São cinqüenta anos de saudade, mas ainda hoje Enrique guarda na memória a imagem, o perfume e o som da voz de Paloma. É como se não houvesse passado mais do que alguns minutos desde que se despediram em Málaga, para que ele fosse à guerra.
E ele recebeu com muita surpresa a notícia de seu amigo Miguel, que afirmava ter visto Paloma, fazendo-o de forma ofegante, como se estivesse com medo e entusiasmado num só tempo.
O entusiasmo parecia óbvio, mas o medo se mostrou mais adiante. Miguel afirmou ter visto Paloma numa casa de tolerância. Lá, onde trabalham as putas. Um puteiro, enfim.
Enrique fez as contas e a versão pareceu muito mais inverossímil do que triste. O que faria uma velha de mais de 65 anos num ambiente em geral freqüentado por moças de no máximo 20?
Enrique deu de ombros. No fim da conversa, restavam apenas gargalhadas, ambos embriagados com muito vinho e poucos tapas.
* * *
Miguel acordou com um telefonema de Enrique e reclamou do horário. Era mesmo muito cedo. Mas o amigo trazia em sua voz a inquietação que justifica esse tipo de ligação. O conteúdo, porém, variava do paranóico à pura e simples imbecilidade.
Enquanto Enrique implorava para saber o endereço exato do tal puteiro onde estaria Paloma, Miguel tentava demovê-lo dessa sandice, inclusive mencionando o fato de que os dois haviam concordado quanto à impossibilidade daquilo... Ela estaria velha... Não se falavam havia décadas.
Talvez esteja casada, dizia Miguel, enquanto Enrique contra-atacava apostando na viuvez. O papo pode ser resumido da seguinte forma: enquanto um trazia obstáculo à tese, o outro contornava a dificuldade com maestria retórica.
No fim das contas, vencido pelo cansaço e um tanto aborrecido, Miguel passou o endereço quase que por birra. Mas apostou com o amigo: se Paloma não estivesse por lá, o jantar de sábado seria por conta de Enrique. Aposta feita, aposta aceita.
* * *
Era uma casa simples, exatamente como Enrique imaginava. Uma casa de bairro, sobre a qual ninguém poria qualquer suspeita, não fossem os bêbados que entram e saem a cada noite, fazendo algum barulho ao chegar e verdadeira algazarra ao sair.
Na primeira noite ele não teve coragem para mais do que tão-somente olhar a porta, as janelas e os que entravam e saíam. Passou quase toda a madrugada sentado no banco da praça e observando a casa de uma distância que acreditava ser segura.
Criou coragem no dia seguinte. Usando o velho truque de menino, de quando pulava no rio gelado, percorreu todo o quarteirão sem hesitar e entrou na casa de uma só vez. Diante do rápido olhar de desdém que todos ali desferiram, Enrique imediatamente se deu conta do ridículo da situação.
Mais calmo, foi até aquela que parecia ser a organizadora do recinto e perguntou sobre uma senhora mais velha. Nada. Descreveu. E nada. Paloma? Nada. Não havia ninguém com aquelas descrições, aqueles nomes. Nada, nada, nada.
Enquanto ouvia a enésima negativa a suas perguntas e argumentos, Enrique notou um vulto por uma porta entreaberta. Sob protestos da dona do lugar - cujo nome ele nem sabe qual é - correu até um dos quartos e abriu a porta de uma vez.
Lá estava, de costas para a porta e de frente pra janela. Fumando... Os mesmos cabelos castanhos jogados sobre os ombros, o mesmo perfume, a mesma pele claríssima. Poderia jurar que até as pequenas pintas das costas eram as mesmas.
Não se conteve e gritou pelo nome. A moça virou. A boca, os olhos, o nariz, o rosto. Tudo! Paloma! Paloma! Enrique gritava enquanto um homem sem muito esforço o afastava do quarto. Seu caso exigia menos violência e mais compaixão.
