cinema!

- Você fodeu com a minha teoria, reparou? Eu estava aqui explicando uma angústia da alma e você...

- Cala a boca!

- Você...

- Vai... Cala a boca!

Beijaram-se como sempre. O teatro prossegue. Ou melhor, o filme.

Terça-feira, Setembro 04, 2007

O CIGARRO E A BOCA

Se ele fumasse, essa seria a hora de acender um cigarro. Ou de apagar. Ele sempre viu certa poesia nesses dois momentos. Ele já fumou, não fuma mais. Agora, apenas imagina qual hora seria propícia para acender ou apagar um cigarro.

E pensar na vida.

Ou pelo menos olhar para as demais pessoas do mundo com semblante de quem pensa nas coisas mais importantes da vida - tudo isso enquanto se acende ou apaga um cigarro. Quem acende e apaga cigarros se transforma no protagonista de um clássico do cinema psicológico, e nessa trama todas as outras pessoas do mundo são figurantes.

Menos ela e, enquanto ela não vem, ele pensa no cigarro que não fuma mais. Compara uma coisa com outra: ela também é um vício; como todo vício, é ótimo quando estão juntos e é péssimo quando se separam.

Mas a metáfora do cigarro não se lhe aplica, porque ela é o inverso. Ele é o fumante metafórico que pretende ver seu cigarro simbólico viciado em si. Obviamente, a tendência é acontecer o contrário.

O amor, porém, não é óbvio; tanto menos esse. Há muito surrealismo na história dessa boca e do cigarro amado. Tanto que, nesse caso louco, o objeto do vício precisa da boca do viciado na mesma intensidade em que a boca exige o cigarro dentro de si.

Se ele fumasse, essa seria a hora de apagar ou de acender o mesmo cigarro cujo cheiro carrega consigo, orgulhoso, pelo resto do dia. E pelo resto dos dias.

Domingo, Agosto 26, 2007

NUNCA MAIS FELIZES

Ele é forma, ela é conteúdo. Ou alguma coisa assim. Claro que isso é um exagero, mas é interessante descrevê-los como se fossem opostos, mesmo diante do fato de que são quase idênticos; complementares.

Certa vez, por exemplo, inventaram de dançar ao som daquela música da Lili Brown, do Chico Buarque e do Edu Lôbo. Tinham ouvido "Beatriz" e a da bailarina. "O Casamento de Lili Brown" mereceu uma dança.

E dançaram. Eles sempre souberam dançar muito bem. E é uma dança que só eles entendem; uma dança que não muito sentido para mais ninguém.

No dia seguinte, deitada sobre ele, ela disse:

- Reparou uma coisa naquela música?

- Que coisa? - ele respondeu, fazendo cafuné enquanto ela se aninhava em seu peito.

- Aquele trecho: "nunca mais feliz". - ela cantarolou, um pouco rouca.

- Sim, sim... Lembro do trecho. Mas o que tem?

- A frase é ambígua! Pode significar tanto que a Lili nunca mais foi feliz, quanto que ela nunca foi tão feliz! Não é genial!

- É sim, é muito! Não tinha pensado nisso. Mas reparei numa outra coisa.

- É? No quê? - ela se mostrou realmente curiosa, mas também esperava algum tipo de troça ou ironia.

- Não ria! - ele percebeu que ela não o levaria a sério.

- Tudo bem, tudo bem... - ela deu um voto de confiança.

- É o seguinte. Ele fala "nunca mais", "nunca mais". E aí fala "nunca uma espelunca"...

- Ué. E daí? - ela não entendeu de primeira.

- Preste atenção: "nuncaumaesp.." - ele pronuncia as palavras bem lentamente, e então explica: - Essas sílabas, assim juntas, fazem o som de "nunca mais", como acontece em todos os outros versos.

Eles riram. E novamente dançaram aquela dança que só diz respeito a ambos.

Nunca mais felizes.

Quarta-feira, Agosto 15, 2007

CONTO ENVIADO PARA CONCURSO PROMOVIDO PELA REVISTA PIAUÍ

A Revista Piauí pede aos leitores que enviem um conto, nele inserindo a seguinte frase: "Os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile".

Mandei minha contribuição, que segue abaixo (dificilmente será publicada no site da revista):

COLOCAÇÃO PRONOMINAL
Todos foram embora, a sala de aula está vazia. Sobrou somente Thiago, aluno do último ano do ensino médio, que está em pé ao lado da mesa da professora, com as mãos para trás, olhando-a enquanto sua prova é corrigida.

Ele tenta parecer calmo, embora suas pernas trêmulas demonstrem exatamente o contrário. Dona Márcia, que leciona de "Técnicas de Redação", enfim quebra o silêncio:

- O que é isso, Thiago?

- O quê, professora?

- Isso, olha... - ela aponta para uma frase no meio da redação.

- Ah... A senhora pediu uma história de amor... Achei que não se incomodaria com isso aí...

- Com o quê, Thiago? Seu texto erótico? Não, não me incomodei. É um texto bonito, até. Mas a frase... Leia de novo, por favor...

- Já li. Ela é muito forte?

- Sim, é forte. Forte de tão errada, Thiago!

- Como assim?

- Olha aqui - ela então muda o tom, pronunciando cuidadosamente cada palavra - "Os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile"...

- "Pêlo" tem acento!

- Eu sei, Thiago.

- "Chenile" se escreve com "ch"!

- Eu também sei disso, Thiago.

- "Colcha" não é com "x".

- Thiago, você não percebeu mesmo o erro?

- Não, não percebi - ele já está nitidamente impaciente, por se ver ferido em seus brios de escritor neófito.

- A colocação pronominal, Thiago. Veja aqui todo o contexto... Olha só... Essa frase não pode estar correta de forma alguma...

- Ah! Mas como deveria escrevê-la?

- Assim, por exemplo: "Os pêlos de seu tornozelo grudaram na colcha de chenile".

- "De seu"... - ele repete, demonstrando ter aprendido.

- Sim, Thiago. "De seu". Porque você já falava aqui da personagem, entende? E se refere a ela...

- A personagem? Mas é homem! - ele interrompe, tentando achar um equívoco na análise da professora.

- Personagem é uma palavra originalmente do gênero feminino, Thiago. Você escreve bem, não custa nada ter um pouco de afinidade com nossa Língua. Deixa eu continuar...

- Tudo bem, me desculpa... - ele agora está verdadeiramente envergonhado.

- Você se refere à personagem, então deve usar o pronome "seu" em vez de "dele". O uso de "tornozelo dele", além do erro gramatical, faz com que a frase fique bem pouco eufônica.

Thiago se mostra aborrecido. Então, a professora o consola:

- Veja pelo lado bom. Em geral, depois de uma crítica dessas, o "escritor em potencial" reage com rebeldia, fazendo de conta que não é um ignorante da gramática, mas sim um rebelde da lingüística. Você, pelo menos, viu que errou e a partir de agora não cometerá mais esse tipo de lapso. Todos erramos, Thiago. O importante é saber lidar com o erro.

- Muito obrigado, professora!

- Ah! E não mostre esse texto para o Professor Ronaldo. Ele vai encontrar outra falha. E na mesma frase!

- Como assim? Ele dá aula de Biologia III!

- Sim, exatamente. E por isso mesmo ele sabe que não há pêlos no tornozelo. Há na parte superior do pé, há na canela, mas não no tornozelo. Assim como não há pêlos no cotovelo.

- Poxa...

- Pois é, Thiago. Um escritor precisa não somente conhecer a Gramática, mas também o mundo à sua volta. Ah, tudo bem! Deixa isso pra lá! Você está no Brasil! Por aqui, textos com esse tipo de frase podem até ganhar destaque em publicações intelectualizadas.

Thiago sorriu.

O editor da publicação intelectualizada sorriu. O redator que deu idéia dessa frase para o concurso, por sua vez, não sorriu e ainda por cima correu pegar uma Gramática; um pouco para contestar, um pouco para aprender.

ps - a revista pediu que se usasse no máximo 3000 caracteres, de modo que a versão acima é a "sem cortes". A outra ficou um pouco menor, cortei "aqui e ali", mas mantive os principais diálogos.

Terça-feira, Julho 31, 2007

A HISTÓRIA REAL

Ela vinha de botas. Saía daquela mesa e vinha em minha direção. Não por força do destino, mas porque eu estava em seu caminho. Ou foi o destino que me pôs em seu caminho? Não acredito em nada disso, e nem tenho tanto tempo assim para pensar nessas coisas.

Na verdade, tenho tempo de sobra, mas não gosto de pensar nesse tipo de coisa. Destino, caminho etc. Tudo bobagem. Ela vinha, bem lentamente, quase que parada, dando tempo para toda essa reflexão. Bobagem. Essa reflexão eu faço agora. Na hora, não pensei em nada. Foi tudo numa fração de segundo.

Ela saiu daquela mesa, e veio de botas até mim. Passou por mim e nos olhamos. Foi rápido, como costuma ser rápido esse tipo de olhar. Olhos nos olhos e pronto.

Todos têm uma história assim para contar. De quando encontraram alguém, no meio do nada, e esse alguém seguiu caminho. Todos têm uma história da hipótese que viria: Sexo? Casamento? Filhos? Nada?

Eu não tenho hipóteses. Eu fiz o difícil. Resolvi viver a história.

Contar hipóteses é fácil. A história real é impossível de ser dita ou contada. Mas é a mais verdadeira para ser vivida. O mundo é isso.

Quarta-feira, Maio 16, 2007

O PSICOPATA E O POLICIAL

PARTE I
1973 - São Paulo
Consultório Médico


Roberto e Jussara conversam com Dr. Petrillo, psiquiatra, a respeito de seu filho.

DR. PETRILLO
- Ele está bom. Está curado.

ROBERTO
- É mesmo, Doutor? Mas há cura para isso?

DR. PETRILLO
- Em verdade, não existe "cura" para nada, não é? Existe tratamento. E seu filho está tratado. Isso que importa.

JUSSARA
- Muito obrigada, doutor. Já não agüentávamos mais! Ele estava se tornando muito violento!

Fora do consultório, com ar sereno, o pequeno garoto espera os pais falarem com o médico.

* * *

PARTE II
2007 - São Paulo
Polícia Civili - Departamento de Homicídios

Paulo Roberto Cintra. Ele repete o próprio nome cada vez que o vê escrito no envelope. Já foram mais de 100 envelopes, todos endereçados a ele. Ninguém consegue rastrear, ninguém consegue pegar esse filho da puta.

Ele já matou mais de 100 pessoas, e em cada uma das vezes enviou uma carta relatando o que fez. Todas essas cartas vão para o policial Paulo Roberto Cintra. Paulo Roberto Cintra. Paulo Roberto Cintra.

São mais de 20 anos na polícia, e há dois anos e meio ele se tornou motivo de piada. Já foi muito admirado, um exemplo; hoje, é a grande piada do departamento. Só não é uma piada maior pelo fato de que ninguém - nem os federais - conseguem botar as mãos no psicopata.

Mais de 100. 105? 108? Nem ele sabe. Enquanto isso, apenas olha seu nome em mais um envelope: Paulo Roberto Cintra. E, em seguida, o aviso: "em mãos".


"Paulo, não sei até que ponto isso o aborrecerá, mas esta é minha última carta. Por detestar despedidas, serei o menos prolixo possível. Além de dizer adeus, digo a você que não sou essa pessoa ruim que você xinga por aí. Não sou facínora. Não sou psicopata. Não, Paulo, também não sou maluco. Acho que já fui maluco, mas conseguiram me tratar. Não lembro bem o que fizeram, mas sei que o médico se chamava Dr. Petrillo. Você não vai me pegar, mesmo. Saiba disso. Mas pelo menos conseguirá descobrir quem sou. Já é alguma coisa para suas aflições, não é mesmo?

Com carinho.
"

Outra maldita carta sem assinatura. Mas desta vez o filho da puta pelo menos deixou uma pista.

* * *

PARTE III
2007 - São Paulo
Consultório do Dr. Petrillo


Tudo é tomado por muita poeira. Pastas pelo chão. Paulo, o policial, está no meio daquela bagunça toda. Entrou sem autorização alguma, já que o tal médico está morto há anos. Seu consultório está abandonado. Há muitas pastas, muitas anotações, muitos cadernos.

Tempo passa.

Paulo não consegue nem saber por onde começar. Que raio de dica é essa? E se não for mesmo o Dr. Petrillo? E se foi tudo uma grande piada? E se o desgraçado estiver na porta, esperando a hora certa para dar um tiro? Ou então somente colocar fogo em todo o prédio.

Mas não. Nesses anos todos de polícia, Paulo aprendeu a respeitar seus instintos. A dica é quente. Há algo ali para ser visto. O maníaco faz um jogo e não estragaria tudo assim.

Mais tempo passa.

Paulo começa a procurar em ordem cronológica. Horas e horas depois, encontra uma pasta cujo conteúdo o atordoa. Além de um longo relatório, há duas fotos de um mesmo garoto. Numa, ele está visivelmente irado; na outra, está calmo e sereno.

Mas o que o deixa atônito não são as fotos, nem o diagnóstico de "dupla personalidade". Nem as observações sobre o alto grau de violência e também sobre a inteligência e a sofisticação do menino em suas maldades.

Tudo isso ele já sabia. Conhece o maníaco há anos. Mas somente agora descobriu seu nome, ao vê-lo escrito na etiqueta da pasta: Paulo Roberto Cintra.

Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

CARLOS QUE AMAVA DORA

Carlos amava Dora. Mas Dora não existia. Não no mundo real. Carlos ouvia vozes e via imagens. Mas não como todos nós, que também ouvimos vozes e vemos imagens. As de Carlos não eram reais. Ao menos, não para nós.

Carlos também criava pessoas.

Na verdade, criou apenas Dora. Criou essa mulher e por ela se apaixonou. Havia muito ciúme, muito mesmo - como sempre ocorre nas paixões, que são todas reais, mesmo quando platônicas ou oriundas de psicose.

Ninguém podia olhar para Dora. E Dora não podia olhar para ninguém. Carlos a queria somente para si. Suas crises, suas brigas e suas agressões estavam todas relacionadas ao ciúme que tinha da mulher que criara.

Durante anos, Carlos foi tratado. Levou muito tempo para que finalmente compreendesse que Dora era uma criação de sua mente.

Certa vez, quando já estava curado, sua psicanalista perguntou sobre Dora. Sobre como ele lidava com o fato de que ela não existia.

Carlos, então, abriu um sorriso emocionado. Disse que se sentia muito bem. Muito, muito, muito bem, pois finalmente tinha a certeza irrefutável de que Dora jamais seria de qualquer outro homem.

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

NOMENCLATURAS

Pênis é um pinto brocha. Pinto é um pau sem grandes atrativos. Pau é pau e pronto. Assim como buceta é buceta e pronto. E não "boceta", com "o", mas sim com "u". Porque o certo é assim, mesmo se não estiver "certo".

Sabem como é, não?

Além disso, não há vagina ou xoxota que sejam páreo para uma buceta. Vagina combina com pênis, pois ambos são assexuados e servem como "termos oficiais" em livros, revistas e afins.

Xoxota é uma buceta envergonhada, tímida, retraída. Xota é uma xoxota que quer ser buceta, mas ainda não é. O resto são apelidinhos dispensáveis. Ou é buceta (com "u", sempre), ou então é alguma outra coisa até bonitinha, mas que não agrada tanto.

Para sexo de boa qualidade, tem que ser pau e buceta.

Pinto e Xoxota, não. Pênis e Vagina, menos ainda. No primeiro caso, parece sexo cheio de frescuras, feito com luz apagada. No segundo, é relação sexual como consta dos livros de biologia.

O mesmo vale para o resto. Porra em vez de sêmen, gozada em vez de ejaculação e assim por diante.

Não existe sexo técnico, nem sexo com pudores. Se é para ser bom, realmente bom, é preciso ter coragem para falar as coisas como elas são.

Dizem que sexo é bom até quando é ruim. Faz sentido. Mas é bom não abusar.

Terça-feira, Junho 21, 2005

A MÁQUINA DO TEMPO E O BRASÃO DOS ALBERIGES

2089 - São Paulo/SP
Antonio Alberiges construiu uma máquina do tempo. Bom, é preciso dizer que ele não gosta desse termo, por isso seu invento é denominado "veículo temporal".

Grande parte da sociedade científica está prestes a verificar o potencial desse jovem brasileiro, que fez questão de realizar a primeira demonstração pública no Brasil. Não somente no Brasil, mas no casarão onde sua família se estabeleceu.

Sim, sim, ele é muito apegado a valores familiares.

Tanto que o "sólido" usado para comprovar o funcionamento da máquina será uma versão tridimensional do brasão da família Alberiges.

Eles não são uma família nobre, como sugere o fato de haver um brasão. Na verdade, quem concebeu esse símbolo foi um ancestral de Antonio, considerado por alguns meio maluco, mas admirado por outros justamente por ser diferente dos padrões.

O símbolo, gravado em cada face do cubo utilizado para comprovar o veículo temporal, é um quadrado com um triângulo interno. São, portanto, seis faces com o mesmo brasão.

Demorou muito para montarem as coisas aqui no Brasil, mas o laboratório norte-americano não se importou tanto, desde que funcionasse. E, sabiam bem, em testes privados funcionou.

Chegou a hora de mostrar aos outros.

Programa o objeto para ser remetido ao "futuro"; não séculos adiante, mas apenas dois minutos. Para todos os que ali estão, é como se o cubo se desintegrasse e reintegrasse, mas os medidores temporais indicarão que - no objeto - praticamente não passou tempo algum.

Acionada a máquina, logo o cubo desabarece. Um, dois minutos, ele volta. Mas os relógios, curiosamente, marcam um avanço de dez minutos, enquanto que, para todos os presentes, passaram dois minutos.

Obviamente, algo deu errado, mas em vez de vaias todos se intrigaram. E Antonio se debruçou para descobrir o que havia acontecido. Houve alguma falha, mas não houve fiasco algum. Restaria tentar saber o que houve com o objeto nesses dois minutos.


1927 - São Paulo/SP
Herculano Alberiges estava sentado em seu casarão, construído havia dois anos, resultado da riqueza da família. Nunca foram ricos, mas agora, com o café, conseguiram muito, muito dinheiro.

Ele estava sozinho, nos fundos, admirando as árvores de seu pomar, pensando em sua felicidade, mesmo que o chamassem aqui e ali de amalucado. Ele nunca deu muita bola para isso.

Foi então para a sala principal da casa, em direção à sua cadeira onde esperaria todos da família. Mas permaneceu estático diante do que viu.

