I
O promotor John William McPhillip, John Will, famoso por suas dezenas de condenações, está agora em um apartamento sujo, no centro de Houston, Texas, olhando para uma parede com fotos de 25 pessoas que ele condenou.
Não há tempo para mais nada. A polícia arromba a porta, John se joga para o chão com as mãos para cima, cai de cara e se machuca. A multidão de policiais invade o apartamento aos berros.
II
John William foi preso em flagrante e está encarcerado há uma semana. Seu pedido de fiança não foi deferido e essa é talvez a décima conversa que ele tem com Jeff sobre o mesmo assunto. E com as mesmas perguntas.
- Jeff... Você me conhece...
- Por favor, John. Me ajuda a te ajudar. O que você fazia ali?
- Eu recebi uma ligação. Por favor, verifique meu celular! Eu recebi uma ligação e fui para lá. Uma pessoa disse que precisava de mim, que tinha um depoimento importante sobre o caso "Mendoza"...
- Tudo isso você já disse, John. E, realmente, seu celular recebeu uma chamada. Mas todo celular de todo mundo recebe "uma chamada", entende? As provas contra você são horríveis. Por favor, John...
- Que provas, Jeff? Que provas? O que eu fiz de errado, afinal?
Desta vez, talvez em nome da consideração que sempre teve com o promotor, talvez por acreditar que haja ali alguma possibilidade de inocência, ou mesmo por supor que assim poderia vir alguma confissão, Jeff Smith resolveu ligar os pontos para John.
- Imagino que você saiba. Mas vou elucidar o que você faz parecer um "mistério". Você viu aquelas 25 fotos, não viu? Sabe quem são aquelas 25 pessoas?
- Sim, claro que sei! Todas cometeram crimes horríveis e eu as condenei. Todas estão mortas.
- Pois bem, John. O velho Steve, que não está mais entre nós, costumava dizer aqui no distrito que todo assassino tem uma assinatura, mesmo aquele que só mata uma vez. E faltava algo para aquelas pessoas...
- O que faltava?
- Uma assinatura, John...
- Uma "assinatura"? Que raio de argumento é esse? Eles tinham motivo, tinham impressões digitais, tinham provas mil, tinham tudo nas cenas do crime. E não tinham nem um mísero álibi! Você está em busca de qual "assinatura"?
- John, John... Assim fica difícil. Mas vamos lá: você sabe o que encontramos naquele apartamento, além das fotos?
- Não, não tenho a menor idéia. Vocês chegaram cinco minutos depois de mim. E há vizinhos ali para provar isso!
- Sim, eu sei... Eu sei que NESTE DIA chegamos apenas cinco minutos depois de você.
- Então me diga. O que acharam?
- Diários, John. Três cadernos; dois cheios, um pela metade...
- Então é só pedir um exame grafotécnico e...
- John! Por favor... Assim nós dois não vamos avançar nunca. Os cadernos continham páginas datilografadas. A máquina estava lá no próprio apartamento.
- Que diários são esses, Jeff?
- De novo, lá vou eu... Você não sabe, né? Então vamos lá... São diários de quem cometeu todos os 25 crimes que TERIAM SIDO COMETIDOS por aquelas pessoas.
- Como assim?
- Isso mesmo, John. Você condenou 25 pessoas inocentes. Não tão "inocentes", é verdade, já que elas todas tinham um passado péssimo. Mas essas condenações seguramente fizeram de você um verdadeiro herói. Ninguém atingia sua marca.
- Que história é essa???
- Sabe como chegamos lá naquela casa? Por uma ligação anônima. Feita de um telefone público lá da rua. Alguém que seguramente já tinha notado movimentos suspeitos por ali. E você foi pego.
- Por que eu?
- Porque os textos são seus! Obviamente, sem estilo algum, tudo muito impessoal e frio. Mas é você, John William, o célebre promotor, quem relata tudo. Não apenas como cometeu os crimes, mas também como conseguiu condenar os suspeitos...
