O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE I de VIII Perivaldo estava sentado, esperando havia sete horas no Distrito Policial, esperando pelo Delegado Isaías Gnocchi, com quem falara por quase a noite toda. Confessou ter matado mais de quarenta pessoas. Descreveu com riquíssimos detalhes cada homicídio. Não havia um padrão, jamais deixara pistas. Era um assassino que matava por matar, não por disputa de intelectos entre si e seu perseguidor.
Também não matava por prazer.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE II de VIII Isaías Gnocchi sentou-se com o Investigador Capiberibe. Não sabiam bem o que fazer com aquele maluco da sala ao lado, que confessou ter matado muita gente. Todas as alegadas vítimas estavam, de fato, mortas; todas em razão de homicídio.
Mas nada daquilo fazia sentido.
Um fora degolado, outro levou três tiros, houve ainda ataques a faca, espancamentos; não havia padrão algum. Homens e mulheres, idades variáveis, nada que fosse o padrão de um assassino em série..
Em três casos, houve processo judicial com condenação. Aquilo seria um grande problema. Mas não sabiam exatamente o que fazer com o tal Perivaldo. Sua figura barbuda e cabeluda, mais parecia a de um mendigo.
Seguramente, não teria matado ninguém. Nem uma mosca, como acrescentou Capiberibe. Nem uma mosca.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE III de VIII Como não quisesse voltar para casa, inclusive alegando não ter uma, acharam por bem encaminhá-lo a um manicômio. Haveria uma longa burocracia até colocá-lo no Manicômio Judiciário Estadual, mas o Delegado Isaías, com mais de dez anos de carreira, tinha lá seus meios de evitar a burocracia.
Perivaldo, para o bem de si mesmo, seria tratado por profisisonais. Mas, não por isso, deixariam de pesquisar sua história. Isaías encarregou Capiberibe de levantar todos os arquivos de todos os crimes. Enquanto isso, o pobre coitado seria mantido no Manicômio Judiciário. Foram medidas heterodoxas, mas não haveria como indiciar aquela criatura.
* * *
Lá no Manicômio, após longa análise, todos concluíram que se tratava de um caso atípico; mas "casos típicos" não eram para lá encaminhados. Estavam, pois, acostumados com coisas diferentes.
Em menos de duas semanas, com a concordância do Delegado, encaminharam Perivaldo para uma Fazenda de Tratamento, onde não havia internos considerados violentos, e as terapias seriam menos impactantes. Um lugar mais digno, enfim, para um homem inocente.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE IV de VIII Capiberibe, sempre competente, trouxe um calhamaço de pastas até a sala do Delegado Gnocchi. Como sempre, o Delegado recusou a papelada, preferindo um resumo. E um resumo verbal.
Foi-lhe explicado que, de fato, não havia qualquer possibilidade de Perivaldo ser o autor daqueles crimes. As aparências não enganaram: era mesmo um mendigo. Perivaldo Santos vivia como indigente havia anos.
Não havia registro de período anterior, mas nem precisava. Já era mendigo na época dos crimes, e na mesma época já havia passado por todo tipo de albergue e lar para indigentes. Inclusive, e estava aí o seu "álibi", teria passado a noite em vários deles ao mesmo tempo em que os crimes eram praticados.
Era inocente. E maluco.
O Delegado informou tudo isso ao pessoal do manicômio, e todos eles concordaram que o melhor seria um tratamento. Disseram que Perivaldo era pacífico, atencioso, amigável, mas de fato não batia bem das bolas. Gargalharam, empregando o típico escárnio dos lúcidos, e esqueceram o assunto.
Isso foi há vinte e cinco anos.
* * *
No mês passado, em casa e aposentado, Isaías Gnocchi recebeu uma ligação do ex-colega, também aposentado, Capiberibe. Não soube como reagir ao que lhe foi dito.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE IV de VIII Isaías, o temível Delegado, tremia e não tinha forças para desligar o telefone, mesmo que seu interlocutor já tivesse havia muito desligado. Não se perdoava por ter sido tão relapso em um caso antigo, ainda que, oficialmente, não houvesse como culpá-lo.
Com ótima memória, sempre foi bom em fisionomias; seria capaz de se lembrar de qualquer um com quem conversara. Lembrou-se imediatamente daquele homem magro, alto, branco, barbudo e cabeludo, com roupas velhas e cheirando mal. Lembrou-se do mendigo louco, que confessara crimes jamais que não havia praticado.