Surgira, no ar, um objeto metálico quadrado. Não, não quadrado, um cubo. Um cubo com um desenho triangular em cada face. Algo diferente de qualquer coisa que já vira ou ouvira falar.

Pensou em chamar todos os amigos, todos da família, mas estava sozinho em casa. Mulher e filhos talvez ainda demorassem, viriam com os avós e os empregados.

Durou pouco a contemplação, pois o cubo desapareceu também repentinamente. Surgiu do nada, permaneceu parado, flutuando no ar, e desapareceu em poucos minutos.

Depois de muito pensar, soube que não haveria como explicar aquilo. Só daria mais motivos para o chamarem de louco. Assim, aquele espetáculo bizarro seria imortalizado de uma outra maneira.

E então, com aquela imagem na cabeça, desenhou um brasão para a família.

Terça-feira, Junho 14, 2005

O ESQUEMA DO FERIADO
Beto namorava Cláudia; namoravam havia uns cinco anos, desde quando tinham 13 anos. A partir dos 17, passaram a transar. A família dela sempre fora extremamente liberal, mas tudo nessa vida tem limite, e Beto nunca demonstrou vocação para ser cobaia num teste de tolerância para famílias liberais.

Por isso, sempre transavam em motéis situados nos limites da cidade, longe de tudo e de todos. Um motel diferente a cada sábado.

Nos últimos tempos, curiosamente, foi ele quem sugeriu que passassem a transar na casa dela. No início, ela resistiu, depois sucumbiu aos resultados daquele argumento louco: nunca ninguém desconfia das coisas mais óbvias.

Ele disse que, transando em motéis distantes, não teriam como se desculpar caso alguém os flagrasse; agora, se fossem pegos em seu quarto, bastaria poucos segundos para vestir as roupas e, no máximo, alegariam que davam uns amassos. Perfeito.

Certa vez, num feriado, os pais de Cláudia viajaram. Ela pediu para ficar, alegando que ficaria na casa de sua amiga Lavínia. Eles deixaram, pois ela também disse que Beto viajaria com os amigos para o litoral.

Na verdade, a casa vazia serviu de cenário para tórridas noites de Beto e Cláudia. Deveriam ser quatro, mas foram apenas duas. O pai dela voltou no terceiro dia.

O casal, que estava aos amassos na cama, se assustou com o barulho do carro. Cláudia sugeriu que Beto se escondesse debaixo de sua cama, saindo depois que seu pai abandonasse a casa. Ela, obviamente, apanharia algumas roupas, dizendo ao pai que fora para casa somente fazer isso.

Beto, escondido, ouviu a conversa de pai e filha. Como previsto, ele não se irritou nem um pouco. O plano tinha dado certo, certíssimo. O feriado estava apenas começando.

Saiu de lá e esperou por ele, que logo chegou ao quarto. Ambos tremiam de nervoso. Mas houve tempo para uma última ironia.

- Enfim, sós!

O feriado estava mesmo apenas começando.

Terça-feira, Junho 07, 2005

FESTA DE ARAQUE

Ele falou que era uma festa, mas quando ela chegou não era nada daquilo. Tocou a campainha e ele surgiu de roupão, com a velha conversa "perdi a hora, acabei de sair do banho". Arapuca.

Mas ela sabia, e no fundo queria isso.

Ele colocou um Agepê (ou Wando, Luiz Ayrão, Odair José) e saiu rodopiando pela sala. Voltou, trocado, de salto carrapeta e camisa aberta, ostentando mais medalhas no peito do que cinco generais juntos.

Mas aí o disco pulou, ele entrou em desespero e desceu do pedestal suburbanocafajéstico, caindo em prantos e dizendo "não dá, não consigo ser o que não sou".

Ela o abraçou e foram ao quarto. Lá, ela cantou dois discos inteiros da Família Chocolate e ele dormiu.

Para não perder a viagem - e isso ele nunca soube -, depois que ele dormiu, ela foi até a sala, limpou o disco e ouviu o resto das músicas. Agepê, Wando, Luiz Ayrão ou Odair José.

Terça-feira, Maio 31, 2005

FRUSTRAÇÃO

Demétrio já viveu noventa e sete anos. Os últimos três, é verdade, não foram exatamente vividos. Passou todo o tempo entre a cama e uma cadeira de rodas.

Mesmo velho, mesmo à beira da morte, mesmo consumido por tantas doenças que nem sabe quais ou quantas são, ele consegue raciocinar. Não fala sem que se babe todo, não escreve sem que a mão trema a ponto de derrubar a caneta, mas pensa com clareza.

Fala pouco, mas fala. Por isso, tem economizado as palavras, limitando-as ao que necessita; comer, beber, dormir. Sim, ele odeia reconhecer, mas também fala quando precisa ir ao banheiro.

Sabe que vai morrer, pode ser agora, ou daqui a um segundo, um minuto. Seguramente não dura um ano. Sente-se frustrado, os motivos são muitos, mas uma coisa se sobressai a todas.

Quando criança, abandonou a carreira musical para se dedicar às indústrias da família. Sabe que seria um músico de renome internacional, mas mesmo assim cedeu às pressões. Como industrial, embora tenha multiplicado sua fortuna, sabe que perdeu muitos negócios importantíssimos. Poderia ter sido o líder de seu setor.

A grande frustração, porém, foi jamais ter dito à esposa tudo que sente por ela. Ou melhor, tudo que não sente. Suportou anos e anos de humilhação, ouvindo-a dizer com todas as letras o quanto era infeliz.

Ah, ela infeliz! Ele casado com aquele traste de mulher, vinte anos mais nova, com quem se juntou por uma série de convenções, e ter de suportar o ridículo de ouvi-la se queixar.

Decidiu, finalmente, que chegou a hora de dizer aquelas verdades guardadas por tantos anos. Não morreria sem que ela soubesse o quanto ele a odeia.

Depois de um esforço absurdo, gritou por seu nome. Ela não veio. Gritou novamente. Ela não veio. Juntou todas suas poucas forças, soltando um último grito, e finalmente ela pareceu na porta de seu quarto.

Ele, da cadeira de rodas, ela parada na porta. Falou aquilo que guardara por anos, mas nada saiu. Apenas balbuciou algo incompreensível. Tentou, tentou, tentou. Nada.

Sua última palavra, antes de perder definitivamente a voz, foi o nome de sua esposa. O esforço fez com que perdesse não somente a voz, mas o movimento das mãos.

Estava ali sem poder falar, escrever, ou pelo menos coordenar alguma expressão facial.

Sua esposa, desde então, passou a dar mais atenção, confessando que se arrependera de todo o ódio acumulado, pedindo perdão pelas ofensas, dizendo que jamais poderia imaginar que a última palavra do marido - exatamente a última! - fora seu nome.

Demétrio viveu mais oito anos. Frustrado.

Segunda-feira, Maio 23, 2005

A VEZ DE CEZINHA

Cezinha era chato e teimoso. Chato, teimoso e feio. Mesmo assim, ou então ironicamente por conta disso, o destino lhe trazia mais oportunidades que a qualquer outro.

- Cezinha, vamos sair comigo e minha namorada? Ela vai levar uma amiga... - esse era o convite típico.

- Melhor não, melhor não. Deixa pra lá - essa era a resposta típica.

Quando insistiam muito, dizendo que a garota era linda, tal e coisa, ele fundamentava a recusa dando o mesmo exemplo:

- E a russinha? Loira, esportista... Quando vou ver, realmente era atleta, mas do arremesso de martelo! Parecia o Ivan Drago, aquele do Rocky Balboa. Aliás, parecia Drago e Rocky juntos!

A russinha foi um caso à parte. Bernardo, que namorava a Débora, convidou Cezinha para um encontro às escuras. Bernardo não conhecia a amiga de sua namorada, passando a Cezinha as mesmas informações que possuía. Deu no que deu.

Houve vários casos, alguns horríveis, outros pura chatice de Cezinha. Uma era fã do Agnaldo Rayol, outra gostava de falar "Putz, Cara" em todas as frases, e ainda houve uma outra que, quando gargalhava, mostrava a imensa gengiva superior.

Cezinha era feio, muito feio. Barrigudo, careca, usava óculos fundo de garrafa. Mas era acima de tudo muito chato. Em vez de fazer como os outros feios, ou seja, atacar qualquer maluca que topasse sair consigo, ele era seletivo como um galã de cinema.

Por isso que o Zé Armênio demorou muito para convencê-lo a conhecer a prima de sua namorada, Lucinha. Todos da turma estavam de certa forma enrolados, somente sobrando Cezinha. A prima da namorada veio passar uma semana.

Se fosse um namoro menos ortodoxo, Zé Armênio poderia sugerir algo mais emocionante à namorada; mas ela, moça toda correta, não era do tipo que toparia. Ele teria que arrumar alguém para a prima.

Cezinha relutou muito. Todos fizeram campanha para que aceitasse pelo menos conhecer a moça. O nome era Letícia, e Marquinhos acrescentou que nunca conhecera uma Letícia feia. Mas nada adiantava.

Até que Zé Armênio apareceu de carro, com a Lucinha a seu lado e a tal prima no banco de trás. Tinham acabado de chegar do aeroporto. A turma, da calçada, conversava com o trio, que logo foi para casa.

Tão-logo o carro partiu, todos perguntaram em uníssono:

- E aí, Cezinha?

Ele ameaçou fazer cara feia, mas logo abriu um sorriso. Tinha adorado a moça! A coisa mais rara de todos os tempos! Justo ele, encantado de verdade com uma garota!

- Claro que gostei! Pele toda bronzeada, olhos lindos, nariz perfeito. Não vi direito, mas já adorei!

Diante da cena impensável, todos ali também se empolgaram. Um tratou de ligar para Zé Armênio, contando da reação do amigo outrora carrancudo, outro dava dicas de vestuário, e todas as meninas suspiravam quando ele elogiava a moça.

Marcaram um fondue para a mesma noite. Só os quatro, na casa da Débora. O roteiro da noite era sabido por todos, até porque foi uma criação coletiva.

Os homens chegam, rola vinho e música, o fondue é servido, mais vinho e mais música e, dependendo do andar da carruagem, sugeririam um filme, cujo título foi escolhido por todos após mais de meia hora de deliberações coletivas.

Cezinha estava em sua casa recebendo as últimas orientações do mesmo comitê que montou o roteiro da noite, quando, na hora combinada, Zé Armênio o pegou, fazendo um sinal de "positivo" para a turma que ficou na calçada. Todos encaravam a empreitada como uma verdadeira missão.


* * *

No dia seguinte, sábado, a turma estava no restaurante da Dona Mariana, onde sempre comiam a famosa feijoada. Cezinha chegou com a cara muito fechada. Pelo visto, a coisa não teria sido boa na noite anterior.

- O que houve dessa vez? - perguntou alguém.

- Não deu certo. Ela era mesmo muito bonita, e também inteligente...

- Então, porra! O que deu de errado dessa vez? - perguntou uma das meninas.

- Ela não gostou de mim. Bem que tentei, mas... Ah, isso acontece, né? - conformava-se Cezinha.

As reações foram todas no mesmo sentido:

- Porra, que merda...

- Ah, cara, acontece...

- Fica assim não! Vai aparecer outra...

Ninguém tinha pensado no óbvio: Cezinha era feio e muito chato. Claro que não seria fácil conseguir alguma coisa com a prima da Lucinha, que afinal de contas era maravilhosa.

Desse dia em diante, ninguém mais o culpou quando recusava conhecer garotas, ou quando as conhecia, mas não topava levar adiante por algum motivo besta. Chegou-se à conclusão de que aquilo pudesse ser algum mecanismo de defesa, provavelmente acentuado com o fora catastrófico.

Ele anda meio sumido, mas pelo que se diz continua solteiro.


* * *

Letícia cumpriu a promessa de não comentar com ninguém o ocorrido naquela noite. Mas de fato achou estranha a exigência daquele sujeito. Pela primeira vez, ela tinha levado um fora, mas o cara implorou para que confirmasse falsa versão inversa.

Foi bom para ela, pois ninguém saberia que fora recusada por alguém feio e esquisito. Mas nunca conseguiu entender porque ele preferiu fazer papel de coitado diante de toda a turma.

Domingo, Maio 22, 2005

COMO VENDER PEÇAS DECORATIVAS A NOVOS-RICOS - PARTE I de II

Baltazar Arlindo era o gerente de uma loja de decoração que vende produtos caríssimos. A loja faz parte de uma rede de cinco, e fica numa rua muito badalada, no bairro mais caro da cidade, vendendo todo tipo de enfeite para a casa. Coisas úteis, como sofás; e outras não exatamente, como miniaturas da escultura de David, de Miquelângelo.

O dono, Seu Antonio, um italiano de oitenta e cinco anos, praticamente não aparece. Seu neto, Seu Francisco, é quem, de fato, toma conta de tudo, telefonando diariamente e visitando semanalmente o estabelecimento. Passa o dia no escritório central, verificando planilhas e coisas assim.

Baltazar, como gerente, manda em todos os empregados. Embora seja responsável pela maior e mais rentável loja do grupo, faz questão de lidar ele próprio com clientes mais antigos, ou aqueles mais, digamos assim, complexos, fazendo as vezes de vendedor.

O caso de Lourdes, por exemplo, foi bem complicado.

Já era quase hora de fechar a loja, nove e meia da noite, quando um Mercedes preto, novíssimo, estacionou bem em frente da porta. Desceram duas mulheres. Ambas espalhafatosas.

Baltazar, falando alto, com clareza e didática de palestrante, disse a todos: "vou ensinar a vocês como se atende uma cliente assim". Emendando: "Ela é aquela que entra, olha tudo, mas não leva nada. Um bom vendedor sabe reverter isso. Aprendam comigo!".

Todos ficaram em silêncio, atentos.


* * *

Ao entrar, as duas foram recebidas de forma muito simpática pelo homem que fez questão de lhes abrir a porta: "Sejam bem vindas, meu nome é Baltazar. Vocês são...?"

"Lourdes, ela é a Clarinha." - quem falou foi a que estava dirigindo. Obviamente, a líder da dupla.

Ele perguntou o que procuravam, e elas disseram qualquer coisa como: "algo bonito pra casa". O trio passeou pela loja, e Baltazar apontava e contava a história de vários produtos.

Lá pelas tantas, Clarinha, a amiga, mostrou-se encantada com um vaso chinês. Lourdes não se interessou. Estava criada a situação perfeita para a aula aos vendedores.

"De fato, sou obrigado a aconselhar, essa peça é muito cara. Perdoem-me pela observação, mas é uma peça procurada mais por banqueiros, grandes empresários, gente assim".

Os vendedores não acreditaram naquela estupidez. As duas mulheres se assustaram, e o susto, para Clarinha, tornou-se vergonha; mas o semblante de Lourdes era outro. Ela estava muito nervosa.


* * *

"Escuta aqui, você está dizendo que não tenho dinheiro para comprar esse vasinho? Acha que não tenho grana para comprar essa porcaria? Por que acha isso? Eu não pareço rica como a mulher de um banqueiro?" - disse Lourdes.

"Desculpa, por favor, eu não quis dizer isso. Apenas informei que é uma peça muito cara. Alguns clientes realmente gostam, mas acabam deixando de lado quando falo o preço, por isso fiz essa intervenção preliminar. Não quis ofendê-la".

"Pois me ofendeu!" - Lourdes estava mesmo nervosa, e disposta a devolver a humilhação ao vendedor "Quanto custa essa porcaria?"

"Vai ver que não falei por mal. O vaso custa dois mil" - disse Baltazar.

Clarinha estava nitidamente assustada, mas Lourdes manteve a mesma expressão furiosa: "Acha que eu não tenho essa grana? Não viu meu carro? Não viu minhas roupas? Dois pau pra mim é pouco!"

Baltazar arriscou ainda mais em seu jogo: "Mesmo assim, não são todos que investem tanto em apenas um vaso. Posso indicar uma peça talvez mais atraente, mas menos cara..."

"Olha aqui..." - Lourdes estava decidida a desmoralizar o vendedor - "...você não sabe mesmo com quem está falando! Pois vou levar. E não só esse! Quero os outros quatro. Todos aí dessa prateleira."

Baltazar manteve o teatro: "Como queira. Reitero minhas desculpas, não gosto de ver uma cliente levando algum produto por pura ofensa. São cinco peças não somente caras, mas principalmente raras. Muitos colecionadores passam anos admirando as vitrines, aguardando a hora de conseguir dinheiro suficiente para comprar apenas uma dessas peças. De todo modo, será mesmo assim um prazer vendê-las à senhora, Dona Lourdes".

Mas ela não falava mais com Baltazar; não diretamente. Seu discurso era para Clarinha: "Viu só, Clarinha? Agora ele se desculpa! Está passando vergonha. Eles acham que não sou rica porque não tenho cara de rica, mesmo com esse carrão aí! Fiz questão de parar na porta, mas ele foi muito bobo de não ver que sou rica.".

Enquanto falava, entregou o cartão ao moço do caixa. De forma deliberada, teatral, nem conferiu o valor da conta; tão-somente assinou o recibo do cartão e aguardou que tudo fosse embalado.

Despediu-se de todos os vendedores num excesso de simpatia. Menos com Baltazar, a quem apenas dirigiu palavras ameaçadoras, agressivas, sobre o que faria para que o dono da loja o despedisse.

Gastou uns quatro mil e duzentos reais. Baltazar explicou a todos a razão de seu atendimento agressivo. Falou sobre técnicas de vendas, psicologia e até sociologia. Os vendedores estavam embasbacados.

"Esse tipo de cliente não compra nada. Não compra nunca. E também não volta. Acha tudo caro, fica resmungando" - ele falava e imitava o jeito de olhar e de falar das mulheres como Lourdes - "Ai, tudo isso num copinho de nada? Quem vai querer esse homem pelado enfeitando a sala?"

Os alunos gargalhavam, só faltaram aplaudir. Ele então disse a todos "Uma comissão fácil, uma venda cara, tudo muito rápido... Ela agora vai contar para todas as amigas, com a Clarinha apoiando, o quanto me humilhou. Quem nunca ouviu uma história assim? Esse negócio de ameaçar mandar embora, ou falar que trabalha na imprensa, coisas do gênero, isso é tudo teatrinho. Uma pessoa que cai na conversa mole de imaginar que somente um banqueiro pode gastar dois mangos numa obra, convenhamos, não merece crédito algum. Não entende de arte e nem de dinheiro. Só sabe gastar.".

Todos foram embora após mais uma aula de Baltazar.