- Isso é paranóia pura, Jeff! Eu não posso permanecer detido por conta dessa tremenda conspiração descabida! Eu não matei ninguém.
- Sinceramente? Eu até acredito. Ou, mais ainda, eu adoraria acreditar. Mas fizemos um retrospecto de todos os casos e, meu caro... Tudo bate. É inequívoco que uma mesma pessoa cometeu todos aqueles crimes. E quem ganharia com isso?
- Quem? Eu? Desde quando? Acha que foi fácil montar aquelas ações? Acha que eu aceitaria condenar alguém sabendo de sua inocência?
- Não sei de nada disso, John. Mas espero que voltemos a conversar e que você fale algo além dessa mesma lengalenga. Precisamos avançar nesse caso. Os peritos não param. Uma confissão, agora, seria muito melhor do que uma prova forense irrecorrível...
- Eu não fiz nada, Jeff. Não espere que eu "confesse" algo que não cometi.
III
Jeff está no meio de uma discussão com o Dr. Cooper, da perícia. Parece que sua investigação não vai bem.
- Como assim, Cooper? Como assim???
- É isso mesmo, Jeff! Há várias impressões digitais naquela casa e não são de John William.
- Então alguém faria isso para incriminá-lo? Mas que loucura é essa?!?
- Você aceita palpite? Se aceita, eu digo o seguinte: alguém parece ter armado para o velho John.
- Quem?
- Não tenho um palpite para isso...
Jeff tem agora algumas perguntas sem resposta e uma espécie de "resposta sem pergunta". Afinal, não há como manter John William preso.
IV
- O que você sabe sobre Carl Menutti?
Jeff pergunta para John, que foi liberado há duas semanas, mas acaba de ser chamado novamente, pois o investigador finalmente tem novas evidências.
- Como assim? Isso é uma piada?
- Não, John. Eu acredito agora na sua inocência e preciso saber quem seria o filho da puta por trás disso tudo.... que, aliás, armou para você!
- Jeff... Eu não paro de pensar nisso. Mas pode ser todo mundo, pode não ser ninguém.
- E pode ser Carl Menutti!
- Menutti? Impossível...
- É? Por quê?
- Ele é meu colega de Promotoria. Ele não teria nem intelecto para cometer esse tipo de crime. Aliás, achei lisonjeiro - apenas quanto a isso - que vocês tenham apostado em mim. Levei como um elogio intelectual...
- Não temos tempo para brincadeiras, John. Eu tenho provas aqui, por enquanto apenas circunstanciais, que colocam Carl Menutti no olho desse furacão.
- Que provas, Jeff? Que provas?
- Você está mesmo preparado?
- Sim, claro. Diga.
- Ele e sua mulher têm um caso. Há dez anos!
John permanece calado, atônito. Jeff prossegue.
- Me desculpe dizer assim, de bate-pronto. Mas era o único jeito. Ele tem motivo. Mas como checar os álibis de alguém durante esse tempo todo?
- Jeff, eu...
- Não diga nada, John. Eu apenas contei isso porque cedo ou tarde a merda toda voa para os jornalistas. E em nome de nossa amizade, principalmente em nome da putaria que fizeram com você, eu acho que te devo essa...
- Certo... Não sei o que dizer.
- Mas eu sei o que fazer. Vou comparar as impressões digitais de Menutti com aquelas encontradas no apartamento. Inclusive algumas delas foram tiradas da velha Remington.
V
O convidado desta noite do programa de entrevistas "Malone" é ninguém menos que o investigador Jeff Smith, que falará sobre a surpreendente prisão de Carl Menutti num caso que deu várias reviravoltas.
- Tem certeza que me perdoa? - diz Madeleine, olhando para seu marido, John William, que por sua vez não tira os olhos da TV, aguardando o início do programa.
