Era, sem dúvida, uma exigência estranha, mas aquela definitivamente não seria uma boa hora para questionar esse tipo de pedido. O avô, falecido naquele dia, sempre pedira para ser enterrado com um par de sapatos especialmente comprado para isso.
De fato, os sapatos eram lindos. E, no fim das contas, tanta gente pede coisa estranha para esse tipo de ocasião... Os sapatos não seriam um grande problema, ainda que contrastassem com o perfil daquele senhor sempre cético.
Um dos filhos levou os calçados para a equipe do velório, que atendeu prontamente ao pedido. Contaram algumas histórias tragicômicas, como a da senhora que exigiu ter o cabelo todo raspado para que vissem sua careca e um outro que desejava ter apenas os joelhos exibidos (o resto do caixão ficou fechado).
E tudo foi de acordo com o desejo do patriarca daquela família que chorava em volta do féretro. Aliás, palavra estranha por palavra estranha, ele sempre usava "ataúde".
Tudo acabou, ele foi enterrado, a vida seguiu.
Mas ninguém soube é de como as coisas realmente aconteceram. O caixão - féretro? ataúde? - era muito maior que o corpo e, mesmo preenchido com todas aquelas flores, ainda mantinha uma "sobra".
Os dois rapazes da funerária fizeram aquilo que sempre se faz nesses casos: enterraram o defunto sem os sapatos, apenas colocando-os mais para perto da parte de baixo do caixão. Ninguém percebia, mas na verdade o morto não calçava as lindíssimas peças de cromo alemão.
Se houvesse vida após a morte, o velho voltaria para reclamar. O mais provável, porém, é que jamais voltasse, mesmo no caso de haver alguma coisa do tipo, por pura birra. Riria sozinho da ironia de ser enterrado sem os sapatos comprados para isso, mas resmungaria por estar errado sobre o além.
Mas ele está certo. E é uma vitória argumentativa que jamais poderá ser comemorada, essa é a desvantagem.
Em algum tempo, as folhas murcharão e o calçado cairá sobre os ossos dentro do caixão. Do féretro. Do ataúde.
Ele aproveitou o tempo em vida para se vangloriar do conhecimento de palavras estranhas, pois sabia que não comemoraria a vitória conceitual no que diz respeito à vida após a morte.
Poeticamente, é bonito imaginá-lo sorrindo. Embora ele próprio talvez odiasse essa poesia. Ao mesmo tempo, dizia a todos que não acreditava em lirismo sem uma boa dose de mentira e fingimento.
Por que será que ele pediu para ser enterrado com aqueles sapatos? Talvez para fazer com que todos reflitamos acerca disso; ou apenas porque os achou bonitos.
De fato, os sapatos eram lindos. E, no fim das contas, tanta gente pede coisa estranha para esse tipo de ocasião... Os sapatos não seriam um grande problema, ainda que contrastassem com o perfil daquele senhor sempre cético.
Um dos filhos levou os calçados para a equipe do velório, que atendeu prontamente ao pedido. Contaram algumas histórias tragicômicas, como a da senhora que exigiu ter o cabelo todo raspado para que vissem sua careca e um outro que desejava ter apenas os joelhos exibidos (o resto do caixão ficou fechado).
E tudo foi de acordo com o desejo do patriarca daquela família que chorava em volta do féretro. Aliás, palavra estranha por palavra estranha, ele sempre usava "ataúde".
Tudo acabou, ele foi enterrado, a vida seguiu.
Mas ninguém soube é de como as coisas realmente aconteceram. O caixão - féretro? ataúde? - era muito maior que o corpo e, mesmo preenchido com todas aquelas flores, ainda mantinha uma "sobra".
Os dois rapazes da funerária fizeram aquilo que sempre se faz nesses casos: enterraram o defunto sem os sapatos, apenas colocando-os mais para perto da parte de baixo do caixão. Ninguém percebia, mas na verdade o morto não calçava as lindíssimas peças de cromo alemão.
Se houvesse vida após a morte, o velho voltaria para reclamar. O mais provável, porém, é que jamais voltasse, mesmo no caso de haver alguma coisa do tipo, por pura birra. Riria sozinho da ironia de ser enterrado sem os sapatos comprados para isso, mas resmungaria por estar errado sobre o além.
Mas ele está certo. E é uma vitória argumentativa que jamais poderá ser comemorada, essa é a desvantagem.
Em algum tempo, as folhas murcharão e o calçado cairá sobre os ossos dentro do caixão. Do féretro. Do ataúde.
Ele aproveitou o tempo em vida para se vangloriar do conhecimento de palavras estranhas, pois sabia que não comemoraria a vitória conceitual no que diz respeito à vida após a morte.
Poeticamente, é bonito imaginá-lo sorrindo. Embora ele próprio talvez odiasse essa poesia. Ao mesmo tempo, dizia a todos que não acreditava em lirismo sem uma boa dose de mentira e fingimento.
Por que será que ele pediu para ser enterrado com aqueles sapatos? Talvez para fazer com que todos reflitamos acerca disso; ou apenas porque os achou bonitos.
Revisão: Patrícia Köhler
1 comentários:
Com certeza não foi só porquê eram bonitos... Vou voltar aki só prqu gostei de ler. 1 abraço
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