Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

SEM TRILHA SONORA

Nós nunca tivemos a nossa música e isso nunca teve importância alguma. Talvez porque nunca precisássemos parar para escolher uma música ou porque nossa história fosse importante demais para ser interrompida a fim de que escolhêssemos a trilha sonora. Não temos uma música que seja nossa e isso faz com que não a tenhamos e, ao mesmo tempo, todas sejam.

Qualquer acorde é nosso. Qualquer batida em um mísero tambor eu sei que é nosso. Guitarra, violão, gaita de fole, não importa. Somos nós, ali, naquelas notas. Afinadas ou não, isso também não conta. É tudo nosso, porque nada foi escolhido. As trilhas sonoras oficiais são uma caretice de que abrimos mão para ganhar a prerrogativa irresponsável de ter direito a tudo.

Talvez porque o amor é isso: é tudo. Mesmo quando nas piores brigas você ou eu nos agredimos fingindo que seja algo quase igual ao nada. Ou, no máximo, um pouco maior. Ou algo que já tenha passado. Ah, como somos bons em teorias!

Mesmo no pior momento da pior crise no pior dos dias, quando nossos olhos se encontram tudo vai pelo ralo. É como se uma força natural muito maior derrubasse a edificação racional elaborada para resistir a qualquer força.

E não resiste.

O curioso é que não queremos que resista. Sabemos disso. A vida segue. Não sabemos até quando. Aqui faz frio. Você e eu não nos vemos há muito tempo. Eu adoro falar por você com aquela arrogância de quem supõe estar certo. Mais ou menos como quando você fala por mim supondo também estar certa.

Porque ambos estamos.

Queria agora ouvir a nossa música. Mas não a temos. Isso me deixa feliz. Porque nosso amor não tem essa falsidade teatral, não tem script, não tem trilha sonora. Não importa o que eu ouça, ou mesmo não ouça, sei que é nosso. Porque tudo é nosso. E nada também.

5 comentários:

Re disse...

Lindo... Tudo aqui é muito diferente dos seu outros blogs. Gostei muito, de verdade.
;-)

Beijos.

Bruno Alvaro disse...

Meu caro, não tenho palavras para descrever o que foi a leitura desse texto, nem quero tentar classifica-lo. Parabéns. Parabéns mesmo!

Marina disse...

Como vc faz isso, assim, de repente??
E fica de estorinha que "perdeu a mão". Hein?

carol disse...

Muito bom, me emocionei. Tô sensível hoje e seu texto me fez chorar...

Tatiana Carvalho disse...

Pode ter perdido a mão, mas não o coração =)