COMO VENDER PEÇAS DECORATIVAS A NOVOS-RICOS - PARTE II de II

Seu Francisco apareceu na loja. Era uma quarta-feira, e isso causou espanto, pois sempre vem às sextas; inclusive, não raro, acaba faltando em alguma semana. E vem sempre à noite. Dessa vez surgiu no meio da tarde. Entrou, fez um cumprimento geral a todos, olhou para Baltazar e foi ao escritório que fica nos fundos da loja.

Lá chegando, Baltazar já encontrou Francisco sentado com cara de pouquíssimos amigos. Era conversa séria. Pelo visto, muito séria.

"Baltazar, vocês fizeram uma venda a uma tal de Lourdes, há uns vinte dias?"

Foi uma venda cara, tudo deu certo, não fazia muito sentido aquela cara fechada. Por que estaria preocupado? Talvez ela tivesse mandado uma carta reclamando, ou então fosse amiga da família. Ele preferiu sondar o chefe.

"Sim, Seu Francisco, eu mesmo a atendi. Houve alguma reclamação?" - Baltazar já tinha pronto seu discurso, amenizando todos os exageros que a moça poderia fazer em alguma reclamação. Depois, de forma muito cautelosa, falaria a respeito do sucesso da venda. Isso tudo acalmaria Seu Francisco.

"Pois bem, Baltazar, foi uma venda de quatro mil, deixa eu ver, quatro mil e duzentos e trinta e sete reais. Uma venda ótima, mas que nos deu um tremendo prejuízo."

Pelo visto, não seria inteligente se fingir de bobo. Claro que a insatisfação de uma cliente é prejudicial à loja. Assim, o melhor a ser feito seria deixar claro que ela não apareceria mais por lá de um jeito ou de outro.

"Olha, Seu Francisco, essas clientes são assim mesmo. Elas reclamam de qualquer atendimento. Ela saiu daqui nervosa, batendo os pés, mas mesmo assim gastou uma nota. Ela não voltaria mais de jeito nenhum, pelo menos consegui algum lucro para nós. E as amigas? Bom, a propaganda de nossa loja ela faz para mulheres que não têm condições de passar aqui na porta. É nova-rica, Seu Francisco! Entrou aqui xingando todo mundo! Não fica bem bem nossos clientes darem de cara com esse tipo de pessoa por aqui. Espanta todo mundo! É uma madame daqueles bairros da periferia."

"Baltazar..." - Francisco interrompia a tese sociológica. - "...não sei de onde você tirou tudo isso, mas o prejuízo é outro. A senhora Lourdes Aguiar da Silva nunca pôs os pés nesta loja. Ela apenas era a dona do cartão, que foi roubado naquela noite. A operadora ligou para o escritório central e avisou que não vai nos pagar um centavo. Ia mandar o vendedor embora, porque deveria ter checado o documento. Mas como foi você, tudo bem, não vou despedir. Mas vai pagar do seu salário. Vamos parcelar isso, e fica tudo certo. Tenha mais cuidado, Baltazar, espero que não se repita".

Francisco rapidamente foi embora da loja, pois não tinha o menor prazer em lidar com gente da loja, muito menos quando se trata de prejuízo em razão de algum descuido.

Claro que Baltazar não explicou aos alunos essa parte da aula.
O OUTRO BICHO

Glorinha às vezes sente culpa por estar com ele, pensando no outro que se foi. Projeta as virtudes, procura semelhanças e, exatamente pelas tantas afinidades, ela o tem consigo.

Diziam que isso lhe faria bem, que era essa mesmo sua função, dar guarida, acompanhar, dar carinho, aplacar a carência. Não que discorde, mas ela não se sente totalmente confortável com isso.

Com prazer, compra a comidinha, as roupinhas, paga o banho, os cuidados especiais. Escolheu a raça que mais juntava os atributos do amor que se foi.

Chega a ser engraçado encontrar semelhanças entre homem e cachorro, mas sua carência é tanta que o usa, descaradamente, para superar a dor da perda.

Ela o vê em casa. Faz um carinho e ele, a seu modo, retribui. Ela sorri, tenta supor que ele também. Mas, em verdade, ele está deitado, olhando ao vazio. Talvez dormindo, ele sempre dorme.

Não importa.

Glorinha, mesmo culpada, sabe que lhe fez muito bem ter trazido para casa esse cara, porque não agüentava mais sofrer pela perda de seu amado cãozinho.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE I de VIII

Perivaldo estava sentado, esperando havia sete horas no Distrito Policial, esperando pelo Delegado Isaías Gnocchi, com quem falara por quase a noite toda. Confessou ter matado mais de quarenta pessoas. Descreveu com riquíssimos detalhes cada homicídio. Não havia um padrão, jamais deixara pistas. Era um assassino que matava por matar, não por disputa de intelectos entre si e seu perseguidor.

Também não matava por prazer.



O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE II de VIII

Isaías Gnocchi sentou-se com o Investigador Capiberibe. Não sabiam bem o que fazer com aquele maluco da sala ao lado, que confessou ter matado muita gente. Todas as alegadas vítimas estavam, de fato, mortas; todas em razão de homicídio.

Mas nada daquilo fazia sentido.

Um fora degolado, outro levou três tiros, houve ainda ataques a faca, espancamentos; não havia padrão algum. Homens e mulheres, idades variáveis, nada que fosse o padrão de um assassino em série..

Em três casos, houve processo judicial com condenação. Aquilo seria um grande problema. Mas não sabiam exatamente o que fazer com o tal Perivaldo. Sua figura barbuda e cabeluda, mais parecia a de um mendigo.

Seguramente, não teria matado ninguém. Nem uma mosca, como acrescentou Capiberibe. Nem uma mosca.



O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE III de VIII

Como não quisesse voltar para casa, inclusive alegando não ter uma, acharam por bem encaminhá-lo a um manicômio. Haveria uma longa burocracia até colocá-lo no Manicômio Judiciário Estadual, mas o Delegado Isaías, com mais de dez anos de carreira, tinha lá seus meios de evitar a burocracia.

Perivaldo, para o bem de si mesmo, seria tratado por profisisonais. Mas, não por isso, deixariam de pesquisar sua história. Isaías encarregou Capiberibe de levantar todos os arquivos de todos os crimes. Enquanto isso, o pobre coitado seria mantido no Manicômio Judiciário. Foram medidas heterodoxas, mas não haveria como indiciar aquela criatura.

* * *

Lá no Manicômio, após longa análise, todos concluíram que se tratava de um caso atípico; mas "casos típicos" não eram para lá encaminhados. Estavam, pois, acostumados com coisas diferentes.

Em menos de duas semanas, com a concordância do Delegado, encaminharam Perivaldo para uma Fazenda de Tratamento, onde não havia internos considerados violentos, e as terapias seriam menos impactantes. Um lugar mais digno, enfim, para um homem inocente.



O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE IV de VIII

Capiberibe, sempre competente, trouxe um calhamaço de pastas até a sala do Delegado Gnocchi. Como sempre, o Delegado recusou a papelada, preferindo um resumo. E um resumo verbal.

Foi-lhe explicado que, de fato, não havia qualquer possibilidade de Perivaldo ser o autor daqueles crimes. As aparências não enganaram: era mesmo um mendigo. Perivaldo Santos vivia como indigente havia anos.

Não havia registro de período anterior, mas nem precisava. Já era mendigo na época dos crimes, e na mesma época já havia passado por todo tipo de albergue e lar para indigentes. Inclusive, e estava aí o seu "álibi", teria passado a noite em vários deles ao mesmo tempo em que os crimes eram praticados.

Era inocente. E maluco.

O Delegado informou tudo isso ao pessoal do manicômio, e todos eles concordaram que o melhor seria um tratamento. Disseram que Perivaldo era pacífico, atencioso, amigável, mas de fato não batia bem das bolas. Gargalharam, empregando o típico escárnio dos lúcidos, e esqueceram o assunto.

Isso foi há vinte e cinco anos.

* * *

No mês passado, em casa e aposentado, Isaías Gnocchi recebeu uma ligação do ex-colega, também aposentado, Capiberibe. Não soube como reagir ao que lhe foi dito.



O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE IV de VIII

Isaías, o temível Delegado, tremia e não tinha forças para desligar o telefone, mesmo que seu interlocutor já tivesse havia muito desligado. Não se perdoava por ter sido tão relapso em um caso antigo, ainda que, oficialmente, não houvesse como culpá-lo.

Com ótima memória, sempre foi bom em fisionomias; seria capaz de se lembrar de qualquer um com quem conversara. Lembrou-se imediatamente daquele homem magro, alto, branco, barbudo e cabeludo, com roupas velhas e cheirando mal. Lembrou-se do mendigo louco, que confessara crimes jamais que não havia praticado.

Capiberibe, que também era um perito em descrições e fisionomias, também dotado de memória prodigiosa, dava uma péssima notícia. Em uma conversa besta, descobriu que o tal mendigo, Perivaldo, era mesmo um homem maluco. Mas negro.

De início, pensou ser alguma coincidência. Claro que não se tratava do nome mais comum do mundo, mas deveria haver mais de um indigente chamado Perivaldo. Buscou sua velha agenda e consultou o nome completo. Perivaldo Santos.

O sobrenome não ajudava muito, mas já seria alguma coisa. Dois indigentes com o mesmo nome, incomum, e o mesmo sobrenome, já seria demais. Precisaria visitar os albergues. Fez tudo isso antes de ligar para o velho Delegado.

Praticamente, todos os albergues e lares tinham jogado fora seus registros antigos. Alguns, claro, nem bem tinham registros. Apenas um tal "Abrigo da Paz Divina" possuía pastas organizadíssimas. E com fotos.

Estava lá o homem negro, o indigente de nome Perivaldo Santos. Já sabia que isso poderia acontecer, e somente essa ocorrência não provava coisa alguma. Até que viu, em outra pasta, o homem branco e barbudo, aquele da Delegacia, Perivaldo Santos.

Mas não havia ali motivo de alívio. Em uma terceira pasta, de dois anos anteriores, viu uma outra foto daquele homem barbudo. Estava sem barba, mas era ele. Mendigos podem se parecer para os olhos dos abastados; mas, para Capiberibe, não. Era o tal Perivaldo Santos, porém com outro nome. Gumercindo Amparo.



O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE V de VIII

Gnocchi já estava velho, e já tinha se livrado de boa parte de sua papelada da época da ativa. Foi fácil, não por ser desapegado de tudo, mas porque não possuía muitos papéis. O mais importante, a agenda, ainda mantinha em algum lugar no quartinho dos fundos de seu sobrado.

Uma outra pessoa esperaria dia amanhecer para procurar a agenda, pois já passava da meia noite. Mas não se tratava ali de uma pessoa normal. Ele foi.

Após algumas horas, encontrou a agenda empoeirada. Estava lá o número do manicômio. Ligou imediatamente, mas uma gravação avisou que o número não existia. Depois de tantos anos, seria mesmo difícil o número não ter mudado.

Riu da própria imbecilidade, e então ligou para o serviço de informações. Três números e pouca conversa depois, uma outra gravação lhe passava os dados corretos.

Todos os seus conhecidos já não trabalhavam mais por lá. Havia um segurança e dois enfermeiros de plantão. Mesmo após se identificar como Delegado Isaías Gnocchi, não conseguiu fazer com que alguém daquele trio lhe informasse sobre a Fazenda de Tratamento ou sobre o paciente Perivaldo Santos.

Tentou dormir, mas passou a noite acordado. Informaram-lhe que às nove chegariam os outros funcionários.

Na hora informada, ligou novamente para o Manicômio. Conseguiu falar com um dos Diretores, Doutor Olegário, de quem buscou respostas sobre o paciente misterioso. Quando mencionou a "Fazenda de Tratamento", foi abruptamente interrompido.

Não soube da tragédia? Essa foi a pergunta com que o Olegário o interrompera. A explicação seria tétrica.



O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE VI de VIII

Com inacreditável frieza, diante dos absurdos e da crueldade dos atos narrados, o psiquiatra relatou o que houve na Fazenda de Tratamento. Sobre Perivaldo, pouco disse. Informou ser mais uma das vítimas.

Houve um massacre. Isso foi há uns dez anos, mas nunca divulgaram porque não queriam publicidade negativa, e ninguém dava bola para a Fazenda de Tratamento, mesmo.

Mais de trinta internos foram mortos num incêndio provocado em um dormitório. O incêndio não somente foi criminoso, como também as portas foram bloqueadas.

Quando finalmente conseguiram arrombar as portas, os corpos estavam carbonizados. Mas não havia muito a ser feito. Todos já estavam mortos provavelmente antes do fogo começar. Houve envenenamento. O culpado foi o interno Atanagildo Gafieira, que deixou uma carta explicando seus motivos.

Ao ser perguntado sobre como teriam tanta certeza da autoria, Olegário explicou que, junto aos corpos foram encontradas as pulseiras metálicas de identificação. Todos estavam ali, menos Atanagildo. Justamente o autor da carta. Carta, aliás, escrita com sua caligrafia.

Pulseiras metálicas! Pulseiras metálicas! Como poderiam identificar corpos simplesmente contando pulseiras metálicas! E a caligrafia? Os loucos poderiam ser facilmente induzidos a escrever uma carta, qualquer que fosse o conteúdo! Isaías Gnocchi não acreditava no amadorismo do pessoal do Manicômio.

Ainda que aposentado, tinha nas veias o sangue de um velho delegado. Tão logo desligara a ligação, marcou encontro com Capiberibe na "Esquina da Coxinha", o velho boteco freqüentado pelos velhos policiais.

Era uma tarde animada para todos, menos para aqueles dois. Concluíram que Gumercindo, ou Perivaldo, ou Olegário, quem quer que fosse aquele maluco, não poderia ser somente um doido. Era mais que isso.

Capiberibe então perguntou ao velho Delegado qual o principal elemento que faltava ao matador. Gnocchi pensou, dizendo rapidamente que faltava um padrão. Sim, Capiberibe concordou, mas por que o padrão estaria restrito às vítimas? Ele poderia manter um padrão que estaria vinculado a si próprio, e além disso...

O Delegado não esperou que seu velho companheiro concluísse. Ele próprio gritou, atraindo todas as atenções para sua mesa. Faltava o desafio! Ele nos desafiou! Era esse o desafio!

Os velhos policiais olharam todos para Gnocchi. E ele então fez uma pergunta que transformou a quase-gargalhada coletiva em um silêncio vergonhoso. Todos se sentiriam culpados.



O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE VII de VIII

Silêncio. Na "Esquina da Coxinha" a gritaria era um padrão. Naquele instante, porém, havia o contrário. O Delegado Gnocchi perguntou se não tinham, todos ali presentes, passado pela experiência de algum maluco confessar vários crimes, mas de terem-no liberado pelo fato de que tinha muitos álibis, e se tratar presumivelmente de alguém com pouco juízo.

Perguntou quantas vezes haviam checado com precisão sua identidade, e não somente o vínculo de tal identidade com os crimes. Perguntou se todos não haviam gargalhado desse louco.

Um falou que era normal, que todo mês alguém confessava algum crime, principalmente crimes que apareciam na televisão. Gnocchi concordou, mas disse que queria saber sobre outro maluco, aquele que confessa com detalhes vários homicídios que receberam pouco ou nenhum destaque pela imprensa. Detalhes que apenas profissionais conhecem.

Alguns disseram que não, mas a maioria concordou. Ele então descreveu fisicamente o tal "maluco". Alto, magro, branco... Para seu espanto, porém, não se tratava sempre de um mendigo. Um gritou "passou um médico assim pela delegacia faz anos", outro disse que era um advogado. Professor, mecânico, jogador de vôlei. E mendigo.

Sempre a mesma coisa: confessava os homicídios, mas a identidade era limpa, não tinha ficha. Em alguns casos, pediam os documentos e checavam; noutros, nem mesmo isso, apenas mandavam-no embora.

O desafio era aquele. Policiais driblados, todos incapazes de encontrá-lo. Para piorar, seu último crime provavelmente seria aquele do Manicômio. Ou não. Seria impossível saber.

Não se falou mais nesse assunto. Todos sentiam culpa, mas também sentiam culpa por uma porção de outras coisas. Poderia ser uma grande coincidência, e ninguém estaria disposto a revirar todos os arquivos da cidade atrás de crimes sem culpados.

Nem Isaías ou Capiberibe fariam aquilo. Caso encerrado.



O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE VIII e FINAL

Como em todas as terças-feiras, Gnocchi e Capiberibe jogavam sinuca na região de Pinheiros, no Salão Nobreza Paulistana, cuja freqüência era exatamente o inverso do sugerido pelo nome.

Como em todas as terças-feiras, Capiberibe batia nas costas de seu antigo chefe, sugerindo que na semana seguinte teria mais sorte.

Na saída desta última terça-feira, eles se depararam com um automóvel parado na outra guia. O vidro da janela do motorista estava aberto, e este sorria. O riso de quem venceu o desafio.

Saiu rapidamente; o veículo estava sem a placa traseira. Os dois jamais se esqueciam de uma fisionomia, mesmo depois de anos, mesmo sem a barba e o cabelo comprido.
O FACÍNORA DA CAPITAL - PRÓLOGO

Eles estão se encarando há quase cinco minutos. São conhecidos da Faculdade, mas não chegaram a estudar na mesma sala. Um deles está quase sorrindo, aparentando felicidade, decisão. O outro está apavorado e confuso.



O FACÍNORA DA CAPITAL - PARTE I de VI

Ele havia cometido doze assassinatos; ou "homicídios", como dizem os mais técnicos. Enfim, havia matado uma dúzia de pessoas.

Sempre deixou pistas, inscrições, recortes, até mesmo cartas inteiras expondo seus motivos, colocando nelas algumas charadas. Nada disso foi visto, tudo foi ignorado.

Com exceção do que deixara junto ao corpo da décima segunda vítima, é claro.

Na primeira vez, quando disse que havia um corpo em um prédio velho do centro da cidade, a polícia desconfiou da "dica", mandando para lá o Esquadrão anti-bombas.

Como resultado, todas as mensagens e charadas foram destruídas. O homicídio foi considerado "crime passional", e o inquérito deve estar arquivado em algum Distrito Policial.



O FACÍNORA DA CAPITAL - PARTE II de VI

Quando houve a quinta morte, resolveu deixar de lado a sutileza das cartas e das inscrições, preferindo as ligações telefônicas. Falou durante quase vinte minutos com Benito Ribeiro Rinaldi, o Beribéri, editor e jornalista do "Notícias Sangrentas", que cobria o caso.

Beribéri repassou o conteúdo da ligação a Camanducaia, o investigador. Ambos, a partir de então, estabeleceram uma parceria. De fato, eram os únicos que acreditavam na história de um maníaco, ou "O Facínora da Capital", como fora denominado o homicida.