- Você sempre faz a mesma pergunta... - ele então responde de forma propositalmente retórica.
- Sim, meu amor. Eu perdôo... Mas não esqueço.
- Queria que fosse possível esquecer.
- Olha, Maddy - John demonstra alguma ternura - Eu também queria. Mas agora vamos ver o programa. Até agora não entendi ao certo como tudo isso aconteceu. Nem o que aconteceu, aliás.
Ambos olham para a TV.
O apresentador faz um resumo rápido da carreira de Jefferson Smith, que começou como patrulheiro e hoje é seguramente o policial mais conhecido de todo o Texas. Após a apresentação bem elogiosa, ele faz a pergunta já esperada, com o propósito de fazer o entrevistado discorrer e esmiuçar o caso que abalou todo o país.
- O que houve, afinal? Como foi possível prender o ex-promotor auxiliar Carl Menutti?
- Devo isso ao velho John William. Sou obrigado a, antes de tudo, falar sobre o homem que foi preso por engano, num ardil tramado por Menutti, e que quase pagou por dezenas de assassinatos...
- Entendo, entendo...
- Foi minha confiança em John que me fez pensar. E então fui atrás de quem teria algum motivo para ferrá-lo... Opa! Me desculpe, não queria usar essa linguagem do distrito...
- Não há problema, já é tarde da noite Jeff. E, cá entre nós, você pode usar uma ou outra palavrinha fora de contexto. Aproveite...
Risadas gerais. Jeff continua:
- Essas coisas geralmente envolvem sexo ou alguma coisa sórdida, infelizmente. E, para salvar John da cadeia, tive que expor sua vida íntima, descobrindo um caso de infidelidade conjugal... Sua esposa, Madeleine, vinha mantendo uma história com Carl havia dez anos!
- Dez anos...
- Sim... Um bom tempo. E apreendemos correspondências nas quais Menutti diz que pretende ajeitar tudo. Entende? "Ajeitar" tudo... E que ele se casaria com Madeleine, que John William deixaria de ser um obstáculo.
- Impressionante, Jeff...
- Sim, todos ficamos chocados. Mas isso, somente isso, não forma um conjunto probatório razoável. Foi quando descobrimos que as impressões digitais do lugar eram do próprio Carl Menutti. E mais: ele não tinha álibi algum para a hora da misteriosa ligação anônima que "denunciou" John William.
- Como foi isso?
- Por certo, deveríamos ter desconfiado. Porque, veja bem: John entra no apartamento. E em coisa de dez minutos a polícia chega. Ele recebeu uma ligação de que haveria por lá uma boa pista sobre um caso. E ele próprio havia anotado em sua agenda - que permaneceu na promotoria - os dados daquele endereço.
- Armaram para ele...
- Armaram! Mas quem? Essa era a pergunta e, quando a respondemos, o caso se encerrou.
- E o que acontece agora com Carl Menutti.
- Aquele verme - e eu vou chamá-lo assim sem medo algum - permanecerá preso por um bom tempo... Ele jura honestidade. Todos juram, né?
- Por quanto tempo?
- O caso ainda vai a julgamento. Espero que a promotoria consiga uma punição exemplar.
- Mas e os assassinatos?
- Todos foram "normais". Não que haja algum assassinato "normal", não é? Mas aquele diário foi forjado. Tudo ali foi inventado para prejudicar o pobre do John.
- Impressionante!
- Mas naqueles diários, havia uma teoria conspiratória...
- É mesmo?
- Sim, acho que todos devem ter saber, mas não custa explicar melhor tudo isso. Segundo os textos datilografados, todas aquelas execuções foram equivocadas. Todas! E havia inclusive uma descrição minuciosa de como as provas foram plantadas: sangue, impressões, pegadas...
- E vocês acreditaram?