Capiberibe, que também era um perito em descrições e fisionomias, também dotado de memória prodigiosa, dava uma péssima notícia. Em uma conversa besta, descobriu que o tal mendigo, Perivaldo, era mesmo um homem maluco. Mas negro.
De início, pensou ser alguma coincidência. Claro que não se tratava do nome mais comum do mundo, mas deveria haver mais de um indigente chamado Perivaldo. Buscou sua velha agenda e consultou o nome completo. Perivaldo Santos.
O sobrenome não ajudava muito, mas já seria alguma coisa. Dois indigentes com o mesmo nome, incomum, e o mesmo sobrenome, já seria demais. Precisaria visitar os albergues. Fez tudo isso antes de ligar para o velho Delegado.
Praticamente, todos os albergues e lares tinham jogado fora seus registros antigos. Alguns, claro, nem bem tinham registros. Apenas um tal "Abrigo da Paz Divina" possuía pastas organizadíssimas. E com fotos.
Estava lá o homem negro, o indigente de nome Perivaldo Santos. Já sabia que isso poderia acontecer, e somente essa ocorrência não provava coisa alguma. Até que viu, em outra pasta, o homem branco e barbudo, aquele da Delegacia, Perivaldo Santos.
Mas não havia ali motivo de alívio. Em uma terceira pasta, de dois anos anteriores, viu uma outra foto daquele homem barbudo. Estava sem barba, mas era ele. Mendigos podem se parecer para os olhos dos abastados; mas, para Capiberibe, não. Era o tal Perivaldo Santos, porém com outro nome. Gumercindo Amparo.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE V de VIII Gnocchi já estava velho, e já tinha se livrado de boa parte de sua papelada da época da ativa. Foi fácil, não por ser desapegado de tudo, mas porque não possuía muitos papéis. O mais importante, a agenda, ainda mantinha em algum lugar no quartinho dos fundos de seu sobrado.
Uma outra pessoa esperaria dia amanhecer para procurar a agenda, pois já passava da meia noite. Mas não se tratava ali de uma pessoa normal. Ele foi.
Após algumas horas, encontrou a agenda empoeirada. Estava lá o número do manicômio. Ligou imediatamente, mas uma gravação avisou que o número não existia. Depois de tantos anos, seria mesmo difícil o número não ter mudado.
Riu da própria imbecilidade, e então ligou para o serviço de informações. Três números e pouca conversa depois, uma outra gravação lhe passava os dados corretos.
Todos os seus conhecidos já não trabalhavam mais por lá. Havia um segurança e dois enfermeiros de plantão. Mesmo após se identificar como Delegado Isaías Gnocchi, não conseguiu fazer com que alguém daquele trio lhe informasse sobre a Fazenda de Tratamento ou sobre o paciente Perivaldo Santos.
Tentou dormir, mas passou a noite acordado. Informaram-lhe que às nove chegariam os outros funcionários.
Na hora informada, ligou novamente para o Manicômio. Conseguiu falar com um dos Diretores, Doutor Olegário, de quem buscou respostas sobre o paciente misterioso. Quando mencionou a "Fazenda de Tratamento", foi abruptamente interrompido.
Não soube da tragédia? Essa foi a pergunta com que o Olegário o interrompera. A explicação seria tétrica.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE VI de VIII Com inacreditável frieza, diante dos absurdos e da crueldade dos atos narrados, o psiquiatra relatou o que houve na Fazenda de Tratamento. Sobre Perivaldo, pouco disse. Informou ser mais uma das vítimas.
Houve um massacre. Isso foi há uns dez anos, mas nunca divulgaram porque não queriam publicidade negativa, e ninguém dava bola para a Fazenda de Tratamento, mesmo.
Mais de trinta internos foram mortos num incêndio provocado em um dormitório. O incêndio não somente foi criminoso, como também as portas foram bloqueadas.
Quando finalmente conseguiram arrombar as portas, os corpos estavam carbonizados. Mas não havia muito a ser feito. Todos já estavam mortos provavelmente antes do fogo começar. Houve envenenamento. O culpado foi o interno Atanagildo Gafieira, que deixou uma carta explicando seus motivos.
Ao ser perguntado sobre como teriam tanta certeza da autoria, Olegário explicou que, junto aos corpos foram encontradas as pulseiras metálicas de identificação. Todos estavam ali, menos Atanagildo. Justamente o autor da carta. Carta, aliás, escrita com sua caligrafia.