Mas o tiro saiu pela culatra. Em vez de finalmente fazer com que fossem identificadas suas charadas, notou que eles passavam muito do limite.

Ao "analisar" a cena do crime, jornalista e policial acrescentavam elementos que não haviam sido pensados. Com a ajuda dos demônios da má-exegese, por exemplo, Beribéri conseguiu "identificar" uma referência a determinada passagem do Evangelho de Lucas. Obviamente, nunca houve essa mensagem.

Camanducaia, certa vez, deu entrevista dizendo que havia uma relação entre os números dos apartamentos nos quais eram deixadas as vítimas e estaria quase identificando um código nessa numerologia. Mas não havia relação alguma entre tais números.

Ele telefonou todas as vezes, tanto para o jornalista quanto para o policial, explicando que aquilo não era verdade, que era pista fria. Mas eles, orgulhosos da dedução, consideraram que cada negação seria prova de que haviam acertado.



O FACÍNORA DA CAPITAL - PARTE III de VI

Resolveu deixar uma carta em cima do peito da décima segunda vítima. Na carta, explicou todas as etapas de sua carreira como maníaco, desmentiu as pistas frias e reafirmou algumas outras quentes.

A carta foi publicada na íntegra pelo jornal "Notícias Sangrentas". Estavam ali todas as letras. Isso lhe deu um grande alívio. Talvez dessa forma não houvesse mais confusão.

Ainda assim, Beribéri e Camanducaia insistiam em suas versões, dizendo que a carta poderia ser uma forma de despistar, muito embora contivesse algumas explicações aparentemente plausíveis.

Foi necessário matar doze homens para que o reconhecessem como maníaco, para que pudessem compreender alguns de seus motivos e para que seguissem pistas mais concretas.

Seria preciso pensar muito e elaborar muito melhor a próxima vítima. Todas as anteriores, como ele, eram homens de meia-idade. Todas com sua mesma formação acadêmica e sem atuar na área. Todas de seu mesmo tipo físico. Essas eram as dicas. Até o "NS" já havia publicado que esse era o típico alvo.



O FACÍNORA DA CAPITAL - PARTE IV de VI

Demorou muito para localizar quem seria o próximo; de todo modo, encontrou a pessoa perfeita. Preenchia todos os "requisitos", além de outros fatores que facilitariam seu trabalho. Depois de observá-la por três semanas, concluiu que seria ideal.

Morava em um bairro afastado do centro, numa casa que fica entre duas lojas. A rua, praticamente toda comercial, tinha somente duas residências, a de sua vítima, no meio do quarteirão, e a de uma senhora de mais de setenta anos, na esquina; havia uns setenta metros de distância entre as casas. Ambos, a velha e o "colega", moravam sozinhos.

Sabia que o melhor a fazer, e o que de fato fez, seria tocar a campainha e entrar de forma amigável. Traria, em sua pasta, a pistola e uma nova carta direcionada ao jornal e à polícia. Mais charadas, mais dicas.

Como previra, conseguiu entrar facilmente. Não foi preciso muita conversa, nem rememorar os velhos tempos em que os dois estudaram na mesma Faculdade.

Reparou que a casa não era exatamente amigável. Na sala, havia apenas duas cadeiras de madeira e um colchão, sem mais móveis, teleisão, nem nada assim. Mas não seria por problemas financeiros, pois sabia que o dono da residência tinha um ótimo emprego.

Surpreendeu-se quando o anfitrião o convidou para conhecer os quartos, pois todos estavam vazios. Mas a grande surpresa se deu porque, enquanto os quartos eram mostrados, era informado de quem dormia em cada um. A mulher, a filha, o filho.

Mas ele morava sozinho.



O FACÍNORA DA CAPITAL - PARTE V de VI

Eles estão parados no quarto vazio, com apenas um armário embutido, que seria onde dormia a filha inexistente. Estão se encarando há quase cinco minutos. A vítima, sorridente, e o facínora não conseguindo esconder seu receio. Ainda mais quando se lembra de que deixara a pistola em sua pasta, na sala.

O dono da casa quebra o silêncio, puxando o visitante para olhar o armário. Foi lhe mostrar as calcinhas da filha. O anfitrião pronuncia as palavras "calcinhas da filha" soltando uma espécie de gargalhada contida, uma gargalhada misturada com grunhidos de raiva.

De uma gaveta, retira algo que parece brilhante. O então maníaco, agora vítima, tenta se esquivar, mas não dá tempo. É atingido pelo golpe de uma faca, que atravessa seu peito.

Conseguiu pensar em como foi imbecil. Deveria ter esperado um pouco. Obviamente, sua vítima sabia que fazia parte de um grupo preferencial. Já estaria preparada para ser atacada pelo "maníaco". Agora, com certeza, seria desmascarado pelos jornais.

O grande "Facínora da Capital" finalmente morto, e por um pobre coitado que se defendeu com uma faca. Talvez a esposa, a filha e os filhos fossem verídicos. Aquele ritual de visitação foi uma perfeita arapuca.

Tudo se apagou para sempre quando a faca atravessou seu crânio.



O FACÍNORA DA CAPITAL - PARTE VI - EPÍLOGO

O "Notícias Sangrentas" traz mais uma reportagem sobre um maníaco. Mas não se trata do famigerado "Facínora da Capital". As pistas deixadas são outras.

Foi encontrado um corpo parcialmente carbonizado, num terreno baldio na periferia da cidade. Junto ao corpo, vários trapos de cor vermelha formando um círculo. Em seu crânio, uma faca cravada.

Esses são os claros indícios de um homicida que esteve desaparecido por mais de cinco anos. E, como naquela época, a polícia não consegue pista alguma do "Maníaco do Círculo".

O jornal, porém, não conseguiu descobrir a identidade da vítima. Não havia documento algum, nem qualquer registro de desaparecimento. Morreu anônimo.
O NOME ERRADO - PARTE I de III

João e Roberto se conhecem há mais de dez anos. Trabalham juntos em uma grande construtora. Já foi um pequeno escritório de engenharia, onde eram dois estagiários, mas hoje é uma das maiores empresas do ramo, responsável por contratos caríssimos governamentais.

Agora, após tantos anos e tantos êxitos financeiros, são dois diretores respeitadíssimos, da extrema confiança do dono da empresa; a analogia anatômica não permite, mas seria apropriado dizer que são dois braços direitos.

Estão, ambos, terminando de jantar no restaurante italiano situado do outro lado da rua, quase em frente do prédio da construtora. São dez e meia da noite.

Um homem de terno, muito bem vestido, dirige-se ao maïtre e este aponta para a mesa dos dois. Eles não vêem. O homem então segue ao encontro deles.

- Qual de vocês é Roberto Getúlio? - indaga o homem, tentando mostrar simpatia, mas sem conseguir esconder o desespero.

João fica quieto, trêmulo, provavelmente aguardando uma manifestação de Roberto. Este, por sua vez, fica aborrecido com a hipótese de ser algum cliente pedindo algum relatório de última hora. Provavelmente, deve ter encontrado a construtora vazia e soube que os diretores freqüentam o restaurante.

- Ele é o Roberto - diz o próprio Roberto, apontando para João. Uma brincadeira para jogar serviço sobre o colo do amigo.

- Muito obrigado - diz o homem, rapidamente apanhando um revólver e disparando cinco tiros no peito de João. Faz isso e sai correndo até a porta; entra num carro e rapidamente some pelas ruas.



O NOME ERRADO - PARTE II de III

O restaurante está quase vazio, praticamente só estão alguns poucos homens velhos, todos engravatados, e o Sr. Almeida, maïtre há 30 anos. Roberto explica a história para ele, logo correndo até a porta.

Ele vai até o prédio da construtora, suando em bicas, nervoso, desesperado. Desiste de pegar seu carro. Está com medo de que possa haver alguma bomba, alguma coisa assim.

O arrependimento de ter sido responsável pela morte do amigo o corrói muito mais do que o medo de estar jurado de morte. Mas, afinal de contas, há alguém aí querendo matá-lo.

Roberto precisa fugir.

Apanha um táxi, pedindo para deixá-lo na rodoviária. Entrega ao motorista quatro notas de cinqüenta reais, para uma corrida que raramente ultrapassa os quarenta. Pede, tão-somente, que ele acelere como nunca. Pensou em mudar a rota, mas tem medo de ir ao aeroporto.

O veículo dispara pelas ruas e, em cerca de vinte minutos, chegam à rodoviária. Roberto desce do carro sem saber ao certo para qual cidade pretende fugir.

Sabe também que, caso desapareça, será talvez considerado suspeito pela morte do amigo. Quem testemunhará a seu favor? E quem garantirá sua segurança quando o tal assassino vier atrás da vítima "certa"?

Desiste. Caminha rapidamente no sentido contrário ao da rodoviária. Atravessa a avenida, parando no pequeno calçamento que divide os dois sentidos. Os carros vêm e vão nas duas mãos da avenida. Isso deixa Roberto ainda mais desorientado e desesperado.

Um homem caminha em sua direção. Ele está no mesmo calçamento, entre as duas pistas, a uns trinta metros, e parece apertar o passo. Roberto começa a andar também rapidamente, fugindo do tal homem, tropeçando em algumas plantas.

Quando se aproxima do semáforo, que está vermelho para os veículos, atravessa a avenida. Conseguirá, caso corra, chegar a tempo ao ponto de táxi.

Mas Roberto é atropelado. O motorista não pára.



O NOME ERRADO - PARTE III de III

Ele é conhecido como Navalha. Tem quarenta e dois anos, vinte e cinco deles trabalhando para Diogo Napolitano. Navalha é o homem de confiança de um dos mais perigosos chefões de uma máfia de sindicatos.

Quando ele chega, encontra o chefe jogando videogame e fumando charuto. É um jogo de futebol.

- E então? - pergunta o chefe, sem desgrudar os olhos da tela - Deu tudo certo?

- Sim, Seu Diogo. Tudo certo. Ele está morto.

- Algum problema? Algo extraordinário?

- Sim, algumas pessoas viram meu rosto. Vou sair de circulação durante um tempo. E também atropelei um filho-da-puta que atravessou correndo, ele não tinha razão, estava verde para mim e...

- Dane-se, a placa é fria mesmo. - diz o chefe, concluindo - Muito bem, muito bem. Vou ligar para o Joãozinho. Finalmente, ele vai ter condição de fechar conosco aquele contrato. O coleguinha caxias, da construtora, não será mais um obstáculo
EULÁLIO CATAMIRO

Desligou o telefone. Era mais uma daquelas ligações pedindo para usar o nome de seu marido, falecido, em algum tipo de obra pública, lançamento artístico, algo assim.

Ela se lembra de todas.

- Queríamos usar o nome do Eulálio para batizar uma ponte, você se opõe? - indagou um Prefeito.

- Mas é claro que me oponho! - ela respondeu - Já imaginou quanta gente vai se matar pulando daquela ponte? E os acidentes de carro? Não, não... Nada de nome de ponte, o senhor me desculpe.

- Sim, tudo bem, a intenção era boa...

Sempre havia alguma justificativa que deixava o interlocutor praticamente sem resposta. Ou, quando tentava argumentar, recebia a apelação final.

- A obra do novo aeroporto está quase concluída. Aproveitaremos para renomeá-lo, vai se chamar "Aeroporto Internacional Eulálio Catamiro". Queremos muito sua presença na inauguração - determinou o Governador

- Desculpa, senhor Governador. Sou sua eleitora, mas nem por isso devo concordar com esse batismo. Não quero o nome de meu marido associado a uma obra assim, você há de entender - respondeu.

- Ah, me perdoe, mas não entendo! É uma obra linda, o orgulho do Estado, e com o nome do seu marido! Veja que coisa boa!

- Não vejo por aí. Imagino os acidentes, imagino o pessoal perdendo vôo, ou então atrasado, reclamando "do trânsito absurdo até o Eulálio". Não quero que alguém enfrente um trânsito absurdo para chegar atrasado ao nome do meu marido.

- Mas e quem vier em visita? E quem tiver contato com esta nossa Terra usando o Eulálio como intermediário? E os nossos conterrâneos que finalmente conhecerão o exterior, também por meio do Eulálio?

- Não, Governador. Não autorizo. Eu sou a esposa, e não quero o nome do meu marido associado a isso. Não há herdeiros, não há ninguém mais vivo que seja familiar de Eulálio Catamiro. Espero que respeite esse meu desejo.

- Tudo bem, tudo bem. Mas saiba que, no futuro, ninguém mais se lembrará dele. Agora, todos estão ainda comovidos, e é a hora certa de batizar. Depois, minha cara, algum outro aí acaba morrendo, e ninguém mais se lembra de Eulálio! Passar bem! - ele desligou o telefone, crente de ter magoado suficientemente a audaciosa cidadã que ousou recusar tal oferta.

Mas a viúva não estava exatamente chorando. Um leve sorriso podia ser notado em seu rosto.

Assim como sorri agora, enquanto se lembra de cada recusa.

Não concedeu entrevista alguma, não liberou fotografias, não aceitou que o nome de seu marido fosse usado para qualquer coisa. Seu advogado já tinha um modelo de ação judicial, mas isso só foi preciso em dois casos, fora do Estado.

O único jornalista que se pôs a tratar do tema, curiosamente a elogiou, convidando todas as viúvas, viúvos e órfãos a fazer o mesmo, ou seja, não explorar a posteridade do ente querido, por mais que fosse uma "pessoa pública finada".

Ela já se referiu a Eulálio como "pessoa pública finada". Roubou a expressão do jornalista. Só não respondeu ao artigo, agradecendo, porque não quer mexer ainda mais no assunto.

Sabe bem que o Governador tem razão. Com o tempo, o povo esquece, e ninguém mais vai querer batizar qualquer coisa de "Eulálio Catamiro".

Como sempre, a grande lembrança que lhe vem é a do velório. Lembra-se perfeitamente daquela mulher, no fundo da sala, aquela que não falou com ninguém. Entrou e saiu, fez lá um sinalzinho da cruz, mas foi o bastante.

A mesma mulher com quem flagrara o marido havia vinte e cinco anos. A mesma mulher com quem o marido disse que não teria nada de mais. A mesma mulher que teria se mudado para a África, ou teria morrido de catapora, ou passado por algo assim.

A mesma mulher que aquele filho da puta jamais deixou de ver ou de amar. E que jamais deixou de amá-lo também.

De tanta raiva pela lembrança, jurou - e vem cumprindo o juramento - que todos se esquecerão de Eulálio Catamiro.
COMPOSITORES

Já fazia meses que procurava a tal música. Não sabia o nome, nem quem cantava. Apenas conhecia parte da melodia, que repetia feito idiota para todos os amigos, em busca de alguém que soubesse algo sobre a canção. Nada, nada, nada. Numa tarde, porém, conseguiu se lembrar de parte da letra. Foi sorte, muita sorte, pois estava em casa, com seu violão, reunido com vários amigos.

Cantou o que sabia, e com isso conseguiu lembrar o resto da música. Estava, enfim, tudo ali: letra e melodia. Mesmo assim, para seu espanto, nenhum dos doze presentes lembrava coisa alguma. Era tudo novidade para eles. Não só uma novidade qualquer, mas sim uma música maravilhosa que emocionou grande parte da pequena platéia.

Ele então anotou pacientemente a letra numa folha de papel, acompanhada das cifras. Não queria mais se esquecer.

Quando mostrou a canção para um amigo músico, também amador, este sugeriu fosse gravada. Garantiu ser música inédita, disse que poderia gravá-la e até ficar rico. Ficar rico! Isso era dito por todos sempre que alguém tinha uma boa idéia; mesmo sabendo que os dotados de boas idéias em geral terminam pobres, justamente falando da injustiça financeira em razão de sua criatividade.

Por não ser idéia sua, mas sim música de alguma outra pessoa, topou a aposta. Talvez ficasse rico, pois seria mantida a lógica da injustiça. Gravou, fez sucesso, ninguém reclamou a autoria. Ganhou mesmo muito dinheiro, pois outras pessoas gravaram a música, gente do exterior. Seu agente certa vez apareceu com um cheque de valor altíssimo, dado em troca da presença da canção num filme de Hollywood. Ah, a glória...

Morreu rico, com fortuna suficiente para sustentar duas gerações, mesmo não tendo lançado sucesso igual àquele primeiro. Era chamado de "músico de uma única canção". Em vez de se irritar, adorava o título, sobretudo levando-se em conta o grande número de artistas que jamais conseguiram emplacar sucesso algum. E nunca se aborreceu com o fato de que a música não fosse sua.


***

Ele era a aposta da gravadora. Compunha músicas maravilhosas, perfeito nas letras e melodias, chamado de poeta e músico com o mesmo entusiasmo. Num dia, chegou com o que considerava sua obra-prima. Tocou para os presentes, empolgando-se com o lirismo da letra. Ao final, todos gargalharam, e ele não entendeu a reação.

Disseram que era uma música antiga, de mais de cinqüenta anos, gravada e regravada, um grande sucesso, havia décadas estava esquecida.

Ele relutou, explicou o sentido de cada verso, o significado de cada estrofe, as razões que o levaram a escrever tudo aquilo e, mais, o porquê da melodia, as inspirações. Narrou com detalhes cada etapa da composição, bem como o tempo levado para concluir toda a música. Em vez de gargalhadas, fecharam a cara, dizendo que insistir naquilo seria a ruína para sua carreira.

Mesmo após ele próprio ouvir as gravações antigas, jurava que era obra sua.Passou a vida contrariado com essa história.
O IMPERADOR

Ele agora é o Imperador. Manda e desmanda em tudo. Seu poder nem chega a ser contestado; ao contrário, todos o saúdam, pois salvou o mundo de todas as desgraças. Trouxe a paz ao povo. É o benfeitor a que todos agradecem, a que as mulheres se entregam apaixonadamente e ao qual devotam, os homens, a maior das admirações.

Mas parece que agora algo o ameaça.

Está deitado com suas amantes, numa cama imensa. Elas são em cinco ou seis, ele nunca conseguiu contar. Loiras, morenas, negras, orientais, ruivas. São bem mais que seis. Sua sala é muito grande. Num dia tem piscina, noutro não. Num dia há uma tela para ver filmes, e noutro não. Num dia há um sistema de som de extrema fidelidade, e noutro não. Nem mesmo teto há todos os dias.

Da janela, pode ver tanto o mar azul, a praia lindíssima, como também a montanha coberta de neve. É um dia de muito sol.

Seu fiel conselheiro, ou grão-vizir, ou melhor amigo, invade a sala avisando de um perigo. Pelo pavor em seu rosto, não deve ser algo fácil de se resolver. Todo o império está sendo destruído. Não se sabe qual a maldita força, pois apenas se vê um clarão. E pouco a pouco as casas, os prédios, e até mesmo a terra e o ar são engolidos pela luz.

