Cena 1 - 2010
Ele está parado no aeroporto, na frente do portão de desembarque.
* * *
Cena 2 - 1994
Ele apanha o violão e arranha alguma coisa incompreensível. Começa a cantar algo também incompreensível.
(amigo)
- Que porra é essa?
(ele)
- Uma música.
(amigo)
- Não, cara! Isso não é uma música. Mas nem fodendo! Você está arranhando essa merda de violão e não tá cantando nada.
Dito isso, o amigo lhe toma o violão e toca de verdade. Ele acende um cigarro enquanto o amigo toca. Com um pouco de má-vontade, e uma voz muito rouca, resolve cantar. O amigo toca bem, mas não sabe cantar nada.
* * *
Cena 10 - 2002
Ela está feliz da vida com a Faculdade, o namorado, a vida e tudo mais. Ela escreve alguns poemas, mas não os mostra a ninguém.
* * *
Cena 28 - 2007
Ele e ela estão nus, numa cama, ambos sentados. Ele toca uma música no violão, diz que ninguém nunca tinha ouvido aquela música. Ela chora. A letra daquela música tem as mesmas palavras do poema que ela escreveu e nunca mostrou para ninguém.
* * *
Cena 37 - 2008
Há tempos não se vêem, nem mesmo se falam. Não se comunicam nem mais por escrito. A vida continua. Flashes da vida de ambos.
* * *
Cena 43 - 2010
Ele está na frente do portão de desembarque, no aeroporto, esperando por ela. De repente, forma-se um tumulto na saída; muita gente, gritaria, a loucura de sempre, como acontece em todos os aeroportos.
Sem que ele percebesse, ela chega por trás, tapa seus dois olhos e faz a mais óbvia das perguntas, de uma forma tão linda que transforma esse momento infame em algo lindo:
(Ela)
- Adivinha quem é?
(Ele)
- Ah... Tenho quantas chances?
(Ela)
- Quantas quiser. Pra sempre...
Ela tira as mãos dos olhos dele; ele se vira e ambos se beijam. A bagagem fica no chão, as pessoas continuam passando e gritando, a câmera se afasta.
* * *
Após ler o roteiro, o diretor deu uma gargalhada:
- Quem vai se interessar por isso? - ele fala e balança o calhamaço de papel.
- Mas você chegou a ler tudo...?
- Umas partes. E foi o bastante. Isso aqui é uma merda...
- Tem final feliz! Você queria final feliz!
- Eu não gostei, ok? Reescreva tudo.
- Não posso.
- Como não pode?
- Não posso, ué.
- Ih, vai começar com isso de novo? Claro que pode! Você tem medo de mudar isso aqui, né?
- Medo? Não. Mudar é moleza. Difícil é deixar assim.
- Que seja. Mas trate de mudar essa merda.
- Não, não vou mudar.
- Então esquece, ok? Isso nunca vai virar filme!
- Ainda bem.
O diretor leva as duas mãos à testa, balança a cabeça negativamente e acaba cedendo:
- Vamos fazer outra história? O que você acha? Vamos falar a verdade, cara, você não é bom em historinha de amor...
- Pois é... Falei isso desde o começo.
- O que faremos? Humor? Ação?
- Sei lá. Fala o que você quer, dê mais ou menos uma idéia, amanhã eu volto com o rascunho. Como nos velhos tempos. Daí você xinga daqui, elogia de lá, eu mudo, depois de amanhã já temos o argumento. Sempre foi assim.
- É, é... Sei como é.
- Então é isso. Eu tenho uma idéia.
- Qual?
- Um cara muda de identidade, sei lá, tá fugindo da polícia, tá querendo entrar em algum país, enfim, muda de identidade. E então descobre que alguém passou a usar a sua verdadeira identidade...
- Sei, sei...
- E a coisa não pára aí: o cara começa a praticar uns crimes e tal, então o cara acaba indo atrás do vigarista e o mata...
- Hm...
- Veja bem: ele vai preso por matar a si mesmo! O cara morre queimado, alguma coisa assim. Tem uma porrada de testemunha e ele vai preso por ter matado o cara que era ele próprio. Entende o drama?
- É, é legal. Dá pra trabalhar isso. Mas não é comédia, né? Parece meio "kafka".
- Ah, cabe um monte de piada aí...
- Cabe, cabe. Mas faz como se fosse um drama. Vamos tentar. Qualquer coisa, amanhã mudamos tudo.
- Tudo bem. Vai ficar legal. Estou empolgado de verdade!
- Tá certo, tá certo... Mas aquela de amor lá, não tem jeito mesmo? Você não muda?
- Não tem como, cara. Você sabe disso.
- É, eu sei... Eu sei. Tudo bem, vamos com essa nova aí, essa parece boa. E chega dessas tentativas de amorzinho, né?
