Quinta-feira, Maio 01, 2008

OS ALMOÇOS DE DOMINGO NA CASA DE MEU AMIGO ABELARDO

Os almoços de domingo na casa de meu amigo Abelardo são especialmente interessantes e as coisas por lá nunca são monótonas. Eu o conheço desde a infância e, nos últimos tempos, tenho participado desses convescotes familiares pelo menos uma vez a cada mês.

Seu avô, o Doutor Ignácio, já tem seus oitenta e tantos anos e se locomove por meio de uma cadeira-de-rodas. Na verdade, não precisaria usar nem mesmo bengala, mas ele diz que mais cedo ou mais tarde acabará precisando, então o melhor a fazer é treinar. E está nisso há uns quatro anos. Por certo, quando precisar, será um dos melhores cadeirantes idosos de que se tem notícia.

No início, confesso, fiquei um tanto aborrecido com essa mania extravagante, pois parecia uma forma de fazer troça com os deficientes. Mas Doutor Ignácio assegurou que os respeita sobremaneira e nunca fez nada que atentasse contra tal minoria; o máximo a que já chegou foi pensar em cortar um pedaço da perna esquerda para poder competir nas Para Olimpíadas (já que possuía índice para-olímpico em mais de sete modalidades). Mas isso foi há muito tempo e ele acabou não levando adiante os planos esportivos.

Tia Guiomar, mulher do Doutor Ignácio e avó do Abelardo, é uma das pessoas mais adoráveis que já conheci. Infelizmente, nem sempre a adorabilidade de uma pessoa é proporcional à sua capacidade de fazer boas tortas. Pior ainda: quanto mais adorável a cozinheira, tanto menos é aceitável recusar seus pratos. Mas a companhia de Tia Guimar valia o sacrifício de saborear as tortas no mínimo intrigantes que ela produzia misturando elementos gastronômicos que, seguramente, foram criados por Deus para que jamais fossem aproximados uns dos outros.

As refeições, que ocorriam após todos chegarem e também com o término da partida de tranca realizada entre os mais velhos, eram todas elas precedidas por longas orações, pregações e muitas vezes discursos políticos, e essa parte mais prolixa ficava a cargo do Tio Onofre, irmão caçula de Guiomar, ou seja, tio-avô de Abelardo.

Onofre já foi suplente de Vereador em Águas de Lindóia. Caso toda a Câmara Municipal fosse destituída e outros setenta candidatos da fila de espera morressem por conta de alguma tragédia, ele já se tornaria o décimo quarto da fila. Essa larga experiência política é a base dos discursos inflamados de Onofre, que por sinal é trilíngüe, com fluência em Português e outros dois dialetos que ele mesmo inventou e agrega ao nosso idioma de um jeito todo especial.

Mas a melhor parte são as conversas com Seu Agenor, pai de Abelardo e filho de Ignácio e Guiomar, que se tornou viúvo dois anos após o nascimento do filho único. As conversas são boas porque ou ele é provavelmente a pessoa mais poderosa, rápida, inteligente, influente e rica do mundo, ou então talvez um pouco do que ele diga seja mentira.

Entre outras façanhas, já ouvi de Seu Agenor que foi condecorado pela Rainha da Inglaterra, que foi escalado para a Copa de 70 mas declinou na última hora por motivos religiosos, que era o único estudante de sua faculdade que, ao mesmo tempo, fazia parte do CCC e do MR-8 e nenhum dos dois grupos tinha coragem de expulsá-lo.

Muito provavelmente em função de sua infinita humildade, Agenor não empreendeu qualquer império empresarial ou político e passou quase toda a vida nas imediações do Jaguaré, onde montou uma pequena casa lotérica que funciona até hoje.

Abelardo tem uma prima, a Maria da Penha, que a família muitas vezes tentou transformar em minha namorada. Nunca aceitei, e confesso que as recusas não se davam tanto pelo bigode avantajado da pequena Maria, ou mesmo em razão de suas constantes crises de gases. É que não gosto de misturar uma amizade fraterna com esse tipo de relação mais lasciva. Isso nunca deu certo.

Enfim, os almoços com a família de Abelardo são sempre grandes eventos, com tios, tias, primos e todos esses que já citei. Sempre começa cedo e acaba tarde, mas nunca percebo o tempo passar.

Eu só fico chateado quando minha psiquiatra, contrariando toda essa emoção e esse carinho que manifesto ao contar essa e outras histórias, resolve dizer, na maior frieza, que o Abelardo não existe e é apenas uma criação da minha cabeça.

Com essa grosseria insensível, é muito difícil tomar os remédios que ela alega serem necessários. Aliás, o próprio Abelardo já me disse, e mais de uma vez, que a medicação é pura bobagem. E ele é firme nessa convicção, pois fica um tempão sem dar as caras toda vez que resolvo tomar os tais remédios.

1 comentários:

Anônimo disse...

Boa demais! Fazia tempo que não passava aqui!
Beijocas