Lá fora, recobrado, percebeu toda sua idiotice. Como ela não teria envelhecido? Perguntava. O homem da segurança apenas sorria, balançava a cabeça e demonstrava respeito pelo velho apaixonado e sonhador.
* * *
No meio do jantar - e com a felicidade típica de quem não pagará pelas despesas - Miguel gargalha a cada vez que Enrique repete a história. Assim que o perdedor acaba de contar, ele pede para que narre mais uma vez. E assim por diante.
Ele diz que os velhos não têm muita coisa nova de que rir, e não quer perder a chance de exaurir toda a graça daquele momento patético. Complementava dizendo que a comicidade estava bem longe de acabar.
Enrique, que no início do jantar sem mostrava um pouco irritado, já quase ria tanto quanto o amigo. E assim foram até o final da noite. A vida prossegue. A paixão por Paloma se mantém.
Um amor que, como todos os outros, existe mais no campo da inexistência do que no da materialidade. Um amor que vai além de tudo não está em lugar físico algum. Um amor tão verdadeiro quanto qualquer sonho.
* * *
Vanessa, a gerente, reportou o fato da semana anterior à dona da casa, Senhora Maura, acrescentando que esse tipo de coisa só acontece quando ela não está.
Maura, que já era bem velha, não acreditava que a jovem Vanessa não se lembrava do nome do misterioso tal senhor. Com algum esforço, a gerente gritou o nome "Paloma", afirmando - com segurança - ser esse o nome da moça por quem ele procurava.
Foi quando Maura, com olhos marejados, disse que talvez o velho homem se chamasse Enrique; logo em seguida, e bem rapidamente, balançou a cabeça de um lado para o outro, com os olhos cerrados, e esboçou um sorriso saudoso.
O tempo às vezes acaba mesmo quando pensamos que ainda dá tempo, disse Maura. Vanessa fingiu entender.
* * *
E o tempo prosseguiu mais um pouco para Enrique e Paloma.
E ele recebeu com muita surpresa a notícia de seu amigo Miguel, que afirmava ter visto Paloma, fazendo-o de forma ofegante, como se estivesse com medo e entusiasmado num só tempo.
O entusiasmo parecia óbvio, mas o medo se mostrou mais adiante. Miguel afirmou ter visto Paloma numa casa de tolerância. Lá, onde trabalham as putas. Um puteiro, enfim.
Enrique fez as contas e a versão pareceu muito mais inverossímil do que triste. O que faria uma velha de mais de 65 anos num ambiente em geral freqüentado por moças de no máximo 20?
Enrique deu de ombros. No fim da conversa, restavam apenas gargalhadas, ambos embriagados com muito vinho e poucos tapas.
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Miguel acordou com um telefonema de Enrique e reclamou do horário. Era mesmo muito cedo. Mas o amigo trazia em sua voz a inquietação que justifica esse tipo de ligação. O conteúdo, porém, variava do paranóico à pura e simples imbecilidade.
Enquanto Enrique implorava para saber o endereço exato do tal puteiro onde estaria Paloma, Miguel tentava demovê-lo dessa sandice, inclusive mencionando o fato de que os dois haviam concordado quanto à impossibilidade daquilo... Ela estaria velha... Não se falavam havia décadas.
Talvez esteja casada, dizia Miguel, enquanto Enrique contra-atacava apostando na viuvez. O papo pode ser resumido da seguinte forma: enquanto um trazia obstáculo à tese, o outro contornava a dificuldade com maestria retórica.
No fim das contas, vencido pelo cansaço e um tanto aborrecido, Miguel passou o endereço quase que por birra. Mas apostou com o amigo: se Paloma não estivesse por lá, o jantar de sábado seria por conta de Enrique. Aposta feita, aposta aceita.
* * *
Era uma casa simples, exatamente como Enrique imaginava. Uma casa de bairro, sobre a qual ninguém poria qualquer suspeita, não fossem os bêbados que entram e saem a cada noite, fazendo algum barulho ao chegar e verdadeira algazarra ao sair.