Pulseiras metálicas! Pulseiras metálicas! Como poderiam identificar corpos simplesmente contando pulseiras metálicas! E a caligrafia? Os loucos poderiam ser facilmente induzidos a escrever uma carta, qualquer que fosse o conteúdo! Isaías Gnocchi não acreditava no amadorismo do pessoal do Manicômio.
Ainda que aposentado, tinha nas veias o sangue de um velho delegado. Tão logo desligara a ligação, marcou encontro com Capiberibe na "Esquina da Coxinha", o velho boteco freqüentado pelos velhos policiais.
Era uma tarde animada para todos, menos para aqueles dois. Concluíram que Gumercindo, ou Perivaldo, ou Olegário, quem quer que fosse aquele maluco, não poderia ser somente um doido. Era mais que isso.
Capiberibe então perguntou ao velho Delegado qual o principal elemento que faltava ao matador. Gnocchi pensou, dizendo rapidamente que faltava um padrão. Sim, Capiberibe concordou, mas por que o padrão estaria restrito às vítimas? Ele poderia manter um padrão que estaria vinculado a si próprio, e além disso...
O Delegado não esperou que seu velho companheiro concluísse. Ele próprio gritou, atraindo todas as atenções para sua mesa. Faltava o desafio! Ele nos desafiou! Era esse o desafio!
Os velhos policiais olharam todos para Gnocchi. E ele então fez uma pergunta que transformou a quase-gargalhada coletiva em um silêncio vergonhoso. Todos se sentiriam culpados.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE VII de VIII Silêncio. Na "Esquina da Coxinha" a gritaria era um padrão. Naquele instante, porém, havia o contrário. O Delegado Gnocchi perguntou se não tinham, todos ali presentes, passado pela experiência de algum maluco confessar vários crimes, mas de terem-no liberado pelo fato de que tinha muitos álibis, e se tratar presumivelmente de alguém com pouco juízo.
Perguntou quantas vezes haviam checado com precisão sua identidade, e não somente o vínculo de tal identidade com os crimes. Perguntou se todos não haviam gargalhado desse louco.
Um falou que era normal, que todo mês alguém confessava algum crime, principalmente crimes que apareciam na televisão. Gnocchi concordou, mas disse que queria saber sobre outro maluco, aquele que confessa com detalhes vários homicídios que receberam pouco ou nenhum destaque pela imprensa. Detalhes que apenas profissionais conhecem.
Alguns disseram que não, mas a maioria concordou. Ele então descreveu fisicamente o tal "maluco". Alto, magro, branco... Para seu espanto, porém, não se tratava sempre de um mendigo. Um gritou "passou um médico assim pela delegacia faz anos", outro disse que era um advogado. Professor, mecânico, jogador de vôlei. E mendigo.
Sempre a mesma coisa: confessava os homicídios, mas a identidade era limpa, não tinha ficha. Em alguns casos, pediam os documentos e checavam; noutros, nem mesmo isso, apenas mandavam-no embora.
O desafio era aquele. Policiais driblados, todos incapazes de encontrá-lo. Para piorar, seu último crime provavelmente seria aquele do Manicômio. Ou não. Seria impossível saber.
Não se falou mais nesse assunto. Todos sentiam culpa, mas também sentiam culpa por uma porção de outras coisas. Poderia ser uma grande coincidência, e ninguém estaria disposto a revirar todos os arquivos da cidade atrás de crimes sem culpados.
Nem Isaías ou Capiberibe fariam aquilo. Caso encerrado.
O ASSASSINO DESACREDITADO - PARTE VIII e FINAL Como em todas as terças-feiras, Gnocchi e Capiberibe jogavam sinuca na região de Pinheiros, no Salão Nobreza Paulistana, cuja freqüência era exatamente o inverso do sugerido pelo nome.
Como em todas as terças-feiras, Capiberibe batia nas costas de seu antigo chefe, sugerindo que na semana seguinte teria mais sorte.
Na saída desta última terça-feira, eles se depararam com um automóvel parado na outra guia. O vidro da janela do motorista estava aberto, e este sorria. O riso de quem venceu o desafio.
Saiu rapidamente; o veículo estava sem a placa traseira. Os dois jamais se esqueciam de uma fisionomia, mesmo depois de anos, mesmo sem a barba e o cabelo comprido.