O Imperador pula pela janela e voa ao encontro de tal luz. Ele sempre soube que isso aconteceria. Não sabe se pode conter tamanha desgraça, principalmente porque não está totalmente infeliz com isso.


* * *

Ele avista o tal clarão, e também vê todo o planeta ser destruído. Não há barulho algum, a não ser o das pessoas gritando. Todos os elefantes e leopardos caminham como se nada acontecesse. Seus guerreiros, sentados sobre os tigres gigantes, não resistem à morte iminente.

E então se lembra de como tudo começou.

Estava caindo, sem saber de onde veio. Caía sem parar. Caía, caía, caía. Depois da queda, um escuro interminável. Ouvia vozes, lembra-se bem disso, mas não via nada.

Quando acordou, estava na rua, nu, todos o viam, acenavam, riam de sua cara. Ele tentava correr ou gritar, mas não conseguia. Até que novamente se viu caindo e novamente aquela escuridão do começo.

Não sabe como acordou, mas já se viu voando e combatendo exércitos inteiros com suas próprias mãos. Em poucos dias se tornou o líder de todas aquelas pessoas.

Mulheres maravilhosas se entregavam ao grande salvador da humanidade, e as riquezas do mundo lhe caíam como oferendas em troca de toda sua bondade.

E então se vê prestes a combater a única força que, sabe bem, não pode ser vencida. Em vez de hesitar, acelera o vôo a ponto de se chocar contra o clarão que também vem em sua direção.


* * *

Silêncio.

Tudo branco.

Silêncio.

Tudo branco.

Algumas vozes ao fundo.

Silêncio. Tudo branco. Silêncio.

Alguém lhe toca o braço, tudo continua quieto. Sente alguma luz em seus olhos, o calor dessa lâmpada e mais um toque, agora em outro braço.

Finalmente ouve. É um som intermitente. Um bip, e ao fundo algumas vozes. Uma voz se destaca. Voz feminina.

- Ele voltou, ele acordou. Ligamos para a família? ? diz a voz feminina.

- Sim, ligue para eles. ? diz uma outra voz, masculina.

Sim, seu pior pesadelo é realidade. Era exatamente o que temia. Algo precisa ser feito, e há pouco tempo. Não pode abrir os olhos. Deve a todo custo evitar que aquilo continue.

Mexe a mão direita, o que lhe causa extrema dor. Vários bips disparam, as duas mãos estranhas se afastam. Levanta o máximo que pode, sem abrir os olhos, e diz:

- Não façam nada!

Deita-se novamente e fecha os olhos. A intermitência do bip fica mais lenta. Mais e mais lenta, até se tornar um ruído constante.


* * *

É tudo que ouve até se ver novamente caindo, novamente a escuridão, novamente sem conseguir sem mexer, mas não está mais nu.

Tenta levantar vôo, pula como sempre fez, mas cai com o rosto no chão. Mais uma e outra tentativa e nada acontece. Aproxima-se de uma parede e desfere um soco. Nada acontece com a parede, nem com sua mão. Não há poderes mágicos, não há nada que lhe faça diferente dos demais.

E ninguém se importa. Desesperado, segura um homem pelos braços, que apressadamente se solta, e, nem mesmo resmungando, continua caminhando com a mesma pressa.

Chora, grita, fala com todos. Ninguém ouve, ninguém faz nada além de andar, continuar andando. E ele os segue.


* * *

Já se conforma em ser mais um entre tantos e tantos homens e mulheres que caminham de um lado para outro. Não sabe quanto tempo se passou, não sabe mais para onde vai, não fala nem ouve coisa alguma.

Às vezes acha que viu alguém voando, ou sente alguém lhe puxar o braço. Já quase notou alguma claridade mais forte. Em verdade, não sente ou se lembra de mais nada.

Não espera mais nada.
UNIFORMES

Calça legging preta, camiseta branca folgada, meias brancas, tênis importado caríssimo, cabelo preso, rabo-de-cavalo, boné, óculos escuros, yorkshire; Costume escuro, camisa branca, gravata azul clara; Biquíni, havaianas, tatuagem na nuca, piercing no umbigo, banana boat; Bermuda larga, camisa de time de futebol, tênis surrado, meias furadas; Vestido longo, preto, decotado, fenda lateral, sandália preta de salto alto e fino, conjunto de colar e brincos de platina; Calça jeans rasgada, camisa preta de banda heavy-metal, cabelos compridos, coturno; Óculos quadrados de aros pretos e grossos, camiseta sem estampas, calça jeans escura, all-star; Vestido florido, chinelo, carrinho de feira; Batina e cueca do Mickey; Hábito e calcinha de vó; Camisa azul clara, manga comprida, camiseta branca por baixo, calça cáqui, sapatos e cinto no mesmo padrão marrom escuro; Camiseta escura por cima de camisa branca de manga comprida, calça jeans, conga, óculos escuros de lente amarela; Calça capri, tênis sem meias, camiseta colada no corpo; Bicicleta, bermuda, tênis, coleira e pit-bull; Automóvel importado e poodle no vidro traseiro, passeando no tampão do porta-malas; Pick-up e rottweiler na janela do passageiro; Sunga, touca, piscina; Espartilho, meias 7/8, ligas, calcinha fio-dental, salto agulha, tudo vermelho; Calça jeans, camiseta, bota, cinto, cabelo, tudo preto, pele claríssima; Camiseta regata, short, tênis; Sapato náutico sem meias, bermuda cáqui com cinta da cor do sapato, camisa branca por dentro da bermuda; Saia branca, camisa pólo branca, meia branca, testeira branca, tênis brancos, toalha branca, raquete roxa; Calça jeans, tênis de fazer trilha, camiseta lisa por cima da calça; Blusinha, calça jeans, sandalinha, bolsa cara, chapinha; Camiseta vermelha, calça jeans velha, tenis, grito de guerra...

...Seja ninguém na multidão.
AUTÓGRAFO


Não faz nem bem dez minutos que ele chegou, ela se senta na mesma mesa. Senta-se e logo lhe põe a mão no ombro, aparentando estar prestes a fazer uma grande confissão a um grande amigo. Ele não a conhece; ela talvez o conheça:

- Não acredito! - embora o dizendo de forma esbaforida, tenta fazê-lo sem muito barulho - Você é o João Paranaguá!

- Sim, sou eu... Nós nos conhecemos?

- Ah, claro que você não me conhece! Mas eu sou sua fã! Leio tudo que você escreve. Tudo!

- Fico muito grato! É para isso que escrevo, e esse é meu maior pagamento!

- Não há pagamento para o que você escreve! Hm... Eu quero um autógrafo!

- Com muito prazer. - ele diz isso, já apanhando um guardanapo.

- Não, não, não, não! Vai autografar aqui! - ela apanha, da bolsa, algumas folhas grampeadas.

Então ele se decepciona. É um texto desses de email, não é obra sua. Nunca escrevera aquilo. Logo, a chateação se transformou em raiva, ódio verdadeiramente mortal desses idiotas que, em vez de fazer como plagiadores decentes, assinando texto de autor famoso, na verdade se arvoram a talentosos, talvez para comprovar a imbecilidade do sistema, colocando assinaturas famosas em seus textos medíocres.

- Não é lindo? - ela o retira do transe.

- Olha... Esse texto...

Ao mesmo tempo, ele olha para a mulher, a tal fã. É linda, obviamente linda. Dizem que beleza é algo subjetivo, mas em alguns casos ela é objetiva e irrefutável. Assim como a feiúra. Tem a pele queimada de sol, douradinha, olhos claros, verdes. Cabelos louros, devem ser tingidos, mas quem se importa? Usa um decote não dos mais ousados, mas que deixa claro o lindo seio. O corpo todo é lindo, forte. E seu cheiro é sedutor, envolvente. Impossível não se apaixonar.

- Não fique encabulado! - mais uma vez ela o interrompe. - Veja isso aqui, olha só? Como pode ser tão sensível?

É um trecho grifado, algo sobre "dar, transar, amar". Uma bobagem metade conservadora, metade supostamente liberal. Bobagem, bobagem, bobagem.

- Olha... É sério, eu...

- Sabe o que é sério? Quer saber de verdade? - mais uma vez interrompido pela ávida e bronzeada leitora do texto alheio - A verdade é que isso foi a única coisa que realmente me excitou em toda a minha vida. Não houve homem ou nada nesse mundo que me seduzisse e conquistasse, que me atiçasse e me envolvesse, nada como esse texto. Nada! - agora ela já não mantinha o tom da esbaforida silenciosa, era um grito mesmo.

- Entendo, mas não posso ficar feliz. Não é algo de minha autoria. É sério, não é meu.

- Duvido! Não precisa ter medo de mim, não quero me casar com você! Eu só me excitei, só fiquei doida, talvez esteja aqui porque quero te ter por uma, duas, três noites. Nada além disso, não. Seu texto me deixou maluca e eu quero você. Mas entendo que foi um excesso de minha parte...

- Não, não... Calma...

Ele agora já pensa muito bem em assumir a autoria. O que custa? Esses idiotas virtuais o obrigam a toda hora negar publicamente textos tacanhos, chegou a hora de receber os louros da, vá lá, vitória. Ele então muda totalmente o semblante, em vez de acuado agora abre um sorriso, daqueles bem falsos.

- Tudo bem, você venceu - ele prossegue. - Eu não gosto muito de elogios, você deve saber. Sou tímido, acanhado, sou assim mesmo. Mas nunca, até então, tinha ouvido algo tão sincero sobre mim.

- Ah! Agora sim estou feliz! - ela disse isso e logo lhe deu um beijo no rosto, abraçando-o rapidamente. - Me dê o autógrafo, escreva com carinho, vou buscar minhas coisas que ainda estão na outra mesa.

Enquanto ela se dirige às mesas da varanda, que ficam na frente do restaurante, ele passa a escrever a dedicatória do autógrafo. Como começar? Como concluir? O que exatamente dizer? "Este texto, que não é meu, dedico a uma loura oxigenada que desejo comer. Com carinho, ou sem muito carinho, J.P.". Claro que não. Mas é preciso deixar alguma pista para que isso não seja usado como prova. É verdade, isso seria uma prova, poderia ir para algum jornal. Seria um escândalo.

Ela pode estar voltando, melhor se apressar com isso. Ela pode ser realmente uma leitora, o que o impede de usar assinatura ou letra falsas. Leitores são assim mesmo, ele já se acostumou: não conhecem verdadeiramente seu estilo, mas sabem qual sua bebida favorita, suas músicas prediletas, e também sua caligrafia. Compram como seus textos dos outros, mas não se deixam enganar quanto a detalhes bobos que não têm nada a ver com literatura.

Não somente ele demora para se decidir, como definitivamente ela demora para chegar. Demora muito. Talvez tenha atendido a uma ligação, ou tenha ido buscar algo no carro. De todo modo já se passou um bom tempo, o melhor é perguntar ao garçom, sobretudo o bom e velho Riva, que o atende há anos e é pessoa discretíssima. Ele o chama à mesa:

- Riva, meu velho. - inicia a conversa em tom quase silencioso, deixando claro que este será o tom do diálogo.

- Sim, seu João.

- Aquela loura linda que estava aqui comigo, ela está em qual mesa?

- Achei que estivesse com o senhor. Ela chegou e foi direto até aí.

- E para onde foi agora?

- Saiu, foi embora.

- Ah, tá... - ele agora disfarça a vergonha pelo menos ao velho amigo garçom - É verdade... Obrigado, Riva.

Não é fácil imaginar as hipóteses. Ela pode ter simplesmente desistido, afinal, não é toda mulher que se excita com um velho, gordo e calvo. Ela pode ter-lhe pregado uma peça, ou pode ser uma turma de amigos pregando a peça. Pode ter sido paga por alguém conhecido, que jajá vem até aqui. Se não fosse a maldita folha com o maldito texto de algum maldito anônimo, poderia ser até mesmo um sonho.

Não é nada disso.

Rasga o texto, agradecendo à prudência de pelo menos não ter escrito dedicatória alguma, e pede finalmente algo para comer, além de mais uma dose. Ergue a cabeça e ignora todas aquelas pessoas que seguramente riem de sua cara, assim como todas as pessoas do universo neste momento o fazem. Ri sozinho, devolvendo em simpatia o que lhe parece o mais puro escárnio, prometendo escrever sobre isso. Fuga.
ELA

Ela tem pernas grossas. Talvez tenha pernas finas. Ou então pernas normais, com as coxas grossas. Ela tem os pés pequenos. Ela talvez não tenha pés nem pernas. Talvez acabe no joelho. Talvez ela tenha apenas uma perna. Mas acho mesmo que tem pernas grossas. Não gordas, grossas.

Seus cabelos são longos. Curtos. Ela talvez não tenha cabelos. Se tiver, mas acho sim que tem, são escuros. Não sei se castanhos ou ruivos. Ou loiros, bem claros. Ela tem cabelos na altura dos ombros. Ou então usa peruca. Perucas.

Ela anda sensualmente. É tímida. Quieta. Fala alto. Grita. Sussura. Ela anda acanhada. Olha para os lados, com vergonha. Ou para ver se ninguém olha. Ou para buscar o olhar dos outros. Ou não olha pros lados, só mexe o pescoço. Ou não tem pescoço, bem cabeça. Talvez ela seja mais olhada do que olhe. Ou olhe apenas quando olha pra frente, de modo que o olhar passa por mim sem me ver. Ela não me olha. Me olha. Ela caminha até mim sem expressão alguma. Ela me quer e me deseja e me devora com os olhos.

Tem a pele clara. A pele é bronzeada, bem morena, com marcas de sol. Ela é negra. Sua pele é rosada. O bico do seio é rosado. Tudo é rosinha. Ela é amarela. Talvez ela use maquiagem na parte da pele que eu posso ver. Ela está nua, branca, rosa, dourada, negra. Ela rola na cama com calor. Não desejo, calor. Ela não tem metáforas. Ela é puro poema. Ela se contradiz, quieta, sem nem dizer.

Ela dorme profundamente. Está acordada. Ela nunca dorme. Ela nunca acorda. Ela sonha. Não vive. Vive. Não, sonha. Ela caminha dormindo. Ela rola na cama enquanto dorme. Ela está nua, rolando na cama, dormindo, viva, sonhando. Ela faz tudo de uma vez. Não faz coisa alguma. De vez em quando, faz algo. Ela já tem tudo feito.

Ela talvez não seja apenas uma. Talvez nenhuma.
AS VIZINHAS DA VIZINHA

Ela lembra de quando viu pela primeira vez as duas, da janela. Eram crianças, menos que isso. Lembra de vê-las ainda recém-nascidas, aquela coisa das famílias que se mudaram todas juntas para os sobradinhos da viela. Ela também mudou junto, mas já era velha, já era avó.

As duas dividiam bonecas, brincavam juntas. Nunca foram de gritaria. Normais, normais. Não havia o que se falar.

Mas houve briga, e feia, quando estavam para entrar na Faculdade. Fariam a mesma coisa, só não se lembra o quê, e um professor daqueles cursos de preparar para a prova de admissão, é esse o nome?, fascinara ambas. Romperam.

Houve que o professor morreu, sabe-se lá como, mas foi depois de ter com uma e com outra.

Daí voltaram às boas, era mesmo natural. Tudo isso ainda morando aqui na mesma viela.

Ninguém poderia imaginar que o professor tinha um filho, um tanto mais moço, que se aproximou de ambas depois do falecimento do pai. Conversa daqui e de lá, também, como o outro, teve com ambas. Mas desta vez não brigaram.

O menino também morreu.

As duas depois engravidaram. São dois bebês lindos, duas crianças, também não fazem gritaria. Moram todos juntos, crianças e mamães.

Se eu disser que já ouvi uma delas dizer 'missão cumprida' capaz de me chamarem de louca. Mas não sou.
PIN-UPS

- Você pode achar que sou louco - e tenho certeza que achará isso - mas neste exato momento, nesta sala em que supostamente estamos nós dois, eu vejo pelo menos umas trinta e cinco pessoas.

- Quem? Que pessoas?

- Mulheres.

- Isso é coisa de sua cabeça doentia!

- Mas não são mulheres assim normais... São pin-ups...

- Que loucura é essa? Virou um louco tarado? Está tendo visões daquelas mulheres horríveis dos pôsteres velhos que você guarda no seu quarto, debaixo da cama?

- Pois bem: os pôsteres sumiram. E desde então elas aparecem para mim. Por isso nem me queixei. Não sei o que fazer...

- Pára com isso, vai. Deixa de fazer papel de louco.

- Eu juro!!! Eu juro!!! - ele gritava

- Pára. Estou com medo...

- Eu juro!!! Você pelo visto não consegue ver nada, mas eu vejo! Eu juro! - já lhe saí aquelas lágrimas de puro nervosismo.

- Você está me assustando. Vou embora daqui.

- Por favor, não vá agora. Fique comigo!

- Eu vou embora, sim. Não acredito que seja essa sua revelação. Ficou dias e dias se segurando para me contar algo e, quando fala, é uma loucura, uma bobagem dessas!? Francamente!

- Mas não é bobagem! Entenda, eu realmente as estou vendo. Todas! A marinheira, sabe?, está fazendo pose ali na sacada. Olha só...

- Doente... Isso sim que você é. Adeus!

- Quer saber? Já vai tarde! Fico aqui com minhas pin-ups lindas. Não preciso mesmo de você. Pode ir.

- Olha... Você precisa de ajuda.

- Preciso? Elas me ajudam! - agora ele ria, eufórico.

Ela deixou ali seu namorado e chorou profundamente. O namoro já havia acabado há tempos, mas nunca imaginou que a homolocação do término seria assim tão esquisita. Loucura. Sempre o achou um tanto doido, mas considerava isso charmoso. Agora não, agora era algo sério. Seus olhos lacrimejavam, como quem realmente fala a verdade. E se tem uma coisa nesses anos todos que ela aprendeu, foi reconhecê-lo numa mentira.
Talvez por vergonha, ou por ter oportunismo suficiente de aproveitar essa deixa para sair de vez daquele apartamento, nem mesmo se ofereceu para acompanhá-lo em algum tratamento. Ele precisaria. Se não por ver as tais pin-ups pela casa toda, como disse que as via, pelo menos quanto ao fato de que sua coleção de pôsteres havia sumido.

Ela sabia o quanto ele investia de tempo e dinheiro, e que dinheiro!, para montar aquela coleção. Pedia que trouxessem essas bobagens sempre que alguém viajaria para qualquer lugar que fosse. Estava num ponto que nem mesmo quem viajasse para algum retiro espiritual estaria livre de seu pedido. Uma obsessão.