Na primeira noite ele não teve coragem para mais do que tão-somente olhar a porta, as janelas e os que entravam e saíam. Passou quase toda a madrugada sentado no banco da praça e observando a casa de uma distância que acreditava ser segura.
Criou coragem no dia seguinte. Usando o velho truque de menino, de quando pulava no rio gelado, percorreu todo o quarteirão sem hesitar e entrou na casa de uma só vez. Diante do rápido olhar de desdém que todos ali desferiram, Enrique imediatamente se deu conta do ridículo da situação.
Mais calmo, foi até aquela que parecia ser a organizadora do recinto e perguntou sobre uma senhora mais velha. Nada. Descreveu. E nada. Paloma? Nada. Não havia ninguém com aquelas descrições, aqueles nomes. Nada, nada, nada.
Enquanto ouvia a enésima negativa a suas perguntas e argumentos, Enrique notou um vulto por uma porta entreaberta. Sob protestos da dona do lugar - cujo nome ele nem sabe qual é - correu até um dos quartos e abriu a porta de uma vez.
Lá estava, de costas para a porta e de frente pra janela. Fumando... Os mesmos cabelos castanhos jogados sobre os ombros, o mesmo perfume, a mesma pele claríssima. Poderia jurar que até as pequenas pintas das costas eram as mesmas.
Não se conteve e gritou pelo nome. A moça virou. A boca, os olhos, o nariz, o rosto. Tudo! Paloma! Paloma! Enrique gritava enquanto um homem sem muito esforço o afastava do quarto. Seu caso exigia menos violência e mais compaixão.
Lá fora, recobrado, percebeu toda sua idiotice. Como ela não teria envelhecido? Perguntava. O homem da segurança apenas sorria, balançava a cabeça e demonstrava respeito pelo velho apaixonado e sonhador.
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No meio do jantar - e com a felicidade típica de quem não pagará pelas despesas - Miguel gargalha a cada vez que Enrique repete a história. Assim que o perdedor acaba de contar, ele pede para que narre mais uma vez. E assim por diante.
Ele diz que os velhos não têm muita coisa nova de que rir, e não quer perder a chance de exaurir toda a graça daquele momento patético. Complementava dizendo que a comicidade estava bem longe de acabar.
Enrique, que no início do jantar sem mostrava um pouco irritado, já quase ria tanto quanto o amigo. E assim foram até o final da noite. A vida prossegue. A paixão por Paloma se mantém.
Um amor que, como todos os outros, existe mais no campo da inexistência do que no da materialidade. Um amor que vai além de tudo não está em lugar físico algum. Um amor tão verdadeiro quanto qualquer sonho.
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Vanessa, a gerente, reportou o fato da semana anterior à dona da casa, Senhora Maura, acrescentando que esse tipo de coisa só acontece quando ela não está.
Maura, que já era bem velha, não acreditava que a jovem Vanessa não se lembrava do nome do misterioso tal senhor. Com algum esforço, a gerente gritou o nome "Paloma", afirmando - com segurança - ser esse o nome da moça por quem ele procurava.
Foi quando Maura, com olhos marejados, disse que talvez o velho homem se chamasse Enrique; logo em seguida, e bem rapidamente, balançou a cabeça de um lado para o outro, com os olhos cerrados, e esboçou um sorriso saudoso.
O tempo às vezes acaba mesmo quando pensamos que ainda dá tempo, disse Maura. Vanessa fingiu entender.
* * *
E o tempo prosseguiu mais um pouco para Enrique e Paloma.
1 comentários:
Eu sei que hj tlvz não seja um bom dia para fazer perguntas que possam ser cretinas, mas eu li o texto e fiquei refletindo....(cheiro de queimado....)seria a tal moça que Enrique viu, filha de Maura, que na verdade se chama Paloma???????me conta, explica a história por favor!!!!Aqui não é tão simples quanto ao gravataimerengue!!!!beijo
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