A moça da agência de encontros - que quando o mundo era feito de coisas menos efêmeras chamávamos de "agência matrimonial" - franziu a testa e pediu para eu repetir mais de uma vez exatamente aquilo que procurava.
Disse-lhe que procuro uma mulher que goste de hambúrguer não exatamente mal-passado, mas sim naquele estágio entre isso e "ao ponto". E como ela, a mocinha da agência, insistia em demais características físicas das pretendentes, fui obrigado a contar minha história.
Acho que os problemas começaram na época do colégio, ainda; mas pus a faculdade como "marco zero": eu já tinha carro e certa autonomia (ou seja, escada de incêndio dava vez a drive-in).
Meu primeiro casinho era uma moça da minha sala, mesmo, e ficamos juntos por alguns meses. Ela era linda, sem dúvida, mas a beleza foi esmorecendo à medida em que descobri seu gosto pelo ritmo que então começavam a denominar "axé music".
Hoje, por exemplo, não terminaria uma relação de seis meses por causa disso. Possivelmente agüentaria mais umas duas semanas. Naquela época, porém, não tinha a mesma maturidade e encerrei o que tínhamos por pura incompatibilidade musical (ou gástrica, já que tais canções sempre me provocam dores de estômago).
Eu disputava xadrez pelo time da faculdade; éramos em quatro, e o time titular possuía dois jogadores. Em caso de óbito - ou coisa pior - eu entraria. Mas era um orgulho representar minha instituição de ensino, principalmente com a torcida uniformizada gritando "Pensa! Pensa! Pensa!" para estimular os jogadores.
Num desses eventos, conheci minha segunda namoradinha, que também era enxadrista (ela era do time titular de sua universidade, que por sinal ficava no sul de Minas Gerais). Com ela, aprendi algumas coisas importantes: namoro à distância funciona tanto quanto simpatia para tirar verruga, mulheres enxadristas são tão boas de cama quanto garotas de programas são boas em xadrez e... - essa sim a melhor das lições - ...é mais fácil conquistar mulheres com outros esportes.
Dali a tantos meses, houve outros jogos desses em que todo mundo se reúne para beber e eventualmente realizar alguma partida de qualquer que seja a modalidade. Sem querer - e juro que foi mesmo sem querer! - sentei-me no banco de reservas do time de vôlei. Só de estar lá, faturei uma menina linda, que foi uma excelente companhia durante aquela noite, mas no dia seguinte se mostrou uma pessoa bem pouco aprazível diante da insistência em revogar o plural de nossa Língua à revelia do que sempre nos ensinaram.
Desde então, mediante uma paga que custava algo em torno de 10% de minha mesada, fiz com que o técnico me pusesse como reserva do time de vôlei e, como eu não jogava, estava sempre cheiroso e pronto para falar da performance do meu time; inclusive descobri o que era um "saque" (isso mais ou menos um ano após fazer parte da equipe).
Mas é claro que esse tempo dos jogos se acabou; até porque muita gente estranhava o fato de eu, mesmo formado, continuar fazendo parte do banco de reservas do time de vôlei de minha universidade.
Já formado e trabalhando, passei a freqüentar bares e locais congêneres com meus amigos solteiros: respectivamente, Meleca e Taturana. Por mais que eu seja uma pessoa difícil, com esses dois tudo ficava ainda mais impossível.
Troquei de amigos, e um desses novos custava mais barato que a assinatura do Canal Espanhol; inclusive, ele aumentou o preço quando descobriu a defasagem de valores. Mas com a nova turma era mais fácil conseguir mulheres.
Como sabemos, elas saem em bando, e não é raro ter uma mais feia. Essa era a minha - exceto quando a bonita da turma decidia sair comigo para pagar algum tipo de promessa, atender à vontade de orixás ou simplesmente em razão da altíssima dosagem alcoólica.
Foi uma fase muito boa da minha vida, na qual saí com uma miríade de mulheres e descobri mil miríades de defeitos que o ser humano possuía. Um deles é o fato de que 80% da humanidade simplesmente não pode ser humana, sob pena de eu mesmo não sê-lo, pois me recuso a ser da mesma espécie que eles.
Mas sigamos.