- Em princípio, devo confessar, levamos tudo isso a sério. Depois descobrimos que as folhas foram preparadas quase que no mesmo dia, e havia algumas inconsistências em vários casos. Além disso, nosso perito achou mais outras evidências, e tudo apontava para a inocência de John William.
- É, meu caro Jeff, essa é uma história triste que você ainda terá que repetir muitas vezes. Mas nós estamos felizes por ter um policial assim como você! Esse é Jeff Smith, o inves...
John desliga a televisão, Madeleine já está dormindo. Ele a acorda e ambos sobem para o quarto.
VI
Johnm no porão de sua casa, recorta uma notícia do jornal. Diz a manchete:
"Carl Menutti Condenado a 80 Anos de Prisão"
E mais:
"...os delitos, somados, não são considerados de altíssima gravidade, mas a punição exemplar foi uma vitória da promotoria em razão do fato de que todo esse caso abalou a opinião pública texana e também de todo o país..."
John cola o recorte num livro, não manifesta alegria ou tristeza. Nada. Cola, escreve algumas coisas abaixo do recorte colado e fecha aquilo que mais parece um imenso caderno de brochura.
Ele então abre um outro caderno como esse, também imenso, mas repleto de fotos. São cem, duzentos, trezentos rostos. Além das 25 da parede daquele apartamento, há centenas de fotos novas, todas assinaladas com um grande "x" vermelho, bem grosseiro.
Ao final desse livro, duas fotos ainda não estão demarcadas. John faz o "x" numa delas: Carl Menutti. E a outra, de sua esposa, permanece intacta.
Madeleine então o chama para o almoço. Ele guarda os dois livros em sua mochila; mais tarde os levará ao velho depósito de onde raramente saem. Após colocar a mochila sob sua mesa, ele sobe.
Mais uma vez, ela pergunta se ele perdoou. Mais uma vez ele diz que sim. E mais uma vez ela pergunta se ele já esqueceu. Ele, de novo, diz que não. Mas ele sorri, muito discretamente, quando ela vira de costas.
Ele não esqueceu.
O promotor John William McPhillip, John Will, famoso por suas dezenas de condenações, está agora em um apartamento sujo, no centro de Houston, Texas, olhando para uma parede com fotos de 25 pessoas que ele condenou.
Não há tempo para mais nada. A polícia arromba a porta, John se joga para o chão com as mãos para cima, cai de cara e se machuca. A multidão de policiais invade o apartamento aos berros.
II
John William foi preso em flagrante e está encarcerado há uma semana. Seu pedido de fiança não foi deferido e essa é talvez a décima conversa que ele tem com Jeff sobre o mesmo assunto. E com as mesmas perguntas.
- Jeff... Você me conhece...
- Por favor, John. Me ajuda a te ajudar. O que você fazia ali?
- Eu recebi uma ligação. Por favor, verifique meu celular! Eu recebi uma ligação e fui para lá. Uma pessoa disse que precisava de mim, que tinha um depoimento importante sobre o caso "Mendoza"...
- Tudo isso você já disse, John. E, realmente, seu celular recebeu uma chamada. Mas todo celular de todo mundo recebe "uma chamada", entende? As provas contra você são horríveis. Por favor, John...
- Que provas, Jeff? Que provas? O que eu fiz de errado, afinal?
Desta vez, talvez em nome da consideração que sempre teve com o promotor, talvez por acreditar que haja ali alguma possibilidade de inocência, ou mesmo por supor que assim poderia vir alguma confissão, Jeff Smith resolveu ligar os pontos para John.
- Imagino que você saiba. Mas vou elucidar o que você faz parecer um "mistério". Você viu aquelas 25 fotos, não viu? Sabe quem são aquelas 25 pessoas?
- Sim, claro que sei! Todas cometeram crimes horríveis e eu as condenei. Todas estão mortas.
- Pois bem, John. O velho Steve, que não está mais entre nós, costumava dizer aqui no distrito que todo assassino tem uma assinatura, mesmo aquele que só mata uma vez. E faltava algo para aquelas pessoas...