- É fácil falar.
Ele está parado no aeroporto, na frente do portão de desembarque.
* * *
Cena 2 - 1994
Ele apanha o violão e arranha alguma coisa incompreensível. Começa a cantar algo também incompreensível.
(amigo)
- Que porra é essa?
(ele)
- Uma música.
(amigo)
- Não, cara! Isso não é uma música. Mas nem fodendo! Você está arranhando essa merda de violão e não tá cantando nada.
Dito isso, o amigo lhe toma o violão e toca de verdade. Ele acende um cigarro enquanto o amigo toca. Com um pouco de má-vontade, e uma voz muito rouca, resolve cantar. O amigo toca bem, mas não sabe cantar nada.
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Cena 10 - 2002
Ela está feliz da vida com a Faculdade, o namorado, a vida e tudo mais. Ela escreve alguns poemas, mas não os mostra a ninguém.
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Cena 28 - 2007
Ele e ela estão nus, numa cama, ambos sentados. Ele toca uma música no violão, diz que ninguém nunca tinha ouvido aquela música. Ela chora. A letra daquela música tem as mesmas palavras do poema que ela escreveu e nunca mostrou para ninguém.
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Cena 37 - 2008
Há tempos não se vêem, nem mesmo se falam. Não se comunicam nem mais por escrito. A vida continua. Flashes da vida de ambos.
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Cena 43 - 2010
Ele está na frente do portão de desembarque, no aeroporto, esperando por ela. De repente, forma-se um tumulto na saída; muita gente, gritaria, a loucura de sempre, como acontece em todos os aeroportos.
Sem que ele percebesse, ela chega por trás, tapa seus dois olhos e faz a mais óbvia das perguntas, de uma forma tão linda que transforma esse momento infame em algo lindo:
(Ela)
- Adivinha quem é?
(Ele)
- Ah... Tenho quantas chances?
(Ela)
- Quantas quiser. Pra sempre...
Ela tira as mãos dos olhos dele; ele se vira e ambos se beijam. A bagagem fica no chão, as pessoas continuam passando e gritando, a câmera se afasta.
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Após ler o roteiro, o diretor deu uma gargalhada:
- Quem vai se interessar por isso? - ele fala e balança o calhamaço de papel.
- Mas você chegou a ler tudo...?
- Umas partes. E foi o bastante. Isso aqui é uma merda...
- Tem final feliz! Você queria final feliz!
- Eu não gostei, ok? Reescreva tudo.
- Não posso.
- Como não pode?
- Não posso, ué.
- Ih, vai começar com isso de novo? Claro que pode! Você tem medo de mudar isso aqui, né?
- Medo? Não. Mudar é moleza. Difícil é deixar assim.
- Que seja. Mas trate de mudar essa merda.
- Não, não vou mudar.
- Então esquece, ok? Isso nunca vai virar filme!
- Ainda bem.
O diretor leva as duas mãos à testa, balança a cabeça negativamente e acaba cedendo:
- Vamos fazer outra história? O que você acha? Vamos falar a verdade, cara, você não é bom em historinha de amor...
- Pois é... Falei isso desde o começo.
- O que faremos? Humor? Ação?
- Sei lá. Fala o que você quer, dê mais ou menos uma idéia, amanhã eu volto com o rascunho. Como nos velhos tempos. Daí você xinga daqui, elogia de lá, eu mudo, depois de amanhã já temos o argumento. Sempre foi assim.
- É, é... Sei como é.
- Então é isso. Eu tenho uma idéia.
- Qual?
- Um cara muda de identidade, sei lá, tá fugindo da polícia, tá querendo entrar em algum país, enfim, muda de identidade. E então descobre que alguém passou a usar a sua verdadeira identidade...
- Sei, sei...
- E a coisa não pára aí: o cara começa a praticar uns crimes e tal, então o cara acaba indo atrás do vigarista e o mata...
- Hm...
- Veja bem: ele vai preso por matar a si mesmo! O cara morre queimado, alguma coisa assim. Tem uma porrada de testemunha e ele vai preso por ter matado o cara que era ele próprio. Entende o drama?
- É, é legal. Dá pra trabalhar isso. Mas não é comédia, né? Parece meio "kafka".
- Ah, cabe um monte de piada aí...
- Cabe, cabe. Mas faz como se fosse um drama. Vamos tentar. Qualquer coisa, amanhã mudamos tudo.
- Tudo bem. Vai ficar legal. Estou empolgado de verdade!
- Tá certo, tá certo... Mas aquela de amor lá, não tem jeito mesmo? Você não muda?
- Não tem como, cara. Você sabe disso.
- É, eu sei... Eu sei. Tudo bem, vamos com essa nova aí, essa parece boa. E chega dessas tentativas de amorzinho, né?
- É fácil falar.
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