Não sei quando foi isso, não sei mesmo, mas em dado momento passei a ser mais assediado pelas mulheres. Começou aos poucos, é verdade, em princípio ganhando uma cantada - às vezes por engano - a cada semestre. Mas em cinco anos eu já conseguia dois sorrisos por mês.
Lá pelas tantas - e por "tantas", por favor, entendam "décadas" - passei a ser MESMO cobiçado. E aí meus problemas definitivamente ganharam corpo. Ou melhor, corpos. Vários corpos. De todos os tipos. Cérebros, mesmo, foram poucos.
As decepções foram tantas que é preciso fazer um resumo.
Uma publicitária maravilhosa, que conheci numa festa não me lembro onde, certa vez pediu de presente um CD da dupla "Claudinho e Buchecha". Foi o bastante para nunca mais voltar. Uma arquiteta, por sua vez, torcia para um time de futebol odiado por mim.
Saí com uma alta funcionária do governo que mais discutia política do que qualquer coisa. Minha maior divergência nem era sobre o tamanho de uma administração pública, mas sim a intensidade de seu mau hálito.
Acho que depois desse tempo todo me tornei um homem mais interessante. Mas, à mesma proporção, passei a achar desinteressantes logo de cara muitas mulheres que, em outros tempos, eu comeria sem perguntar o nome.
Deixei de sair com uma delas, por exemplo, logo depois de ser perguntado sobre meu signo. Com outra, não passei uma noite depois de saber que ela fazia yôga (assim mesmo, com acento). Achei pedante.
A verdade é que não havia mulher para mim, pois a vida nos ensina que "os opostos se atraem" é uma máxima tão eficiente quando "deus ajuda quem cedo madruga" (basta ver a relação proporcional entre as pessoas que acordam cedo e suas vidas financeira, amorosa, profissional etc).
Foi aí que conheci meu grande amor. Ou aquela que, então, eu acreditava ser a mulher de minha vida. Tínhamos gostos parecidos, e éramos também quase idênticos nos defeitos e virtudes.
A coisa foi bem durante anos, anos mesmo, até que decidimos ir a uma dessas lanchonetes da moda para dividir um hambúrguer. Ela e eu nunca prestamos atenção no que o outro pede, cada um come o que quer, como quer, e ninguém tem nada com isso (exceto nos casos de alimentos que prejudicam a vida social debaixo das cobertas).
Mas ao dividir o hambúrguer houve um problema grave. Ela gosta da carne muito bem passada - o que é considerado uma ofensa em qualquer cozinha e, digo mais, dá pena de morte em pelo menos sete estados norte-americanos. Eu, claro, gosto da carne mal passada, quase ao ponto.
Depois de uma veemente discussão - seguida de um armistício que nos fez pedir costelinhas de porco -, nossa relação não foi mais a mesma. Tudo passou a ser motivo de briga. Éramos 'parecidos' nas coisas grandes, mas nos detalhes éramos como dois estranhos, dois seres de planetas distintos (nesse caso, insisto que o terráqueo da dupla era eu).
Por isso contei essa história toda para a mocinha da agência, e em dado momento ela não apenas entendeu, mas se mostrou interessadíssima na epopéia. Interessada até demais, eu diria, pois esticamos para um café e isso fez com que ficássemos juntos logo naquela primeira noite.
Nunca acreditei em amor à primeira vista. Mas passei a acreditar. Tenho passado com ela os melhores dias de minha vida e, de tanto que nos gostamos, nunca parei para pensar em gostos, defeitos, virtudes ou coisas assim. È bom e pronto. É simples e complicado ao mesmo tempo, mas nos entendemos.
E agora cá estou, sentado em nosso banheiro, olhando há quarenta minutos para o rolo de papel higiênico. Ela coloca de modo que sai pela parte da frente, mas sempre me acostumei com o papel saindo pela parte de trás.
Tento não pensar nisso, mas sei que vai ser difícil me esquecer dessa divergência nos próximos dias.
Disse-lhe que procuro uma mulher que goste de hambúrguer não exatamente mal-passado, mas sim naquele estágio entre isso e "ao ponto". E como ela, a mocinha da agência, insistia em demais características físicas das pretendentes, fui obrigado a contar minha história.