Compreensível que, agora, tudo aquilo se tornasse uma loucura.

Mas... Mas... Não seria justo deixá-lo assim sozinho. Dez anos de namoro não podem ser assim jogados no lixo. Ela não se sentia muito bem em deixá-lo ali sozinho. Toda a cólera se dissipou. Ela já sente aquela coisa na barriga, o remorso, a vontade de voltar e cuidar do homem que, não poderia negar a essa altura, sempre foi o amor de sua vida.

Já estava no carro, não muito longe. Rumava agora de volta à casa de seu homem. Não desistiria de tudo assim tão fácil. Foi uma discussão surreal. Ou ele estaria louco de pedra, e isso lhe daria remorso, ou então teria inventado uma desculpa esfarrapadíssima para mandá-la embora, o que só pioraria seu remorso e sua culpa.

Ela não tinha sido atenciosa nesses últimos tempos, essa era a verdade.
Talvez aquela história toda de pin-ups fosse uma forma de fugir de um relacionamento que não dava certo havia anos. Os interesses, com o tempo, tornaram-se outros. Quase que por birra, tudo que um queria o outro repudiava. Não havia a mínima possibilidade de um meio termo. Da posição de um enfeite na mesa de centro ao restaurante do sábado à noite. Nada

Coisas pequenas, bobas, haviam contaminado o relacionamento de tal forma que um já não suportava o outro. Toleravam-se, estavam acostumados. Era esse o problema. Como todo casal nessa mesma situação, claro, eles já tiveram seus momentos bons. Na verdade, momentos ótimos. Únicos. Perfeitos o suficiente para mantê-los ainda unidos.

Esse namoro falido era na verdade uma tentativa eterna, embora sabidamente vã, de se ter de volta aquilo que se foi. Tentavam dia após dia, acreditavam piamente nessa possibilidade. E, acostumados que estavam, não se viam mesmo dividindo a vida com outra pessoa.

Já tinha chegado à porta. Profundo silêncio. Como sempre fazia, pensou no pior. Bateu, bateu forte. Nada. Tocou a campainha. Nada. Ela tinha uma chave e, passado o protocolo de quando haviam brigado, teria que usá-la como se nada tivesse acontecido. Ou, nessa circunstância que já a deixava temerosa, como se tudo de pior tivesse acontecido.

Entrou. O silêncio continua. Luzes apagadas, com exceção do quarto, que estava com a porta fechada.

Chamou uma, duas vezes. Foi na direção da porta e a abriu.

Não sabia como reagir àquela cena. Nem mesmo em seu pior pesadelo seria capaz de imaginar aquilo. Gritou, bateu a porta, correu até a sala. Voltou, olhou de novo.

Ele estava na cama e, consigo, a marinheira, a cowgirl, a policial, a menina ruiva do vestido longo, a mulata com biquíni minúsculo, a loirinha sardenta com maiô de bolinhas, a cozinheira, a carçonete, a enfermeira, a professora, a colegial e todas as outras. Uma orgia indescritível de seu homem com suas pin-ups.

Foi embora batendo a porta. A vida quase sempre é dura e cruel. Por isso existe a ficção. Ela agora chora porque nunca soube sonhar.
O PACTO - Parte I de IV

- Vai ficar calado, porra?

- ...

- Não vai responder?

- ...

- Achei que fosse mais corajoso, sabia?

Está sentado na mesa da cozinha, foi lá para pegar alguma coisa pra comer. Almoçou há duas horas e pouco, pretende jantar somente à noite. A voz que pergunta, essa que o faz ficar calado, vem de uma latinha de batata Pringle's, que está vazia sobre a mesa. Lembra-se de ter devorado aquilo tudo na noite anterior, vendo filmes de comédia.

Uma lata dessas tem 170g (ou 6 OZ). É engordativa, até demais, pois 14 batatinhas têm 11g de gordura, algo correspondente a 17% do que necessitamos em um dia. Além disso têm 3g de gordura saturada, 15% do que precisamos (se é que precisamos disso). Embora tenha, a mesma porção, 170mg de sódio, há maneiras mais saudáveis de obtê-lo (bem como o único e solitário grama de proteina). Até vitamina C é possível encontrar nessas batatinhas.

Não é todo dia, porém, que se pode conversar com uma lata de Pringle's.

- Por que o espanto?

- ...

- Vamos, você já viu que estou falando. Você bebeu três latas de cerveja ontem, o que não deixa ninguém em ressaca alucinógena no dia seguinte. E você já deveria estar acostumado com 'coisas estranhas', não?

- Como assim?

- Ahá!!! Agora falou comigo! Por isso gosto de ser quem eu sou! Gosto desse medo, sabe? Dizem que me alimento desse medo. Mentira, mentira, mentira. Eu gosto por prazer. Na verdade não me alimento de nada.

- Quem é você?

- Eu sou uma lata de batata Pringle's.

- Quem é você?

- Uhu! Agora virou machinho, é? Vai me amassar e jogar no lixo?

- Quem é você?

- Poderia pelo menos variar o tom de voz, não é mesmo? Essa arrogância toda para quê? Quer saber quem sou eu? Digamos que eu te dei esse poder estranho que você, mesmo saber como surgiu, usa desbragadamente! Gostou do 'desbragadamente'?

- Que poder?

- Ah, deixa de ser besta! Você sabe muito bem de que poder estou falando! Eu sou o único, além de você, que sabe de tudo isso!

- Eu não sei do que está falando. Não tenho 'poder' algum.

- Pra começo de conversa, conhce mais alguém que ouve uma lata de Pringle's falar? Hein? Mas seu poder não é esse. Seu poder é o de matar. Sim, MATAR. Acabar com a vida, mandar dessa pra melhor, embora nem sempre seja uma melhor. Abotoar o paletó de madeira.

- C-como?

- Tá com medo agora, né? Vieram cobrar a conta, né? Eu adoro isso.

- Quem é você?

- Agora sim eu respondo! Uma coisa é perguntar "quem é você" como quem pergunta se o 'foie gras' está bem temperado, outra é fazer assim, gaguejando e suando em bicas. Gostei! Bom, mas vamos lá... Eu sou o Capeta, amigão. O Satanás, sabe quem é? Já ouviu falar? O próprio.

- Mas...

- Como "mas"? Você massacra tanta gente assim e acha que não tem nada por trás disso? Olha... Se cai uma lâmpada, bate uma porta, apaga a luz ou alguma porra dessas acontece, é claro que não tenho nada a ver com isso. Mas se um camarada boa-praça como você mata umas trinta mil pessoas, vamos e venhamos, deve ter dedo do Cramulhão nessa história.

- O que quer de mim?

- Adivinha?



O PACTO - Parte II de IV

Ele estava na fila do cinema, não importa agora o filme ou o horário, importa apenas que era uma fila imensa. Havia um grupo de cinco, seis camaradas, furando fila lá na frente. Claro, ninguém fura fila no fundo. Mas além de furá-la, tiravam sarro com os demais.

Desejou que morressem.

E então, para espanto de todos, os exatos sete sujeitos (não eram cinco ou seis, como pensou de início) caíram no chão. Nem se debateram. O pessoal da fila pensou ser alguma brincadeira, talvez uma performance. Nada disso, estavam mesmo mortos. O comentário geral, pelo menos na fila, era o de que devem ter consumido alguma droga, a mesma droga todos os sete. No início ele se assustou com a tétrica coincidência, mas nunca falou a respeito. Não chegou sobre necrópsia ou algo assim. Passou.

Num outro dia, ainda naquela semana, ouviu uma mulher esbravejando na banca de jornais. Ela falava de greves, sobre alguma greve geral, algo do gênero. Era contra, pelos motivos mais reacionários. Desejou sinceramente que a mulher morresse, e, como se ele próprio a houvesse empurrado, ela caiu. Morta. Não se assustou, não se abalou. Ao contrário, e ainda por cima isso não o deixava curioso, gostou daquilo.

E assim foi com a molecada barulhenta da rua, com os motoqueiros, motoristas de ônibus e de lotação, com policiais e bandidos. Uma faxina. E ele gostava. Tamanha era a diversidade de suas 'vítimas', que nem mesmo os jornais noticiavam como algum acerto de contas. No máximo, trágicas coincidências, como o ônibus com torcedores de certo time que desceu uma ribanceira mas todos os passageiros já tinham morrido antes impacto, aparentemente de ataque cardíaco. Sim, essa notícia ele acompanhou até o fim, e assim fez com as demais.

Começou então a desafiar esse estranho dom, quase que duvidando se era mesmo o autor das tragédias ou havia nisso, como diziam os jornais, uma "tétrica coincidência". No dia seguinte, morreu o repórter que assinava uma das matéria sobre o ônibus. Foi o que usou a expresão "tétrica coincidência". Pensou bem e viu que não gostou da combinação. Desejou e aconteceu. E gostou.

Teve certeza de que era mesmo o responsável. Desde então, tornou-se um estrategista. Nada dessas mortes todas, de uma só vez. Isso realmente chama atenção. Embora não houvessem provas contra si, o fato de sair sempre nos jornais como uma coisa estranha já o irritava. Melhor como no começo, quando ninguém dava importância.

Matava as pessoas por prazer. Por mais que argumentasse a respeito das melhorias na sociedade, ele sentia muito prazer em matar quem lhe desagradasse. Ao longo dos anos matou muita gente, e a cada morte o prazer se intensificava. Não conseguia parar.

E isso não o impedia de levar uma vida normal. Trabalhava, dormia, namorava, fazia planos. E matava, matava, matava. Nunca teve uma vida agitada, com grandes festas e noitadas homéricas. Nos finais de semana, por exemplo, seria capaz de ver filmes inocentes e acordar para tomar um copo de Nescau.

Nunca esperou, porém, que uma lata de Pringle's falasse consigo.



O PACTO - Parte III de IV

- Não estou em condições de adivinhar nada. Diga de uma vez, o que quer de mim?

- Queria mesmo bater um papo. Acho injusto só você se divertir. Já estava mais do que na hora de saber quem está por trás disso tudo...

- O que vai acontecer comigo?

- Ah, não sei... Acho que nada de muito grave. Você acha que merece ser punido, algo assim?

- Não sei, não sei mesmo.

- Agora não sabe nada, né? Pra mandar um eletricista pro espaço você é bom, pra matar três donas de casa, uma em cada dia, você é muito competente. Mas agora nem faz idéia do que está por vir... Isso é engraçado, sabia?

- Por que essa lata? Por que não vem normalmente?

- O que é normalmente? Um sujeito de pele vermelha, com chifres e parte inferior de bode, isso sim é 'normal'? Uma latinha de batata não é normal? Bom, como esperar sanidade de quem mata milhares de pessoas e não vê mal nenhum nisso...

- Não é normal o Diabo ser representado como uma latinha...

- Nâo? Tem certeza? Batata transgênica, empresa americana, alimento industrializado... Uhhhhh!!!!!!

- Não vejo graça nisso.

- Você não vê graça em nada! É um chato, isso sim! Bom, poderia escolher uma garrafa de Coca-Cola ou, isso sim!, um maço de Marlboro... Mas a lata estava aqui, então vai isso mesmo. De outro modo, poderia falar contigo sem usar objetos ou pessoas, já pensou? Aquela voz em "off", como em filmes... Olha, eu acho chato. A lata de batatas é muito mais divertida. E também tem esse rostinho com bigodes aqui, olha, não é bonito?

- Mas eu não sabia que você estava por trás disso. Como eu poderia saber?

- Esse é o segredo! Ou queria um contrato para assinar com caneta e tudo? Queria uma visita dos meus procuradores, talvez conversando com seus advogados? Quem sabe algum anjinho para servir de árbitro, garantindo que você seria dos meus por livre e espontânea vontade blablablá! Que piada!

- Eu não sabia mesmo!

- E precisava saber? Achou que fosse o quê? Obra de Deus?

- Não sabia que você existisse. Não sabia que eu tinha mesmo poder de matar pessoas...

- Você não, eu...

- Tá, tá... "você". Mas não sabia que era minha vontade que matava as pessoas.

- Não sabia, santa? Nem desconfiava? Deixa de ser mentiroso. Guarda essa cara de bobo pro outro camarada lá. Comigo não tem conversa mole.

- Então diga de uma vez o que você quer!

- Eu não! Só vim aqui dizer que estou na jogada, pra você saber quem é que manda. Se eu não tivesse tanta vaidade não seria quem sou, não é mesmo?

A latinha ficou calada, como deve ficar toda lata normal. Ele também, e passou o dia preocupadíssimo. O dia e toda a semana. Preocupado, quieto, sem aquela alegria por matar tanta gente.

Não matou mais ninguém.

Continuava perturbado. Quem acreditaria em sua história? Seria melhor se acreditassem? O que fazer agora? Estava perdido. Durante alguns meses se viu tentado a puxar conversa com alguma lada de Pringle's, já que aquela outra foi pro lixo algumas semanas depois do 'diálogo'.

Não agüentava mais.

Resolveu procurar alguém, indo então para um consultório. Psiquiatra. Não houve indicação alguma, tinha medo que desconfiassem de sua sanidade. Simplesmente apanhou o caderninho do plano de saúde e escolheu algum bem longe de sua casa. Somente uma consulta, talvez seja algo comum, algum remedinho resolva.



O PACTO - Parte IV de IV

- Então é isso, doutor...

- Bom, sua história é mesmo aterradora. Mas tem certeza de que a lata falou consigo?

- Sim, falou.

- A parte das mortes eu acho aterradora. Poderia checar nos registros, isso tudo fica registrado, você sabe. Mas a parte da lata, enfim, essa só você presenciou.

- Foi verdade. Era uma voz, masculina, falando em Português, e juro por Deus que saía da lata!

- Quer a resposta?

- Você tem? Claro que quero!

- Alucinação. Olha, não é uma coisa rara, pode apostar. Muitos têm esse tipo de problema. Eu vou te dar uma receita aqui, você compra e toma duas vezes ao dia, ok?

- Mas eu REALMENTE ouvi a lata falando comigo? E tudo isso REALMENTE aconteceu!

- Sim, sei como é. Duas vezes ao dia, tudo bem?

- Mas...

- Uma no almoço, outra no jantar. Ou quando for dormir. Melhor antes de dormir, só toma um copo de leite antes. Venha aqui em uma semana...

Saiu da sala um tanto contrariado. Esperava ceticismo de um médico, é claro, mas de certa forma aquilo soou como deboche. Então seria tudo uma loucura? Não, isso nunca! E uma porra de remedinho de biruta ia melhorar alguma coisa? Nem pensar. Não queria se dopar pra esquecer do mundo.

Ambos estavam em pé, ao lado da porta. Ganhou então dois tapinhas nas costas e seguiu em frente, enquanto o médico chamava o próximo. Ouviu um barulho e a gritaria dos pacientes da sala de espera. Todos se levantaram, e então ele voltou pra ver o que era aquilo.

O médico estava morto.

Ele então abriu um sorriso e pensou "não, doutor, não volto semana que vem".

Terça-feira, Abril 06, 2004

POPCORN

Deixou as folhas sobre a mesa e foi à geladeira buscar mais milk shake. Seus amigos com certeza cairiam na cargalhada se o vissem tomando milk shake, sobretudo assim apressado, para aproveitar enquanto não derrete.

Mas seus amigos estão todos mortos.

Nunca teve muitos amigos, seu máximo foi contar com uns cinco. Talvez seis. Mas mesmo os pouco amigos, os colegas, até os conhecidos, todos eles já morreram. Ficaram os filhos, netos, bisnetos, sabe-se lá em que grau de ancestralidade eles ainda estavam.

Às vezes se envergonhava de ter tantos anos de vida. Mas não incomodava vizinhos, amigos ou parentes. Mesmo porque não tinha parentes, os vizinhos praticamente não sabiam de sua existência e os amigos, bom, deles já foi dito. Morreram.

As folhas sobre a mesa são um apanhado de conselhos para os mais jovens, mais velhos... os vivos. Conselhos que ele julga fundamentais. Regras simples para a existência neste mundo. Poderiam ser "dicas", mas acha muito pouca coisa denominar "dicas" o que resulta de tantos anos de experiência.

Legado? Talvez. Um legado de conhecimento. Algo assim, nada pomposo, mas tamb?m nada depreciativo. São poucos conselhos, o que torna impossével transformar aquilo num livro. Talvez um artigo póstumo. Algo irônico, pois nunca publicou artigo algum em vida.

Quem se interessaria por tais conselhos?

Olhou pela janela e viu o que sempre via. Crianças correndo de um lado para outro, velhos indo e vindo, caminhando lentamente. Moças com o seio e a bunda empinados, caminhando de modo a mostrar as coxas rijas. Tantos músculos contraídos na exibição da beleza daquelas fêmeas jovens desafiava qualquer um, mas ninguém tinha paciência para pensar em musculatura vendo tanta beleza. Para ele, quase todas eram bonitas, e isso já era assim desde quando muito jovem.

Carros vêm e vão. Num horário, eles mais vão que vêm; noutra hora, mais vêm que vão. Mas nunca param. Mesmo à noite, tarde da noite, madrugada, nunca param. Ônibus, aqueles caminhões chatos que trocam as caçambas das ruas, garis, motoqueiros, jovens correndo e mostrando ao bairro como seus escapamentos são capazes de servir como despertaror inoportuno, aquilo tudo nunca parava.

Lamentou por ter um clichê em forma de janela. Desejava observar a rua um dia e se deparar com um oceano. Talvez assim soubesse que está morto ou que tudo foi um grande e muito demorado sonho: na verdade ainda seria jovem e moraria numa casa em que as janelas dos fundos dão para o mar e as da frente para uma rua toda florida, numa casa em que os dias são mais longos do que as noites.

Então lamentou por ter clichês travestidos de desejos lúdicos.

Caminha pelo apartamento, pouco se incomodando com o vizinho de baixo. O de cima às vezes o irrita, mas não é nada que exija uma conversa. Pouca coisa, aliás, exige uma conversa. Nada é mais desagradável do que essas conversas, então aprende-se a tolerar e conviver com esse tipo de bobagem.

Essa parte não está nos conselhos, pois não pretende passar aos leitores sua covardia. Nenhum deles saberá de seus medos e fraquezas. Ele será um observador tenaz, pura virtude, que até mesmo por isso durou tantos e tantos anos. E até o fim, ou bem perto dele, ou mesmo que distante mas bem longevo, foi um homem saudável. E forte.

Porque, quando se chega a uma determinada idade, ser forte significa conseguir levantar, caminhar e fazer o resto das coisas sem precisar de ajuda.

