Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

PERSONAGEM DE SI PRÓPRIO

A platéia aguarda com certa ansiedade o convidado dessa noite. Ele já foi anunciado duas vezes, inclusive com propaganda na TV... Mas, se ele faltar, não terá sido a primeira vez e provavelmente nem a última.

O apresentador termina as piadas de sempre, faz algum suspense, imita personagens clássicas do velho ator que está para ser anunciado e então diz seu nome:

- OTÁVIO GOMES TENÓRIO!

Ele entra emburrado, como se a entrevista fosse a contraprestação para, vá lá, salvar sua mãe de uma sentença de morte. Apesar da cara fechada, cumprimenta o apresentador com um abraço. Ainda assim, não sorri.

- Gostaria de agradecer demais sua presença! - elogia o apresentador.

- ... - ele esboça um sorriso que não poderia ser mais falso.

A platéia ri. Seguramente, os que vêem de casa também estão rindo.

- É impressionante esse controle que você tem sobre as platéias, Otávio... - elogia o apresentador, sempre bajulando os convidados. E continua - Pouca gente tem esse talento. Você deu aí, sei lá, um olhar... E olha, todos riem!

- É claque - ele responde em tom seco.

Gargalhadas gerais. Nas casas, todos riem. O apresentador bate com as mãos sobre a mesa, em uma risada aparentemente ensaiada.

- Otávio, diga para mim... Para nós, né? Afinal, você nunca dá entrevista... Essa é sua primeira...

- Sim, a primeira. Em quarenta anos de carreira!

- Pois é... Você pode imaginar a honra que é ter você por aqui... Diga para nós, portanto, talvez aquilo que todos gostaríamos de saber: como é ser personagem de si próprio? Até que ponto é o Otávio, até que ponto vão as personagens...

- Ninguém conhece minha vida privada... Ninguém sabe como sou. Vocês conhecem as personagens, conhecem essas declarações em porta de cinema, sei lá, ninguém nunca me ouviu falar. Como é que eu mesmo seria uma personagem cuidadosamente ou não tão cuidadosamente interpretada?

- Ah, sim... Claro... Mas é que existe todo um mito, né?

- Olha, ainda bem que você falou. Ainda bem. Eu acho que está na hora de falar sobre esse "mito". Parece um pouco arrogante dizer algo sobre isso, mas já li tanta bobagem nas mais variadas revistas... É, tá na hora de falar a esse respeito. Eu sou muito mais grato de estar aqui do que você por ter-me recebido. Pode apostar. Porque o público não sabe de nada, entendeu? O público não faz idéia de quem eu seja. Vêem aqueles filmes antigos, os palavrões... Eu mandando um à merda, falando que o outro precisa tomar no cu, ou fazendo papel de pinguço, mas ninguém faz a menor idéia da pessoa que eu sou. Isso eu escolhi porque não acho que devam saber, mas nos dias de hoje talvez seja mais adequado abrir o jogo de uma vez, porque pelo menos evitam essa coisa do mito...

- Pois é, e sobre isso eu...

- Por favor, eu gostaria que você não me interrompesse, se não eu simplesmente vou embora. Não quero aqui parecer prepotente nem ter chiliques em seu programa, mas já que pediram tanto para eu vir, gostaria de falar até o fim sobre isso do mito. Pode ser?

- Nossa, claro. Mas é claro... - o apresentador mostra-se constrangido, mas ao mesmo tempo franze a testa como se prestasse atenção.

- Muito obrigado. O negócio é o seguinte: vocês falam aí que eu saí com a fulana, comi a beltrana, que sou o fodão do cinema nacional, que sou um mito... Isso é bobagem, entende? Bobagem. Isso não é nada, isso não quer dizer nada. Eu sei que isso vai depor contra mim, porque de certa forma é essa fama estranha que faz entrar algum dinheiro lá em casa. Mas me incomoda ser visto como um grande vencedor e, na realidade, ser talvez o inverso disso. Eu não sou o eterno solteirão por malandragem. Sou assim porque eu só tive uma história de amor na minha vida, e ela não deu certo. Eu consegui estragar a única coisa realmente verdadeira da minha vida...