Acho que os problemas começaram na época do colégio, ainda; mas pus a faculdade como "marco zero": eu já tinha carro e certa autonomia (ou seja, escada de incêndio dava vez a drive-in).
Meu primeiro casinho era uma moça da minha sala, mesmo, e ficamos juntos por alguns meses. Ela era linda, sem dúvida, mas a beleza foi esmorecendo à medida em que descobri seu gosto pelo ritmo que então começavam a denominar "axé music".
Hoje, por exemplo, não terminaria uma relação de seis meses por causa disso. Possivelmente agüentaria mais umas duas semanas. Naquela época, porém, não tinha a mesma maturidade e encerrei o que tínhamos por pura incompatibilidade musical (ou gástrica, já que tais canções sempre me provocam dores de estômago).
Eu disputava xadrez pelo time da faculdade; éramos em quatro, e o time titular possuía dois jogadores. Em caso de óbito - ou coisa pior - eu entraria. Mas era um orgulho representar minha instituição de ensino, principalmente com a torcida uniformizada gritando "Pensa! Pensa! Pensa!" para estimular os jogadores.
Num desses eventos, conheci minha segunda namoradinha, que também era enxadrista (ela era do time titular de sua universidade, que por sinal ficava no sul de Minas Gerais). Com ela, aprendi algumas coisas importantes: namoro à distância funciona tanto quanto simpatia para tirar verruga, mulheres enxadristas são tão boas de cama quanto garotas de programas são boas em xadrez e... - essa sim a melhor das lições - ...é mais fácil conquistar mulheres com outros esportes.
Dali a tantos meses, houve outros jogos desses em que todo mundo se reúne para beber e eventualmente realizar alguma partida de qualquer que seja a modalidade. Sem querer - e juro que foi mesmo sem querer! - sentei-me no banco de reservas do time de vôlei. Só de estar lá, faturei uma menina linda, que foi uma excelente companhia durante aquela noite, mas no dia seguinte se mostrou uma pessoa bem pouco aprazível diante da insistência em revogar o plural de nossa Língua à revelia do que sempre nos ensinaram.
Desde então, mediante uma paga que custava algo em torno de 10% de minha mesada, fiz com que o técnico me pusesse como reserva do time de vôlei e, como eu não jogava, estava sempre cheiroso e pronto para falar da performance do meu time; inclusive descobri o que era um "saque" (isso mais ou menos um ano após fazer parte da equipe).
Mas é claro que esse tempo dos jogos se acabou; até porque muita gente estranhava o fato de eu, mesmo formado, continuar fazendo parte do banco de reservas do time de vôlei de minha universidade.
Já formado e trabalhando, passei a freqüentar bares e locais congêneres com meus amigos solteiros: respectivamente, Meleca e Taturana. Por mais que eu seja uma pessoa difícil, com esses dois tudo ficava ainda mais impossível.
Troquei de amigos, e um desses novos custava mais barato que a assinatura do Canal Espanhol; inclusive, ele aumentou o preço quando descobriu a defasagem de valores. Mas com a nova turma era mais fácil conseguir mulheres.
Como sabemos, elas saem em bando, e não é raro ter uma mais feia. Essa era a minha - exceto quando a bonita da turma decidia sair comigo para pagar algum tipo de promessa, atender à vontade de orixás ou simplesmente em razão da altíssima dosagem alcoólica.
Foi uma fase muito boa da minha vida, na qual saí com uma miríade de mulheres e descobri mil miríades de defeitos que o ser humano possuía. Um deles é o fato de que 80% da humanidade simplesmente não pode ser humana, sob pena de eu mesmo não sê-lo, pois me recuso a ser da mesma espécie que eles.
Mas sigamos.
Não sei quando foi isso, não sei mesmo, mas em dado momento passei a ser mais assediado pelas mulheres. Começou aos poucos, é verdade, em princípio ganhando uma cantada - às vezes por engano - a cada semestre. Mas em cinco anos eu já conseguia dois sorrisos por mês.
Lá pelas tantas - e por "tantas", por favor, entendam "décadas" - passei a ser MESMO cobiçado. E aí meus problemas definitivamente ganharam corpo. Ou melhor, corpos. Vários corpos. De todos os tipos. Cérebros, mesmo, foram poucos.