- O que faltava?
- Uma assinatura, John...
- Uma "assinatura"? Que raio de argumento é esse? Eles tinham motivo, tinham impressões digitais, tinham provas mil, tinham tudo nas cenas do crime. E não tinham nem um mísero álibi! Você está em busca de qual "assinatura"?
- John, John... Assim fica difícil. Mas vamos lá: você sabe o que encontramos naquele apartamento, além das fotos?
- Não, não tenho a menor idéia. Vocês chegaram cinco minutos depois de mim. E há vizinhos ali para provar isso!
- Sim, eu sei... Eu sei que NESTE DIA chegamos apenas cinco minutos depois de você.
- Então me diga. O que acharam?
- Diários, John. Três cadernos; dois cheios, um pela metade...
- Então é só pedir um exame grafotécnico e...
- John! Por favor... Assim nós dois não vamos avançar nunca. Os cadernos continham páginas datilografadas. A máquina estava lá no próprio apartamento.
- Que diários são esses, Jeff?
- De novo, lá vou eu... Você não sabe, né? Então vamos lá... São diários de quem cometeu todos os 25 crimes que TERIAM SIDO COMETIDOS por aquelas pessoas.
- Como assim?
- Isso mesmo, John. Você condenou 25 pessoas inocentes. Não tão "inocentes", é verdade, já que elas todas tinham um passado péssimo. Mas essas condenações seguramente fizeram de você um verdadeiro herói. Ninguém atingia sua marca.
- Que história é essa???
- Sabe como chegamos lá naquela casa? Por uma ligação anônima. Feita de um telefone público lá da rua. Alguém que seguramente já tinha notado movimentos suspeitos por ali. E você foi pego.
- Por que eu?
- Porque os textos são seus! Obviamente, sem estilo algum, tudo muito impessoal e frio. Mas é você, John William, o célebre promotor, quem relata tudo. Não apenas como cometeu os crimes, mas também como conseguiu condenar os suspeitos...
- Isso é paranóia pura, Jeff! Eu não posso permanecer detido por conta dessa tremenda conspiração descabida! Eu não matei ninguém.
- Sinceramente? Eu até acredito. Ou, mais ainda, eu adoraria acreditar. Mas fizemos um retrospecto de todos os casos e, meu caro... Tudo bate. É inequívoco que uma mesma pessoa cometeu todos aqueles crimes. E quem ganharia com isso?
- Quem? Eu? Desde quando? Acha que foi fácil montar aquelas ações? Acha que eu aceitaria condenar alguém sabendo de sua inocência?
- Não sei de nada disso, John. Mas espero que voltemos a conversar e que você fale algo além dessa mesma lengalenga. Precisamos avançar nesse caso. Os peritos não param. Uma confissão, agora, seria muito melhor do que uma prova forense irrecorrível...
- Eu não fiz nada, Jeff. Não espere que eu "confesse" algo que não cometi.
III
Jeff está no meio de uma discussão com o Dr. Cooper, da perícia. Parece que sua investigação não vai bem.
- Como assim, Cooper? Como assim???
- É isso mesmo, Jeff! Há várias impressões digitais naquela casa e não são de John William.
- Então alguém faria isso para incriminá-lo? Mas que loucura é essa?!?
- Você aceita palpite? Se aceita, eu digo o seguinte: alguém parece ter armado para o velho John.
- Quem?
- Não tenho um palpite para isso...
Jeff tem agora algumas perguntas sem resposta e uma espécie de "resposta sem pergunta". Afinal, não há como manter John William preso.
IV
- O que você sabe sobre Carl Menutti?
Jeff pergunta para John, que foi liberado há duas semanas, mas acaba de ser chamado novamente, pois o investigador finalmente tem novas evidências.
- Como assim? Isso é uma piada?