Seu primeiro conselho é sobre o casamento. Nunca se deixou levar pela propaganda que se faz em torno disso. É uma propaganda sedutora. O casamento, para a carência sentimental humana, está como o automóvel, para sua afirmação social ou senso de liberdade.

Nunca é um bom negócio o casamento. E ele acompanhou desde o comeo a onda do divórcio, que veio a ser uma maravilha, pois aquilo que era até então um fardo eterno passou a ser revogável. A possibilidade de rescisão deu ao contrato infinito um senso de liberdade que quase o transformava em uma coisa boa.

Mas estava longe disso.

E também nada de filhos. Há gente demais no mundo. As pessoas inteligentes não devem procriar, a fim de fazer sua parte na grande missão humana de se destruir, chegando à decadência que se assemelha a um retrocesso à barbárie ancestral. Inteligentes pacifistas, quando ousam se reproduzir, adiam o inevitável. Uma grande bobagem.

Outra imbecilidade é a pretensão intelectual de ser sempre feio. Esse tópico todo era escrito com negrito, sublinhado e demais recursos de destaque de seu editor de textos. Os intelectuais precisam ser bonitos, se não há pouca ou nenhuma graça em tripudiar dos demais. Um intelectual com cara de parvo é um parvo. O que vale é a cara. E ser considerado parvo, por quem inequivocamente é parvo, isso sim é o píncaro da derrota. Ele não escreveu "píncaro da derrota" porque a expressão é contraditória e seu texto é enxuto.

Nada de religião e muita ciência, muita tecnologia. Enquanto seus amigos eram vivos, vangloriava-se por ser o único que conhecia os computadores. Todos debochavam de tal máquina, ele os comparava aos que um dia refutaram o automóvel, o avião, e até mesmo a máquina de escrever. Tolos. Melhor depender da tecnologia do que depender de quem conhece a tecnologia.

Havia mais uns e outros conselhos, não se lembrava com precisão. Talvez devesse ler um pouco, refletir e pela milionésima editar aquilo tudo. Era um texto realmente pequeno; mesmo com letras grandes e folha pequena, não daria um livro de dez páginas.

Acabou o milk shake. Gostava de pronunciar milk shake. "Milk" era dito como "melk" ou "meulk". Puxava o "l", tentando imitar o sotaque dos filmes de faroeste. Não gostava de faroeste, mas o sotaque daqueles atores era sempre uma referência quando pronunciava sozinho essas palavras. Fazia isso com "popcorn" também.

Deitou no sofá com a televisão ligada, pois somente assim conseguia dormir. Pensou um pouco na vida, um pouco na morte, pensou naquelas coisas que vão se tornando sem sentido enquanto se pega no sono. Ele sabe que não vai morrer assim, dormindo. Sabe que vai sentir algum puxão no peito, dor de cabeça, vai saber com certeza de sua morte.

Dormiu e acordou. Dormiu pouco. Cochilava sempre pouco durante a tarde.

A televisão mostrava uma repórter falando sobre alguma guerra. Depois um outro noticiando acidente de trânsito. E outro entrevistando jogadores de futebol. Os apresentadores trocavam amenidades e sorrisos, comentando as notícias superficialmente, mas nada superava o sorriso de quem anunciava "tempo bom" para essa e aquela região. Nada de chuvas. Isso merecia quase que uma gargalhada. Ele ali, com os cabelos brancos e ralíssimos desgrenhados, encolhido no sofá.

Odiou saber que não havia mais milk shake, e passou aquele resto da tarde e começo da noite pronunciando milk, melk, meulk. Pensou em ser caubói, mas desistiu no mesmo instante. Também já não pensava em olhar para o mar. Grande porcaria um mar nessa hora da vida.

Talvez incluísse essas idéias em seu projeto de livro que nunca seria um livro. Talvez o que o mantinha vivo era o sempre-projeto e nunca-término de seu livro. Sua vida era toda um grande projeto.

Milk, Melk, Meulk. Ria sozinho. As gargalhadas viriam na hora de pronunciar num tom ainda mais alto Popcorn.

Segunda-feira, Abril 05, 2004

A RESPOSTA

- Eu acho que não vivemos um casamento normal! Praticamente não saímos deste quarto, desta casa! Isso é um absurdo!

Ela havia, enfim, chegado ao limite. Ele a olhava, triste e assustado. Ele tinha resposta para tudo, mas às vezes concluía que tinha resposta para QUASE tudo. Para algumas coisas não há resposta ou, talvez ele sustentasse essa tese, alguns disparates agressivos não precisam ser respondidos.

Diante do silêncio, e da calma imediatamente por ele provocada, ela desceu rapidamente vários graus na escala da agressividade para tentar contornar as coisas, amenizar, um pequeno armistício diante do exagero.

- Desculpa, não queria ter dito isso...

Ele então agiu, sem dizer nada.

Os dois estavam nus, no quarto. Haviam transado pela manhã e já era meio-dia. Conversaram um pouco, e o papo chato levou àquela discussão, que levou àquele exagero. Ele então a olha nos olhos, toma sua mão e os dois levantam da cama. Ela está assustada, mas muito mais curiosa.

Ele parece seguro, ele realmente está seguro. Sem que soltem as mãos, ele abre a porta do quarto e vão à sala, da sala para a rua.

Nus, na rua.

Caminham pelo bairro, todos olham. Caminham, caminham, caminham. Ouve-se murmúrios, gritos, provocações, xingamentos, assovios, palmas. Ouve-se de tudo. Vão para o limite da cidade, divisa com sabe-lá-onde.

Foi até aí que todos viram. Depois, ninguém viu mais nada. Sabe-se, apenas, que vivem felizes. Nus, em algum lugar. Mas felizes. E longe daquele quarto.

Ele não respondeu porque ela estava certa.

Domingo, Março 21, 2004

RIR DO TEMPO

Descobriu que "pão na chapa" é um pão com manteiga, apertado na chapa da padaria. Uma idéia próxima daquele pão com manteiga feito por sua vovó, mas bem menos gostoso. Óbvio. E nenhum chocolate quente é como o nescau de casa. Nem os chocolates batidos são comparáveis aos nescaus gelados.

Ela o ensinou, naquela manhã, naquela padaria, após caminharem pelo bairro, que pão na chapa era pão com manteiga. E também o ensinou a pegar gosto pelo pão com queijo branco. Ela tinha o cheiro mais gostoso do mundo. O cabelo, a pele. As mãos.

Compravam frutas dia sim dia não. Ele insistia que levassem umas diferentes, importadas, caras; ela preferia uvas e pêssegos. E aquelas bebidas de soja, sabor maçã.

Também toddynho, para que ela tomasse a caminho do trabalho. Não tinha tempo de tomar café em casa, tomava toddynho (uma mentirinha que contava a si mesma, pois tomava porque adorava toddynho; tempo havia de sobra).

Ele a deixava na porta do prédio, ela subia para trabalhar e ele ouvia músicas de um CD a caminho de seu serviço, pensando no pão na chapa do dia anterior - domingo - e lembrava também do nescau de quando era bem menino.

Sentiu saudade do que houve há um dia, e saudade do que havia há quinze anos. Mesmo assim, sorriu pelo que haveria no próximo final de semana. Riu da filosofia, porque era mesmo curioso e engraçado poder rir do tempo. Sempre é o tempo que ri de nós.

Domingo, Março 14, 2004

LEITO

As vozes eram nítidas. Ouvia perfeitamente cada palavra, cada letra, inclusive as pronúncias e entonações. Via tudo. Embora não virasse os olhos e não acompanhasse em foco aquilo que preferisse ver, conseguia ver qualquer coisa que se lhe pusesse no raio de visão. Piscava mecanicamente, antes de arder os olhos, como piscam todos os demais.

Também sentia os cheiros. Os bons e os ruins, todos eles. E sentia frio, calor, tudo. Sentia o gosto da comida, o gosto das bebidas, o gosto do ar quando acabava de chover ou o gosto daquela boca que, em ousadia, beijava-lhe na esperança de que sentisse o gosto. E sentia.

Mas não podia falar, nem se levantar, nem mexer qualquer parte do corpo. Concentrava-se em mexer o dedo mínimo, ou pelo menos coordenar as piscadas ou respirações. Nada, nada. Não conseguia, não podia. Nada em seu corpo sinalizava coisa alguma.

O tempo passava, as pessoas iam e viam. Envergonhava-se de urinar e defecar ali na cama, ao mesmo tempo em que se irritava com o fato de que não percebiam que estava acordado, atento, ouvindo, vendo e sentindo tudo aquilo. Estava tão vivo quanto os demais, somente não podia dizê-lo.

Adormecia pensando nas bobagens que todos diziam, coisa fácil para quem adormece ouvindo conversa dos enfermeiros que passam a noite em plantão, sem mesmo muito o que conversar. Adormecia se iludindo a respeito do quanto talvez fosse inútil poder falar, gesticular, andar, correr.

Viver, afinal, poderia ser aquilo mesmo. Uma inércia agonizante, de quem pretendesse fazer uma porção de coisas, mas com impedimento físico não as fizesse. Viver talvez fosse a permanência na cama, fazendo coisa alguma, mas com uma excelente desculpa para a própria inércia.

Talvez a vida fosse esperar a morte, com a desculpa de que então haverá uma vida de verdade.

Ele gostaria também de poder rir, para gargalhar da filosofia humana.

Terça-feira, Fevereiro 24, 2004

SEGREDO, DINHEIRO E PÔQUER

Vinte e cinco homens do lado de fora daquele consultório. Na verdade, vinte e cinco pessoas, pois havia 8 mulheres no grupo. Ele, lá dentro, de certa forma suspeitava que estava sendo seguido, vigiado, acompanhado. Não poderia morrer, pois consigo também morreria o segredo.

Com o segredo, o dinheiro. Enfim, mau negócio para todos. E ninguém gosta de fazer maus negócios. Ele permaneceria vivo, até que conseguissem o segredo, o dinheiro e então se tornasse um peso morto, porque com o dinheiro em outras mãos, o segredo seria inútil. Como sua vida.

O dinheiro gasto também. Essa, para ele, era a parte ruim da história.

Questão de tempo, talvez, era o que pensara antes de entrar no consultório. Afinal, não seria difícil, principalmente conhecendo quem e o que conhecia, construir um belíssimo plano.

Em menos de seis meses estava nessa situação, o que se poderia considerar um tempo pequeno para o restabelecimento de uma rede imensa, desmembrada do começo ao fim. Ou quase até o fim, pois ele estava ali, vivo. Vivo e ouvindo que sua vida não passaria de uns dois meses. Se tivesse sorte.

Irônico ter um exército à sua espreita, todos preparados para matá-lo por qualquer motivo besta, mas receber a sentença de morte de um médico, pobre coitado que ali estava para ajudá-lo. Irônico, também, notar que o futuro defunto não estava tão aflito quanto seu amigo de roupa branca.

Muitas ironias, mas nenhuma graça. Apenas saiu do consultório, olhou para os lados como olham para os lados aqueles que têm gente em seu redor mas fingem que estão sozinhos no universo, acendeu e baforou seu cigarro como se estivesse numa mesa de pôquer, procurando saber as cartas de todos aqueles jogadores imaginários.

O mendigo seria um deles? O gari? O canário belga ali naquela janela esconderia uma microcâmera israelense? A senhora que joga alpiste para os passarinhos parecia suspeita, e talvez aquele alpiste fosse algum veneno. Gargalhadas. Ele tinha um jogo imbatível nas mãos.

Sua maior dúvida era a respeito do dinheiro. Segurou-se para não ligar, ali mesmo, naquele instante, para o conhecido que sabia tudo das contas bancárias. O que acontece quando milhões e milhões simplesmente perdem um dono? Talvez eles todos soubessem que morreria pela doença. Ou não. Muitas dúvidas para apenas um cigarro.

Sorriu, olhou para os lados, e continuou a rodada das cartas. O jogo estava no fim.

Domingo, Janeiro 25, 2004

O MUNDO ACORDOU PERFEITO

Eles se levantaram antes de o despertador tocar. Todos eles, sem exceção. Despertos, dispostos. Foi uma excelente surpresa para todos, que imediatamente sentiram a necessidade de uma vida correta.

Bom dia, bom dia, bom dia. Todos se cumprimentaram. Nunca fizeram isso. Os rostos habitualmente carrancudos davam agora vez a sorrisos sinceros.

Nenhum lixo na rua, nenhum sinal vermelho furado, nenhum assalto, nenhuma morte besta, por acidente ou violência, nem mesmo uma infração boboca. Nada.

Chefes reuniram subordinados para declarar abrandamento de regras e aumentos salariais. Empregados se reuniram para empreender uma maior força cooperativa.

Mandatários, das esferas municipal, estadual e federal, todos, decidiram pela renúncia. Confessaram de pecadilhos a crimes horrendos. Não pediram desculpas; ao contrário, assumiram a culpa e entregaram os cargos.

Os vices fizeram o mesmo. E o mesmo fizeram quase todos os parlamentares. Não sem antes iniciar as mudanças necessárias.

Policiais devolveram armas; bandidos também, inclusive se entregando. Todos estavam finalmente do mesmo lado.

Até que um menino desavisado, desses que não conseguem se controlar nem mesmo nos sonhos utópicos, resolveu fazer um belo de um xixi no meio de uma praça, aos olhos de todos.

Pesadelo.

Todos deram tapas na testa, chacoalharam a cabeça e tentaram voltar atrás. Políticos, executivos e legislativos, juízes, policiais, bandidos, chefes, empregados, pais, filhos, todos tentaram reverter aquela baboseira toda.

Enquanto Deus caía na gargalhada. Principalmente porque todos poriam a culpa no Diabo pelo mijo do garoto.

Segunda-feira, Janeiro 05, 2004

PATÉTICO

Lembrou-se dos peripatéticos. Aprendeu - talvez na escola, ou num papo em algum lugar - que esses antigos gregos pregavam sua filosofia caminhando. Movimentando-se. Talvez fosse esse o problema.

Um romance na cabeça. Ao mesmo tempo, nada na cabeça. Muito mais a idéia de escrever um romance que qualquer traço de uma trama minimamente convincente.

Conhece todo o traquejo. Isso pode, isso não pode; isso é manha, isso é macete, isso é clichê. Isso é coisa de velho-de-guerra, isso é coisa de novato. Tem as lições na cabeça, todas, mas falta uma boa história.

Senta-se, e nada.

Talvez devesse começar seu livro falando dos peripatéticos. Ou só dos patéticos. Ou da periferia. Ou de alguma outra coisa que levasse a outra coisa, que derivasse de uma outra diferente. Junta tudo num final inimaginável.

Mas quem chegaria ao final de um livro assim? E que, afinal, lê um livro?

O cinema envolve muito dinheiro, e também chegaria um ponto em que a 'boa história' faria falta. Vive o dilema, saboreia o amargo do dilema, e percebe o quão idiota é "saborear o amargo". Põe-se a pensar em figuras de linguagem idiotas, e isso o faz se sentir péssimo.

Talvez devesse escrever caminhando. Ou falar seu livro. Sim, um livro transmitido pela oralidade. Transeuntes desatentos ouviriam pedaços de capítulos.

Não, nada disso. Pensa que algo aparece. Esqueça de tudo, que algo aparece. Pensa e esqueça, desapareça.

Quase rasga o rascunho em que coloca o dilema de não ter uma boa história. Talvez isso preste por enquanto.

Terça-feira, Dezembro 02, 2003

EPISTOLAR

Sozinho, naquela cela, gostava de almoçar sempre acompanhado. Escolhia uma carta que, sobre a mesa, era a figura de seu remetente, ali, comendo junto. Nenhuma escolha era a esmo. Dependendo do dia, preferia essa ou aquela companhia.

Coisas de quem tem muitos amigos.

Punha a carta sobre a mesa, uma pequena mesinha de madeira; talvez originalmente não fora concebida para servir assim de mesa para refeições. Pouco importava. Para ele, importante era a companhia, e os assuntos demorados sobre os quais conversavam. E discutiam.

Os guardas, que para ambos eram garçons ou alguns outros figurantes dos que tipicamente circundam mesas, talvez estranhassem aquele falatório. E os dois, em alguns momentos, preferiam diminuir o tom de voz. Os outros reparam, não fica bem.

Hoje, não fala e não come nem mesmo acompanhado de enfermeiras; dizem que está para morrer, consumido por umas tantas doenças com nomes complicados.

De vez em quando ele sorri. Tomaram o cuidado de não lhe tirar as cartas de perto. Quer todos consigo quando der adeus ao mundo. Quer todos por perto quando, por fim, também se tornar uma carta.

Sábado, Novembro 15, 2003

NOVOS-RICOS, FILOSOFIA OCIDENTAL E A HISTÓRIA DE UM VELHO HOMEM DAS LETRAS

- Todos os ricos são novos-ricos. Mesmo os portadores do mais azul dos sangues, mesmo os herdeiros de dinastias milenares, todos são em essência novos-ricos. E cafonas, como todos os novos-ricos que eles próprios detratam.

Era isso que pensava de seus amigos; muitas vezes com essas palavras a eles se referia. Gostava de desgostá-los. E quase à mesma proporção gostava de fazer parte daquele meio. Gozar as maravilhas da tal elite, sem com ela se comprometer.

Segurança. Ou covardia. Até porque quase nunca se consegue separar covardia de segurança. Tudo parece uma mesma coisa, e para ele não havia problema na tal linha tênue; desde que não o confundissem com aquela horda, e quanto a isso fazia questão de grifar.

- Eles sempre precisaram de alguém para lhes dar suporte cultural. É isso mesmo! Sempre... Desde antes do célebre mecenato da denominada "renascença". Acho que vem desde antes das artes. Talvez tenha sido a arte uma invenção dos ricos, para que por ela - sem saber praticá-la - passassem aos demais, em geral os dominados, uma imagem de que eram pessoas refinadas.

Havia dois motivos óbvios para essa gritaria toda. Em primeiro lugar, porque a parte mais atraente de sua pessoa estava na capacidade de transformar a ira em humor, de forma a menos constranger e mais instigar. Além disso, pelo fato de que passou a vida toda servindo de "apoio cultural" a pessoas que, com o tempo, foi desprezando mais e mais.

Estava sempre acompanhado de gente de famílias supostamente tradicionais, daquelas com sobrenomes reverenciados por revistas e colunas. Isso lhe garantia subsídios para sustentar alguns hábitos que às próprias expensas restariam inviáveis: lautos jantares, viagens, hospedagens etc etc etc. E não são poucos os etecéteras.

