Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

O MOÇO DOUTRINADOR E A SAGAZ MOCINHA

Eles estão deitados na cama; ela lendo, ele aparentemente pensativo.

- Tava pensando aqui... - diz ele.

- Ih, lá vem! - ela nem chega a tirar os olhos do livro.

- É sério! Juro!

- Ai, ai... - visivelmente contrariada, ela coloca o livro sobre o criado-mudo. Ele havia acabado de contar uma piada péssima, e ela temia por outra anedota.

- Seguinte: você me ama?

- Olha... Poucas vezes vi alguém fazer tanto suspense antes de uma pergunta retórica, viu?

- É sério! Faz parte da teoria.

- Hmm... Teoria!

- Sim, sim! Ouso dizer: tese!

- Tá, então vamos lá, doutrinador! Sim, eu te amo.

- Pois bem. Eu também te amo!

- Gostei da tese. Você pretende publicá-la em alguma revista científica ou apenas tatuá-la no ombro direito?

- Calma, pô! Presta atenção!

- Ok, ok...

- Promete não me interromper? Ainda que você considere engraçado, mesmo que tenha vontade de rir, enfim, promete?

- Olha... Prometer, não prometo. Mas, vamos lá! Diga qual é a teoria... ops! a TESE misteriosa!

- Seguinte... Todo mundo já deve ter pensado pelo menos uma vez na vida em quão difícil é viver um amor recíproco. Porque isso - aparentemente trivial - envolve um sem-número de variáveis...

- Hm... - ela parece atenta. Ele prossegue:

- Vamos do começo: você e eu resultamos de uma corrida de milhões de espermatozóides e, além disso, tivemos a sorte de fazer parte justamente da ejaculação que deu certo...

- (ela abafa uma risada)

- ...você prometeu!

- Tá, tá... Mas é que a "ejaculação que deu certo" foi foda, né? Mas continua...

- Então... Havia bilhões de chances de nenhum dos dois NEM TER NASCIDO. Daí, temos as variáveis pós-nascimento: viver até esta idade, pois muita gente morre antes!, e um conhecer o outro na hora certa, coincidir um mesmo momento no espaço e no tempo, veja bem...

- Espaço/tempo! Uau... Continua!

- Viu só? Esse negócio de "eu te amo, eu te amo" parece trivial, e damos à frase, mesmo quando há amor recíproco, uma certa vulgaridade. Mas você tem idéia do quanto é difícil, do quanto é quase impossível viver um amor assim tão verdadeiro?

- Olha, posso falar?

- Ué, claro que pode!

- Você abordou vários temas aí. Eu daria notas baixíssimas em matemática, em especial no quesito "probabilidades", e seguramente o reprovaria em biologia, geografia humana e, já que falou em espaço/tempo, também ficaria de segunda época em física...

- Poxa!

- Mas é nota dez em lindeza!

Como sempre, ela deixa a ironia superficial de lado e dá vez ao amor que há por baixo disso. E, nessa noite, não mexe mais no livro.

No dia seguinte, pela manhã, ela tenta acordá-lo:

- Acorda aí, mocinho! Sabe qual a chance de alguém dormir e não acordar mais, ou mesmo de acordar em outra dimensão, ou de acordar transformado em barata, ou ainda envelhecer mil anos durante o sono?

Ele abriu apenas um olho:

- Toooda engraçadinha! Eu não sei a chance disso aí, não. Mas sei o quanto é difícil ser acordado pela mulher da minha vida. E o quanto é bom.

- Ah, você é um filho da puta com esses galanteios de segunda! Mas eu te amo!

E assim, pela manhã, continuaram. Como sempre.

3 comentários:

Ni - Ana Eliza disse...

as probabilidades de viver algo recíproco são pequenas, se pensarmos na matempatica da coisa....mas se olharmos em volta, até que tem mta gente amando e sendo amada por aí.
mas eu continuo achando isso tudo fantásico!
=*

Ana disse...

Hummmm... E a fase "Gravata Emo" continua... E quer saber? Eu tô adorando isso!
Sabe o que é engraçado? É ver você em ambos os personagens, trocando de lugar, ora sendo ele, ora sendo ela... Ora sendo os dois, ao mesmo tempo... Sabe qual a probabilidade disso acontecer?
rs ;-)
Beijos,
Ana.
www.mineirasuai.blogspot.com

AnGel disse...

ótimo!