- Não, John. Eu acredito agora na sua inocência e preciso saber quem seria o filho da puta por trás disso tudo.... que, aliás, armou para você!
- Jeff... Eu não paro de pensar nisso. Mas pode ser todo mundo, pode não ser ninguém.
- E pode ser Carl Menutti!
- Menutti? Impossível...
- É? Por quê?
- Ele é meu colega de Promotoria. Ele não teria nem intelecto para cometer esse tipo de crime. Aliás, achei lisonjeiro - apenas quanto a isso - que vocês tenham apostado em mim. Levei como um elogio intelectual...
- Não temos tempo para brincadeiras, John. Eu tenho provas aqui, por enquanto apenas circunstanciais, que colocam Carl Menutti no olho desse furacão.
- Que provas, Jeff? Que provas?
- Você está mesmo preparado?
- Sim, claro. Diga.
- Ele e sua mulher têm um caso. Há dez anos!
John permanece calado, atônito. Jeff prossegue.
- Me desculpe dizer assim, de bate-pronto. Mas era o único jeito. Ele tem motivo. Mas como checar os álibis de alguém durante esse tempo todo?
- Jeff, eu...
- Não diga nada, John. Eu apenas contei isso porque cedo ou tarde a merda toda voa para os jornalistas. E em nome de nossa amizade, principalmente em nome da putaria que fizeram com você, eu acho que te devo essa...
- Certo... Não sei o que dizer.
- Mas eu sei o que fazer. Vou comparar as impressões digitais de Menutti com aquelas encontradas no apartamento. Inclusive algumas delas foram tiradas da velha Remington.
V
O convidado desta noite do programa de entrevistas "Malone" é ninguém menos que o investigador Jeff Smith, que falará sobre a surpreendente prisão de Carl Menutti num caso que deu várias reviravoltas.
- Tem certeza que me perdoa? - diz Madeleine, olhando para seu marido, John William, que por sua vez não tira os olhos da TV, aguardando o início do programa.
- Você sempre faz a mesma pergunta... - ele então responde de forma propositalmente retórica.
- Sim, meu amor. Eu perdôo... Mas não esqueço.
- Queria que fosse possível esquecer.
- Olha, Maddy - John demonstra alguma ternura - Eu também queria. Mas agora vamos ver o programa. Até agora não entendi ao certo como tudo isso aconteceu. Nem o que aconteceu, aliás.
Ambos olham para a TV.
O apresentador faz um resumo rápido da carreira de Jefferson Smith, que começou como patrulheiro e hoje é seguramente o policial mais conhecido de todo o Texas. Após a apresentação bem elogiosa, ele faz a pergunta já esperada, com o propósito de fazer o entrevistado discorrer e esmiuçar o caso que abalou todo o país.
- O que houve, afinal? Como foi possível prender o ex-promotor auxiliar Carl Menutti?
- Devo isso ao velho John William. Sou obrigado a, antes de tudo, falar sobre o homem que foi preso por engano, num ardil tramado por Menutti, e que quase pagou por dezenas de assassinatos...
- Entendo, entendo...
- Foi minha confiança em John que me fez pensar. E então fui atrás de quem teria algum motivo para ferrá-lo... Opa! Me desculpe, não queria usar essa linguagem do distrito...
- Não há problema, já é tarde da noite Jeff. E, cá entre nós, você pode usar uma ou outra palavrinha fora de contexto. Aproveite...
Risadas gerais. Jeff continua:
- Essas coisas geralmente envolvem sexo ou alguma coisa sórdida, infelizmente. E, para salvar John da cadeia, tive que expor sua vida íntima, descobrindo um caso de infidelidade conjugal... Sua esposa, Madeleine, vinha mantendo uma história com Carl havia dez anos!
- Dez anos...
- Sim... Um bom tempo. E apreendemos correspondências nas quais Menutti diz que pretende ajeitar tudo. Entende? "Ajeitar" tudo... E que ele se casaria com Madeleine, que John William deixaria de ser um obstáculo.