Aos milionários, estar ao lado de tão conhecida figura fazia com que fossem admirados ainda mais. Todos arderiam de inveja, eles pensavam, porque embora fossem ricos o bastante para não ter compromisso com mais nada, ainda assim guardavam seu tempo livre para debates filosóficos, com companhias de respeito inatacável.

Por conta dessas amizades, conseguiu uma vaga na Academia de Letras. No início, como fazem todos, desprezou e fez pouco daquele lugar. Agora não. Agora fala com desdém de si próprio, como se a atual fase correspondesse a uma evolução, um progresso existencial.

Consegue ser hábil o bastante para transformar um rococó argumentativo num exercício de retórica formidável, ao ponto de transformar a si numa piada e, por ser seu próprio algoz, ganhar os louros do humor ferino. Poupa-se do papel de vítima, exime-se da figura do escarnecido, e ganha gargalhadas pela genialidade com que se destrói em público.

O grande drama disso tudo é que agora está velho. Toda sua vida foi uma sucessão de imediatismos. Nenhum investimento material; apenas amizades, bons relacionamentos, e até mesmo inimizades lucrativas. Elas existem e todos sabem disso.

Hoje não sabe até que ponto pode contar com isso. Os mais novos o conhecem, mas não vêem vantagem em ser vistos consigo. Faz sentido. Ninguém melhora a imagem perante a sociedade ao lado de um velho.

E os jovens, assim como ele fizera, atacam-no como lobos. Chamam-no de vendilhão, de péssimo escritor, de engodo, farsante. Doce ironia. Mas ironia ainda é a sua praia. Então ele se põe a filosofar, de maneira a servir como prato cheio a qualquer psicanalista:

- Toda essa molecada que hoje me ataca, na verdade, faz como eu já fazia há tempos. E nem há nisso um mérito somente meu. A civilização ocidental se constrói sobre o mito da nova geração que vem para matar os antecessores. Os mais velhos são vistos como inimigo, até que os jovens e ingênuos assassinos se dêem conta do quão patética é essa dinâmica. Nesse dia, eles já serão velhos e, por ironia, serão atacados por outros jovens. Segue-se o ciclo. Hoje, querem ou não, sou vítima dos meus próprios ataques. O que faz de mim não um coitadinho, mas sim um crítico tenaz.

Sai de cena talvez pobre, mas jamais sem receber os louros até mesmo pela própria derrota.

Quarta-feira, Novembro 12, 2003

ROUSSEAU

Saiu da cidade grande. Fugere urben, ou algo assim. Bem mais importante que essas expressões babacas dos árcades era sua vontade de largar a loucura da metrópole. Aquele barulho ensurdecedor, que é a soma de vários outros barulhos, resultando numa massa de som elouquecedora.

Agora os sons seriam só aqueles lindos e desejáveis. Aqueles com os quais sonhara por alguns anos. Cultivava mesmo a idéia de se mudar para a praia. Uma casinha no litoral, rua de terra, cheiro de maresia.

Cheiro.

De manhã, cheiro de café. Não tão forte como o da fazenda, nem tão industrializado como os das cafeterias barulhentas da cidade. Um cheiro que soma ao café todos aqueles cheiros das manhãs praianas.

Assim que chegou, de vez, para morar na praia, sentiu o melhor de todos os cheiros: chuva. O dia tinha sido quente, sol a pino. E logo uma chuva tratou de reverter aquilo tudo. Logo no começo, o cheiro é algo sem qualquer possibilidade de explicação, analogia ou metáfora.

Quem conhece, sabe. Quem não conhece, não pode imaginar. É assim.

Saiu à rua, aproveitando aquele cheiro do qual sentia saudade. Era ainda uma criança quando pela última vez viu a chuva ali na praia. Agora, passados todos esses anos, finalmente poderia tomar um banho dela.

Um banho demorado. Tanto um batismo em relação à nova fase, quanto uma forma de se limpar da antiga era de sua vida. Fosse qual fosse a simbologia usada, seria um banho dos bons, pois a chuva estava mesmo forte. Bem forte.

Raios, relâmpagos, trovões. Céu fechado. A beleza às vezes assustadora da natureza - e na acepção exata da palavra. Mesmo o mais forte dos trovões não incomoda tanto quanto a mais baixa das buzinas. Tudo é motivo de contemplação na natureza, enquanto tudo na vida dos homens urbanos é motivo para lamentos.

Corria pela praia, aproveitando aquela tempestade. Corria livre, finalmente.

Então um raio atingiu seu corpo. Morreu. A vida tem disso.

Sexta-feira, Outubro 24, 2003

SOBRE JAZZ E POUCO CASO

Ele sempre as abordava dizendo que Chet Baker só fizera sucesso porque era bonito. Dependendo do nível de interesse das garotas, prosseguia falando de George Michael, que também teve impulso por conta da beleza; e concluía discorrendo sobre o talento e a sexualidade de ambos.

E funcionava.

Ela fazia o gênero difícil. Sabia fugir de todo tipo de conversa. Das mais inteligentes às bem apelativas. Não havia pretexto argumentativo que a pudesse persuadir. Nunca olhava nos olhos, não se deixava tocar, nem mesmo colaborava com sorrisos. Quando ria, era por conta de alguma bobagem dita por quem a abordava. E eles sempre percebiam que a ria de algo ridículo que haviam dito.

E funcionava.

A historinha acaba aqui. Eles nunca se encontraram.

Domingo, Outubro 12, 2003

LÓGICA NO RACIOCÍNIO

Não lembro quando estive por aqui pela última vez. Talvez nunca tenha vindo pra cá. Os móveis são aparentemente antigos. Talvez sejam mesmo antigos. Meu ceticismo é tão acentuado que duvido da antiguidade dos móveis. Isso é doentio. Prefiro duvidar apenas das pessoas. Se alguém disser que os móveis são antigos, aí duvido da pessoa. Mas não dos móveis.

Preciso colocar lógica no meu raciocínio; ou então tirá-la de vez. Esse lusco-fusco de lucidez acaba com qualquer um. E não é hora, agora, de me achar algo mais ou menos do que qualquer um.

Não sei como vim parar nesta casa, e também não faço a mínima idéia de como sair. Acho engraçado o fato de não saber também se tive vontade de vir. E então começo a pensar na filosofia inerente ao "gostar" e ao "não gostar", deixando de lado o principal da discussão.

Definitivamente, preciso colocar lógica no meu raciocínio. Mas, principalmente, preciso aprender a pensar de forma pragmática. Como fazem aqueles que produzem algo de útil. Ou de inútil. Os que produzem. Eu não produzo.

Estou sentado há pelo menos duas horas numa sala com móveis supostamente velhos. Dou um voto de confiança à mobília. As paredes são brancas, impecavelmente brancas. Lisas. Sem quadros ou qualquer outra intervenção. Nem mesmo interruptor de luz. Nada.

Os móveis são de madeira, com estofamento de couro vermelho. Acho bem feio; até para móvel velho é feio. Mas gosto é gosto, cada um tem o seu, e isso seria outro raciocínio idiota que me faria perder horas pensando no nada.

Deveria anotar essas besteiras para quando estou preso no trânsito. Ou então para quando estou exatamente numa situação como esta. Deveria haver um jeito de colocar essas inutilidades existencias para fora.

Escrever um livro desses bem grossos, de parar em pé na estante, todo ele sobre o nada. Posso ver as pessoas me abraçando, elogiando; festas, festas e festas. Eu mesmo me considerando um gênio.

Porque os escritores competem entre si para saber quem é mais competente na arte de dar uma bela roupagem para o nada. Todos falam sobre o nada. Todos os livros do mundo são inúteis. E agraciados são aqueles que conseguem fazer incautos se sentirem tocados pelo nada que escreveram.

Acho que tenho inveja dos escritores, e ainda por cima tenho preguiça de escrever um livro. Então, mais fácil, digo que não tenho inveja dos escritores, porque nem mesmo escrevi um livro. Resolvo os dois problemas com uma só ação. Melhor, uma só inação. Mais simples, impossível.

Minha namorada é a mulher mais linda do mundo. A grama do vizinho é mais feia que a minha. Meu Deus não é o mesmo que o dos outros. Sou feio, mas comparado aos demais sou lindo. E ainda não escrevi o livro mais inteligente do mundo. Quem perde com isso são vocês, porque ele está todo na minha cabeça.

Eu tenho medo, mesmo ninguém me conhecendo, de que o mundo todo me esqueça.

É mais ou menos nessa hora que o dentista me chama. E então volto ao mundo real e deixo de transformar os momentos mais inúteis e idiotas da minha vida em supostos capítulos introspectivos e brilhantes de romances que nunca escreverei.

Terça-feira, Setembro 30, 2003

DIA DE LARGAR LIVRO NA RUA

Colocar um livro em algum lugar da cidade, para alguém pegá-lo. Todos farão isso. Ele ria das coisas em que se metia. Leu isso num e-mail e levou a sério. Pior, pegou seu livro favorito. Um livro barato, é verdade, mas do qual não conseguiria se desvencilhar assim tão fácil.

A cada banquinho que parecia ser perfeito, em vez de depositar o livro para que alguém o apanhasse, preferia olhá-lo, folheá-lo, cheirá-lo. Sim, os livros têm um cheiro muito bom e todos sabem disso. Sobretudo os que os adoram, pois sem dúvida os lêem, cheiram e gostam.

Numa dessas hesitações, ela apareceu:

- Também aderiu ao movimento?

- Qual movimento? - ele tinha esperanças de que aquela garota maravilhosa não soubesse nada a respeito da bobagem em que se metera.

- Largar um livro em cada parte da cidade. Não viu? Correu e-mail aí. Bobagem. Achei uma porcaria.

- Ah, é? Nem sabia...

- E o que faz com esse livro?

- Esse? É meu...

- "O Que o Tio Sam Realmente Quer". Que bosta! Esse Noam Chomsky é um babaca!

- Pois é... Serei franco contigo... Encontrei esse livro aqui no banco. Apanhei-o porque também recebi o tal e-mail. Mas fiquei com vergonha por ter sido flagrado bem nessa hora...

- Ah! Não se acanhe... Deixe o livro aí, alguém depois o pega... Você merece coisa melhor...

- Sim! Nós merecemos! Vamos, juntos, tentar achar algum livro bom?

- Vamos sim!

Não há convicção, mesmo literária, que supere uma paixão. Não há cheiro de livro que seja algo próximo do cheiro de uma mulher. E ele nunca mais leu Noam Chomsky. E nem deu falta.

Domingo, Setembro 28, 2003

DUAS TIRINHAS
Foi tão rápido que ninguém viu. Nem ele viu. Sentiu. Ela também. Um tesão táctil. Sem imagens. Algo rápido. Mas o tesão fica. E ficou. Não porque contido, mas porque saboreado. Vidido. Assim, como deve ser.

Ela, em seu ouvido, dizendo aquelas palavras que independem de som. Palavras de sentimento. E de tesão. Ela que, no lugar de se deixar conduzir, leva-o ao deleite. Ela.

E ele ali, entregue a tudo. Sentimento, tesão. Palavras desconexas, quase sem som, soando-lhe no ouvido. Sentimento e desejo fortes.

Então, mãos dadas, ela conduz a ponta de seus dedos à tira da calcinha. Às tiras, pois são duas. Duas de cada lado. Finíssimas. E continua dizendo aquelas palavras tácteis, ditas pelo calor de sua boca, de sua língua.

Ele sonha. Acordado.

Segunda-feira, Setembro 08, 2003

POSTFODEM
- Ah!!!!
- Hummm....
- ...
- ...
- Foi bom para você?
- Vixi...
- Vixi? Não foi bom?
- Olha... Na verdade não foi não, viu...
- Caramba! Pegou pesado!
- Peguei pesado por quê? Você me fez uma pergunta objetiva. A resposta era uma ou outra; não há meio-termo. Respondi o que você não queria ouvir. Mas foi você quem perguntou...
- Ah! Mas você tava gemendo e tals... Pode parar com gozação...
- Ei... Não é gozação. Você REALMENTE não foi bom. Mas talvez a culpa não seja sua...
- Pois é... Às vezes falta sintonia, né?
- Sem dúvida... Eu, por exemplo, adoro quando o homem sabe fazer sexo oral. Então faltou sintonia aí. Mas você seguramente deve ser um estouro chupando uma mulher que tenha tesão na uretra...
- Caramba! Precisa falar assim?
- Claro que precisa! Vem perguntar se foi bom? Não sabe o que é sintonia e vem falar em sintonia? Desde quando alguém que começa uma trepada todo cheio de pegadas fortes, e depois termina com mimos idiotas, sabe o que é sintonia?
- Mas esse é meu jeito...
- Aí é que tá... Sintonia não é fazer do seu jeito. Sintonia é tentar achar um jeito-em-comum... Meio-termo, sabe? Mais ou menos quando há o beijo... Cada um beija de um jeito, mas no meio do primeiro beijo já se ajusta um jeito em comum...
- Ah, tá... Sei como é...
- Sabe? Então deveria usar esse conhecimento, porque nem no beijo deu certo...
- Porra! Se você não gostou assim de mim, não precisa falar!
- Sabe o que é?
- O quê?
- Vocês, quando perguntam se são bons de cama, adoram dizer que 'ninguém nunca reclamou'. Só faltava mesmo alguém reclamar, né? Pois agora estou reclamando. E só faço isso porque não quero nem imaginar a hipótese de um repeteco...
- Mas nem eu! Você acha que eu gostei?
- Não sei. Mas deve ter sido trabalhoso pra você fingir esse orgasmo. Se bem que, do jeito que foi rápido...

Sábado, Agosto 23, 2003

A MULHER DOS OUTROS
- Caralho!
- Que foi?
- Fica na sua, como quem não quer nada, e olha só quem vem ali...
- Beleza... Disfarça que eu vou virar...
- Vira agora!
- Puta merda!
- Viu só?
- Vi sim! Tá muito gostosa!
- E o Jair, hein?
- É! Que coisa...
- Ela tem outro, certeza!
- Mesmo? Você já viu?
- Ah, Norberto! Não precisa ver, né?
- Bom, é verdade...
- É claro, nem precisa ver... Você olha e já saca qual é a da mulher...
- Isso mesmo...
- Aquela roupinha coladinha, aquele peitão pulando pra fora da blusa...
- Que gostosa!
- Aquilo ali tá com outro, meu caro. E deve ser negrão!
- Negrão por quê?
- Porque loira gosta de negrão, caralho! Se gostasse de português ou italiano, quem sabe, teríamos chance com aquela gostosa...
- Mas nunca vejo loira com negrão...
- Nunca vê porque não procura. É só olhar. Esses pagodeiros, aí... Tudo com loira...
- É mesmo? Que pagodeiros?
- Sei lá, porra! Vou saber nome de pagodeiro? De cor, mesmo, só sei o nome de quem já vestiu a camisa do timão. O resto eu chuto.
- Certo...
- Bom, tá na minha hora. Vou lá pra casa prestar satisfação à patroa. E ela já vai encher o saco por causa do bafo de cerveja.
- Peraí...
- Que foi?
- Sua mulher não é loira?
- Tingida. É diferente.
- Diferente, é?
- É claro, porra! Ela é morena. Só tingiu de loiro...
- A mulher do pagodeiro é loira natural?
- Sei lá, caralho! Acho que é.
- Carla Perez, né? Acho que não é.
- Você não entende de mulher, Norberto. Você entende de futebol, e mesmo assim só um pouco.
- Tá certo... Mas...
- Mas o quê?
- Nada não. Vai lá...

Quarta-feira, Agosto 13, 2003

PAIS, FILHOS E CIGARROS
- Você precisa parar de fumar!
- Ahahahahahaha!!!
- Que foi?
- Você também fuma!
- Mas eu sou velho!
- Então! Deveria ter mais experiência para saber que isso faz mal!
- Deixa de ser bobo! Eu sou velho, estou viciado, não tenho mais jeito. Daqui a pouco morro...
- Morrer por morrer, ninguém sabe quando vai bater as botas...
- É sério, cacete! Pára com isso... Você ainda não está viciado!
- Mas eu gosto! Eu só fumo porque eu gosto!
- Tá, tá... Eu também gosto, mas...
- Mas o quê?
- Se você tentar, não consegue parar!
- Consigo sim!
- Não consegue! Sério! Não consegue!
- Eu não quero parar! É bem diferente!
- Não quer, não quer... Você pensa que não quer parar!
- Não quero mesmo!
- Você não parou para pensar nisso...
- Parei sim! Eu parei e concluí: quero continuar fumando!
- Você vai ver, então...
- Vou ver o quê?
- Não chega aos trinta e cinco desse jeito...
- E como você tem 70?
- Sorte.
- Eu também sou sortudo.
- É mesmo. E não aproveita a sorte do meu conselho...
- Tudo bem. Nesse ponto eu sou azarado.
- E ainda é irônico!
- Ah, vai... Já encheu esse papo!
- Não adianta discutir...
- Não mesmo!
- Bom... Você tem cigarro aí?
- Não!!! Acabou e eu tô com preguiça de comprar nesse frio...
- Então deixa pra lá...
- Peraí... Vamos lá, vamos comprar...
- Tá vendo?
- O quê?
- Você tá viciado! Sair nesse frio pra comprar cigarro...
- Viciado que nada! Vou sair porque GOSTO de fumar... É bem diferente...

Terça-feira, Agosto 05, 2003

O RÓTULO
- E aí, como é? O que vocês têm?
- Nós quem?
- Vocês, cacete! A garota lá de que me falou...
- Ah! Bom... Não sei...
- Não sabe?
- Não, não sei. Não pensei numa definição para o que temos...
- Papinho, hein? "Não pensei numa definição...". Ah! Vai pra porra! O que vocês têm? Namoro? Amizade? Rolo? Sexo? O que é?
- Cara, eu não sei! Sério...
- Você tá a fim dela?
- Não.
- Não??? Tava falando dela até agorinha... Que porra é essa?
- Eu não "tô a fim". Eu estou apaixonado.
- Vixi!
- É. Estou mesmo.
- E ela?
- Não sei...
- O que você acha?
- Não sei, não acho, não quero achar...
- Ah...
- Mas quero saber. Todo mundo quer saber o que passa na cabeça do outro...
- Aí perde a graça, né?
- Talvez...
- Situação, hein? Então vocês não têm nada, mas se dependesse de você...
- Ah, pára! Você sabe o quanto eu sou racional...
- Mas não está agindo de forma racional agora!
- Exatamente. E por ter subvertido minha racionalidade é que passei a ter certeza do quanto eu gosto dela.
- Putz...
- Entende?
- Entendo, mas então se dependesse de você, vocês teriam algo... Não é?
- Não, não é... Não é por aí. Eu gosto muito dela. Muito. Nem consigo pensar no quanto foi bacana ter havido t