As decepções foram tantas que é preciso fazer um resumo.
Uma publicitária maravilhosa, que conheci numa festa não me lembro onde, certa vez pediu de presente um CD da dupla "Claudinho e Buchecha". Foi o bastante para nunca mais voltar. Uma arquiteta, por sua vez, torcia para um time de futebol odiado por mim.
Saí com uma alta funcionária do governo que mais discutia política do que qualquer coisa. Minha maior divergência nem era sobre o tamanho de uma administração pública, mas sim a intensidade de seu mau hálito.
Acho que depois desse tempo todo me tornei um homem mais interessante. Mas, à mesma proporção, passei a achar desinteressantes logo de cara muitas mulheres que, em outros tempos, eu comeria sem perguntar o nome.
Deixei de sair com uma delas, por exemplo, logo depois de ser perguntado sobre meu signo. Com outra, não passei uma noite depois de saber que ela fazia yôga (assim mesmo, com acento). Achei pedante.
A verdade é que não havia mulher para mim, pois a vida nos ensina que "os opostos se atraem" é uma máxima tão eficiente quando "deus ajuda quem cedo madruga" (basta ver a relação proporcional entre as pessoas que acordam cedo e suas vidas financeira, amorosa, profissional etc).
Foi aí que conheci meu grande amor. Ou aquela que, então, eu acreditava ser a mulher de minha vida. Tínhamos gostos parecidos, e éramos também quase idênticos nos defeitos e virtudes.
A coisa foi bem durante anos, anos mesmo, até que decidimos ir a uma dessas lanchonetes da moda para dividir um hambúrguer. Ela e eu nunca prestamos atenção no que o outro pede, cada um come o que quer, como quer, e ninguém tem nada com isso (exceto nos casos de alimentos que prejudicam a vida social debaixo das cobertas).
Mas ao dividir o hambúrguer houve um problema grave. Ela gosta da carne muito bem passada - o que é considerado uma ofensa em qualquer cozinha e, digo mais, dá pena de morte em pelo menos sete estados norte-americanos. Eu, claro, gosto da carne mal passada, quase ao ponto.
Depois de uma veemente discussão - seguida de um armistício que nos fez pedir costelinhas de porco -, nossa relação não foi mais a mesma. Tudo passou a ser motivo de briga. Éramos 'parecidos' nas coisas grandes, mas nos detalhes éramos como dois estranhos, dois seres de planetas distintos (nesse caso, insisto que o terráqueo da dupla era eu).
Por isso contei essa história toda para a mocinha da agência, e em dado momento ela não apenas entendeu, mas se mostrou interessadíssima na epopéia. Interessada até demais, eu diria, pois esticamos para um café e isso fez com que ficássemos juntos logo naquela primeira noite.
Nunca acreditei em amor à primeira vista. Mas passei a acreditar. Tenho passado com ela os melhores dias de minha vida e, de tanto que nos gostamos, nunca parei para pensar em gostos, defeitos, virtudes ou coisas assim. È bom e pronto. É simples e complicado ao mesmo tempo, mas nos entendemos.
E agora cá estou, sentado em nosso banheiro, olhando há quarenta minutos para o rolo de papel higiênico. Ela coloca de modo que sai pela parte da frente, mas sempre me acostumei com o papel saindo pela parte de trás.
Tento não pensar nisso, mas sei que vai ser difícil me esquecer dessa divergência nos próximos dias.
5 comentários:
Muito bom!
acho que todo mundo tem um pouco disso, encanar com os mais simples e pequenos detalhes que divergem dos gostos, eu estou realmente aprendendo a não me atentar tanto aos detalhes e a ver que tbm tenho muitos defeitos para alguem como eu, tao atenta, ver.
Como é gostoso te ler, esqueci de como era bom, virei mais vezes te visitar...
Amei o texto da menina-mulher, muita sensibilidade sua, percebo o quanto você cresceu como escritor e como pessoa, e como homem.
Vc sabe que esse é o seu canto, que eu mais gosto de ficar!
beijokas
cheguei aqui por acaso. ficarei por querer. lindos os textos.
bj,
hellen.
É, grave. Eu passei a respeitar quem come pizza com katchup...Mas, te entendo, perfeitamente.
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