- Taí, é uma revelação... - interrompe o apresentador

Otávio olha feio, finge que não notou essa interrupção, e prossegue

- Eu hoje tenho 65 anos, e mais da metade da minha vida eu passei numa grande simulação. Vocês sabem o que é isso? Eu não sou uma personagem, mas sou - sim - a pessoa que vive numa simulação, num simulacro. Mais ou menos como se eu fosse personagem coadjuvante no filme de minha própria vida. Eu já trepei com muita mulher famosa, mesmo. E daí? Eu fiz isso ao longo de todos esses anos, vivendo no simulacro, quando o que eu mais queria era ter uma vida a dois com a única mulher que eu amei nessa vida. Será que daria certo? Não sei. Nem ela sabe. Ela pode dizer que não, eu posso dizer que sim. Nunca saberemos, vai ser sempre uma coisa especulativa. Eu não a vejo há várias décadas, ela talvez esteja me vendo pela TV, ou talvez não, sinceramente não sei. Eu sou o "famoso", ela é mais uma na multidão. Mas ela é feliz, e eu sou essa pessoa amarga, cujo azedume vocês todos - burros! - confundem como alguma coisa mais ou menos orquestrada para parecer marketing pessoal ou coisa que o valha. Convenhamos: é burrice de vocês. Tudo bem que, aqui, eu sou o grande desgraçado. Mas vocês são os burros. Eu sou o infeliz, e vocês os desinformados. E assim seguimos nesse teatrinho, sei lá, nesse filminho idiota que vocês decidiram que é a minha vida. Um filminho cujo roteiro não tem a mínima aproximação com o mundo real. Uma história que eu aceitei "viver", ainda que aparentemente. Mas agora chega. Não, eu não sou feliz. Não, eu não sou o "comedor". Não, eu não sou personagem de porra nenhuma. Eu sou só um desgraçado, um filho da puta que soube o que era ser feliz por, sei lá, um ano, um ano e meio. E de lá pra cá apenas vive dessa lembrança. E nem adianta eu dar uma de coitado: tudo deu errado por culpa minha. Sou tão desgraçado que consigo ser vítima e algoz ao mesmo tempo. Não tenho um inimigo para eleger. Essa é a pessoa que eu sou. Não há personagem. É isso.

O apresentador permanece quieto. Assim como a platéia. Otávio se senta, apanha um copo d'água e finge que não fez um discurso absolutamente inédito em toda a televisão brasileira. Está lá, calmo, esperando mais uma pergunta.

- Vai, porra! Pergunta agora!

É a deixa. Todos caem na gargalhada. O apresentador solta sua respiração, a platéia desaba em risos e gritos. Em meio a todos esses gritos, o apresentador diz:

- É um artista! Um artista! Monólogo de improviso! Onde é que já se viu? É um gênio! Que texto é esse? Um gênio! Otávio Gomes Tenório!

A entrevista prossegue com trivialidades, e o carrancudo Otávio é flagrado quase esboçando um sorriso. Perguntas bobas, respostas mal-humoradas, risos, gargalhadas. Assim foram os três blocos.

* * *

Otávio é acordado com um telefonema. Nem sabe o que dizer. Fica em dúvida entre xingar ou ignorar. Atende quieto e assim permanece, sobretudo após ouvir aquela voz. Aquela! A voz dela...

- Você me espera?

Ele fica quieto. Dá a primeira risada sincera em tantos anos, e começa a chorar copiosamente.

- Eu não fiz outra coisa durante esse tempo.

- Só mais um pouco, meu amor.

Eles desligam. Otávio Gomes Tenório finalmente pode aposentar a personagem coadjuvante de sua própria vida, para vivê-la de uma vez, como protagonista. Ou melhor: tudo agora deixa de ser um filme.

Ele está feliz.

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