Quinta-feira, Outubro 25, 2007

QUASE ANTES DE MORRER

Não, não passa um filme com a história de nossas vidas. É mentira, e isso perde boa parte do sentido quando pensamos naqueles que morriam antes da invenção do cinema. O que passaria em suas cabeças? Fotografias? Pinturas? Imagens reais? Nada.

Pouco antes de morrer, não pensamos em coisa alguma. Apenas ficamos tristes e com medo. Mais nada. Não há filme, nem a tal "forte luz branca". Não há antepassado ou ente querido já finado que nos recebe em qualquer lugar. Nada.

Um pouco antes de morrer, quando sabemos de nossa própria morte, esquecemo-nos de pensar. Somos o avesso da razão, o inverso do raciocínio, o oposto de qualquer idéia. Somos o instinto de não morrer, a vontade primitiva de viver. E, talvez, quando muito, um pouco de arrependimento.

E, depois de morrer, simplesmente não somos. Fomos.

O resto é coisa inventada pra vender livro, enriquecer os que pregam e tornar mais idiotas os cordeiros em geral. O resto é ficção criada para tornar bonito e épico o que é apenas natural e desprovido de beleza ou feiúra.

Morrer é triste. E só.

Mas é claro que há uma outra explicação para isso tudo. Talvez o filme de minha vida não passou em razão do horário, tendo em vista os prováveis problemas que teria com a censura.

E meus parentes mortos eram todos céticos demais para dar o braço a torcer - mesmo depois de finados. Eles jamais me receberiam onde quer que fosse; e fariam isso só por birra.

Quanto à tal luz... Bom... Fazendo agora um rápido balanço dos meus atos de "ser vivo", é bem improvável que, depois de morto, eu vá para os lugares míticos mais iluminados.

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