- Impressionante, Jeff...
- Sim, todos ficamos chocados. Mas isso, somente isso, não forma um conjunto probatório razoável. Foi quando descobrimos que as impressões digitais do lugar eram do próprio Carl Menutti. E mais: ele não tinha álibi algum para a hora da misteriosa ligação anônima que "denunciou" John William.
- Como foi isso?
- Por certo, deveríamos ter desconfiado. Porque, veja bem: John entra no apartamento. E em coisa de dez minutos a polícia chega. Ele recebeu uma ligação de que haveria por lá uma boa pista sobre um caso. E ele próprio havia anotado em sua agenda - que permaneceu na promotoria - os dados daquele endereço.
- Armaram para ele...
- Armaram! Mas quem? Essa era a pergunta e, quando a respondemos, o caso se encerrou.
- E o que acontece agora com Carl Menutti.
- Aquele verme - e eu vou chamá-lo assim sem medo algum - permanecerá preso por um bom tempo... Ele jura honestidade. Todos juram, né?
- Por quanto tempo?
- O caso ainda vai a julgamento. Espero que a promotoria consiga uma punição exemplar.
- Mas e os assassinatos?
- Todos foram "normais". Não que haja algum assassinato "normal", não é? Mas aquele diário foi forjado. Tudo ali foi inventado para prejudicar o pobre do John.
- Impressionante!
- Mas naqueles diários, havia uma teoria conspiratória...
- É mesmo?
- Sim, acho que todos devem ter saber, mas não custa explicar melhor tudo isso. Segundo os textos datilografados, todas aquelas execuções foram equivocadas. Todas! E havia inclusive uma descrição minuciosa de como as provas foram plantadas: sangue, impressões, pegadas...
- E vocês acreditaram?
- Em princípio, devo confessar, levamos tudo isso a sério. Depois descobrimos que as folhas foram preparadas quase que no mesmo dia, e havia algumas inconsistências em vários casos. Além disso, nosso perito achou mais outras evidências, e tudo apontava para a inocência de John William.
- É, meu caro Jeff, essa é uma história triste que você ainda terá que repetir muitas vezes. Mas nós estamos felizes por ter um policial assim como você! Esse é Jeff Smith, o inves...
John desliga a televisão, Madeleine já está dormindo. Ele a acorda e ambos sobem para o quarto.
VI
Johnm no porão de sua casa, recorta uma notícia do jornal. Diz a manchete:
"Carl Menutti Condenado a 80 Anos de Prisão"
E mais:
"...os delitos, somados, não são considerados de altíssima gravidade, mas a punição exemplar foi uma vitória da promotoria em razão do fato de que todo esse caso abalou a opinião pública texana e também de todo o país..."
John cola o recorte num livro, não manifesta alegria ou tristeza. Nada. Cola, escreve algumas coisas abaixo do recorte colado e fecha aquilo que mais parece um imenso caderno de brochura.
Ele então abre um outro caderno como esse, também imenso, mas repleto de fotos. São cem, duzentos, trezentos rostos. Além das 25 da parede daquele apartamento, há centenas de fotos novas, todas assinaladas com um grande "x" vermelho, bem grosseiro.
Ao final desse livro, duas fotos ainda não estão demarcadas. John faz o "x" numa delas: Carl Menutti. E a outra, de sua esposa, permanece intacta.
Madeleine então o chama para o almoço. Ele guarda os dois livros em sua mochila; mais tarde os levará ao velho depósito de onde raramente saem. Após colocar a mochila sob sua mesa, ele sobe.
Mais uma vez, ela pergunta se ele perdoou. Mais uma vez ele diz que sim. E mais uma vez ela pergunta se ele já esqueceu. Ele, de novo, diz que não. Mas ele sorri, muito discretamente, quando ela vira de costas.
Ele não esqueceu.
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